356. Rescaldo

A comoção é péssima conselheira. E é o que ficará patente nos próximos dias, na cobertura do incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, Rio Grande do Sul, no que pode ser o segundo pior incidente do tipo no Brasil, perdendo apenas para o incêndio do Gran Circus Norte-Americano, que ocorreu em Niterói, em 17/12/1961, e vitimou 372 pessoas, crianças em sua maioria.

E a comoção causada pelo incêndio da boate levantará várias questões relativas à segurança e à administração de casas noturnas. Teremos debates intermináveis nos meios de comunicação com especialistas em segurança, que sugerirão mudanças nas leis que regulam o funcionamento desses estabelecimentos. Começará a caça às bruxas, o Poder Público surgirá como depositário inconteste do que é melhor para seus administrados.

Analisando a coisa friamente — além da comoção, a reflexão objetiva é necessária —, segurança é um assunto mais privado que público. Serei sincero em dizer que boates juntam duas coisas que me enchem de pavor: lugar fechado e multidão, ingredientes de grandes desgraças — basta lembramos-nos do incidente do Cine Oberdan, na Capital, em 1938, causado por um falso alarme de incêndio. Resultado: 31 mortos, pisoteados; 30 eram crianças.

Mesmo que a responsabilidade dos donos da boate seja mínima — ao que parece, as vistorias e a documentação estavam em ordem — algum buraco, fresta ou desatenção será achado para condenar os responsáveis, porque pais indignados querem justiça, o que é plausível. Os ânimos e a opinião pública precisam ser aplacados.

Afinal, as desgraças pontuais passam e o Brasil continua sendo o país do samba, do futebol, do Carnaval, da Copa, das Olimpíadas, da inconsequência e da amoralidade; essas duas últimas sim, desgraças perenes.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 29/1/2013.

355. Best-seller, bad reader

Você, leitor, já deu uma olhada na lista dos livros mais vendidos? Não a última lista, qualquer uma. Há revistas que a publicam mensalmente. Estão ali os livros da moda, o que o jet set está lendo. É certo que houve uma queda geral da cultura da elite  e não somente cá na Botocúndia — os países ditos desenvolvidos também padecem de uma espécie de imbecilidade patogênica — mas entre nós, parece que a “nata” é exatamente aquele agregado pastoso que boia sobre uma larga e funda poça de chorume.

Quanto à leitora ditada por essa gente — afinal, é ela que move o mercado editorial —, está sempre repleta ou de livros de autoajuda, cuja única ajuda é para o bolso do autor/compilador esperto, ou esse vomitivos libelos da moda: ou são vampiros, ou são zumbis ou algum outro mundo paralelo. Exceção notória nessas listas é Tolkien, autor de fôlego cuja obra é profunda. O resto, um pires d’água.

Tente pegar uma lista dessas de três ou quatro anos atrás. Poucos se lembrarão daqueles mais vendidos. Onde estão? Onde merecem: nos porões mais úmidos dos sebos ou apodrecendo em depósitos de lixo.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 27/1/2013.

354. Instituições

Quando você deixa uma cidade grande e a troca por lugares menores, percebe a diferença. Uma cidade média pode parecer um lugarejo poeirento se você vier, por exemplo, de São Paulo, que é uma metástase de concreto.

Não é o ar, que é igualmente empesteado. Não se trata das pessoas; as áreas urbanas têm o poder de promover um grau similar de idiotice e a televisão já equalizou os costumes e o vocabulário, uma pasteurização que fortalece os micróbios. Parece que o calor do Interior aumenta o fedor, como lixo no sol.

As dimensões menores no Interior permitem ver detalhes que passam desapercebidos numa cidade grande. Você cruza com os políticos na rua; aqui eles se contentam com dezenas de milhares de reais em propinas e não os milhões dos políticos metropolitanos.

Também as distâncias são bem menores. O luxo pode estar a quadra e meia de uma casa velha no centro da cidade. Os subúrbios perigosos estão a uma dezena de quadras. Os espaços são mais apertados e chegam a sobrepor-se. As distâncias aos alis, porém, são percorridas sempre de carro.

Esses fenômenos também se observam com as zonas. Há aquelas mais sofisticadas, patronais, localizadas em chácaras, locais discretos e circundados pelo silêncio das plantações. Frequentam-nas carros de luxo e seus condutores, gente graúda.

Por outro lado, há outros lugares que fazem jus à expressão baixo meretrício. Na última quadra antes da principal via da cidade — antigo leito de um regato usado como cloaca máxima —, há um bar e algumas casas velhas logo ao lado que formam algo como uma zona de porto, daquelas que se veem nos livros e filmes, só que sem o porto. Condomínio de bar, e puteiro de quartos imundos de casas decadentes de ladrilho hidráulico xadrez, pé-direito de cinco metros e forro de madeira podre.

Curioso como essas quadras à beira da pista-rio continuam conservando a decadência de tudo aquilo que fica à beira da água, a umidade que apodrece as almas. Basta o fantasma do rio; a várzea é sempre o território do indesejado, lugar a ser evitado. Nessa várzea de avenida está a decadência, mora ali desde que o rio recebia todos os despejos da cidade. Uma rua suja como água parada.

O aspecto desse canto de mundo apodrecido é realmente impressionante. Em uma sexta à noite, por exemplo, uma noite quente — como quase todas neste agro central —, as mesas de aço, que um dia foram vermelhas, estão na rua. Nelas, caminhoneiros, operários da construção civil e alguns drogados, batucam desesperadamente qualquer coisa que esteja tocando. A maioria dos freqüentadores tem já as têmporas brancas, então, quase sempre é um sertanejo universitário. Ao redor das mesas cheias de garrafas, as putas. Desleixadas, cabelos armados, ombros à mostra. Algumas se recostam nas paredes. Dividem cerveja com os homens, riem escandalosamente. Outras dançam com o cliente. A fumaça de cigarro empesteia mesmo a calçada; a lei antifumo não vale ali, naquele instante. Ninguém sabe quem é Drauzio Varella.

Muitos dos homens que vão até ali nem estão atrás de sexo. Não admitem — afinal, o homem é grande parte das vezes pura pose —, mas estão ali somente para beber, ouvir música ruim, dançar, fumar, como adolescentes. Pagam uma ou duas cervejas às mulheres, que agradecem com discretos e juvenis arrotos. Um ou outro vai atrás dos serviços e, claro, acha o que procura.

E as luzes, as fumaças e o som só terminam mesmo pouco antes de o sol nascer, quando o bar abaixa a porta, os homens vão para as pensões, todas nas redondezas, e as mulheres recolhem-se àqueles quartos sujos com forro podre e amplas janelas. Não que os quartos das pensões sejam melhores, mas é possível ligar o ventilador com o dedão do pé.

O sol nasce sobre a calçada suja e silenciosa.

353. A solução virá de trem

Parece que finalmente o Governo do Estado acordou para a realidade caótica das rodovias, principalmente no entorno da Capital. É verdade que o Rodoanel tirou bastante tráfego de dentro da cidade de São Paulo, mas algumas ligações continuam caóticas, principalmente para Campinas, São José dos Campos, Sorocaba e Santos, cidades de grande importância econômica e que geram grande fluxo de deslocamento para e da Capital.

O Governo do Estado, pressionado por algumas mancomunidades de municípios e sindicatos ferroviários, lançou edital para a reativação dos trens regionais de passageiros entre a Capital e os destinos-chave acima mencionados. Além disso, Campinas e municípios circunvizinhos estão cobrando a extensão da linha 7 da CPTM, em paralelo com a regional — atualmente, a linha urbana chega até Jundiaí; a 38 km de Campinas —, com tarifas integradas às de São Paulo, o que realmente daria vida à megalópole São Paulo-Campinas.

A linha regional de Campinas já tem uma previsão de extensão até Americana. Começa a inclinar-se para a nossa região: Rio Claro, São Carlos, Araraquara. Um trem mais rápido que o ônibus e sem ter de disputar espaço com os carros seria muito útil para Araraquara; a velocidade estimada para as novas linhas regionais é de 160 km/h. Com as paradas, ganharíamos a Capital em duas horas, contra as quatro e meia de ônibus.

Os investimentos podem chegar à casa dos R$ 20 bilhões, mas trata-se de um projeto de mobilidade a longo prazo, um planejamento de demanda para daqui 20 anos, coisa difícil neste país movido a populismo. Que venham os trens, não pelo saudosismo, mas pela eficiência.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 22/1/2013.

352. Secreções cotidianas

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“Secreções, excreções e desatinos” é um livro de contos de Rubem Fonseca. O nome, por si, já é bastante sugestivo.

Entre vários textos, uma vida além da banalidade cotidiana; um aprofundamento sem igual da rotina até o insofismável, que reflete bem que um rosto na rua é apenas a camada de nata que esconde o leite. Um homem que passa a dedicar-se à copromancia; um assassino que se comporta como um trivial sedutor barato, pústulas curadas com saliva, suicídios frustrados. Coisas que pululam na vida dos nossos vizinhos, das pessoas com quem cruzamos pela rua, e que jamais saberemos.

Rubem Fonseca nos dá um retrato pitoresco e magnífico de pequenas glórias e infâmias. Em suma, um livro humano, muito humano.

“Secreções, excreções e desatinos” – Rubem Fonseca – 141 págs. – Companhia das Letras

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Publicado no Menu Cultural da Tribuna Impressa de Araraquara em 21/1/2013.

351. Leon Eliachar

Porque você gosta de ler, não quer dizer que você leia qualquer coisa. Mas para a maioria das pessoas é assim. Não adianta explicar que você não gosta do ato — mecânico — de ler, como um motor gosta de oscilar seus pistões. Tudo virá para a sua mão: de livros técnicos aos best-sellers de outrora — seriam agora bad-sellers?

Mas de todos os livros que vieram parar nas minhas mãos, nenhum foi uma surpresa tão grata quanto “O Homem ao Quadrado”, do Leon Eliachar. Não sei exatamente de onde veio… ao pai duma amiga da minha irmã, algo assim.

Nestes tempos áridos de “Zorra” e similares, nada como humor de verdade e despretensioso. “O Homem ao Quadrado” passeia por desde o humor convencional — ou seja, o de sentido — até o gráfico e o estético, como os capítulos “Para ler no banheiro”, em que cada página vem intercalada com outra de papel mais fino, ou “Para ler nas entrelinhas”, texto todo com espaço 3.

É um humor baseado em chistes curtos e um pouco datado, por conta das situações do cotidiano, mas não deixa de ser engraçado.

Desta obra-prima — facilmente encontrada em sebos —, deixo alguns acepipes.

“Certos sujeitos da época do ‘ph’ não se convencem que já estamos em plena era do ‘f’.”

Do capítulo “A verdade é uma só: todo mundo mente”

O dentista: “Não vai doer nada”.

A avó: “No meu tempo as coisas eram muito diferentes”.

O suicida: “Perdoe meu gesto”.

O viciado: “Essa vai ser a última”.

O sapateiro: “Depois alarga no pé”.

Epitáfios

De um humorista: Aqui jaz uma gargalhada cercada de choro por todos os lados.

De um prefeito: Este foi o único buraco que ele não fez.

De um açougueiro: A carne é fraca.

De um coveiro: Chegou a minha vez.

Meios de transporte: o táxi

O táxi é o único veículo que não anda quilômetros; anda cruzeiros. Mas cada cruzeiro que anda quer cobrar dois. Por isso, os passageiros têm ódio do táxi — mas não tem importância, porque o ódio do táxi é muito maior e o chofer leva mais vantagem, porque é um ódio que vem de dentro para fora. O táxi está sempre em pé de guerra: quando o motorista desce a bandeirinha, começa o conflito. É o veículo que mais enguiça, mas raramente traz um macaco na mala — porque o macaco do táxi anda sempre no volante.

Para ler no banheiro

Quando um homem escala uma montanha, ninguém toma conhecimento. Quando se joga de lá de cima, pega logo uma primeira página.

Os estrangeiros pensam que o Brasil é terra de índios. Chegam aqui, pegam um táxi e veem que é mesmo.

Quando um sujeito fica a espiar as janelas dos vizinhos de binóculo, das duas uma: ou vai fazer dezessete anos ou já fez faz tempo.

De bomba em bomba o mundo vai construindo sua paz.

Conversa de bêbado entra por uma narina e sai pela outra.

Inflação é um camarada chegar perto do outro e perguntar se tem troco pra mil e o outro responder: “Serve três de quinhentos?”

Com a primeira folha de parreira surgiu o primeiro problema da moda feminina: onde colocá-la?

350. Economia concursada

Na edição do último domingo (13/1, pág. A10), a Tribuna publicou uma matéria sobre concursos. O fenômeno do concurso público no Brasil sempre chama atenção, porque é consequência da concepção de Estado e da visão sobre as atividades econômicas no País.

As atividades econômicas, quando não são monopolizadas ou reguladas pelo Estado, estão a sua margem. E nisso não há qualquer interesse de benefício para a população, é apenas a garantia de que os impostos não escorreguem para fora das arcas do Estado. Ou seja, mantendo a economia burocratizada, o Estado controla a arrecadação, mas também retarda o crescimento econômico, alimentando unicamente a especulação econômica em vez de fomentar o crescimento dos meios produtivos. Toda a legislação existente criminaliza obrigatoriamente o produtor.

Para perceber a pressão do Estado sobre a economia, basta ver que o Brasil caiu do 70º lugar, em 2007, para o 100º, em 2011, no Índice de Liberdade Econômica da Heritage Foundation. Isso entre 177 países avaliados. Nossos vizinhos na lista? Gabão (99º) e Benim (101º).

Num ambiente de repressão econômica, somente grandes conglomerados têm cacife para investir e produzir. A população economicamente ativa, que poderia dar sua contribuição além de ser força de trabalho, acaba por deprimir-se frente à burocracia estatal.

E, nesta situação desoladora, somente fazer parte da burocracia parece alentador. Não é culpa de quem procura o concurso público: é simplesmente porque somos culturalmente impelidos, pois a livre iniciativa econômica é punida pela burocracia. E outra: em um país assolado por crises sistêmicas, o serviço público ainda é visto como uma ilha de tranquilidade.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 15/1/2013.

349. Tetas de Carnaval

É época delas. Seja nos desfiles, com siliconadas e brilhosas celebridades, seja nas arcas do Estado para financiar o Carnaval. Mas como assim? De onde se tirou que o poder público tem obrigação de financiar festa popular? “É obrigação do Estado fomentar a cultura.” Cultura com paetês, plumas e birita? Cultura, para mim, fomenta-se investindo — de verdade — em escolas, museus, bibliotecas. Tetas estatais para que fulanas de tevê mostrem as suas, para que as pessoas se divirtam? Perdão, mas diversão é assunto privado e deve ser financiado por dinheiro privado, de quem se interesse em bancar.

E antes que digam que Carnaval é uma representação da cultura popular, já me adianto: um dia foi. Arrumem patrocínio privado.

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Publicado na Tribuna Impressa em 13/1/2013/

348. Haverá Brasil?

O Estado brasileiro precisa ser reformulado profundamente se quiser sobreviver; do modo como está hoje organizado, sua existência futura é duvidosa. Talvez o leitor se assuste, mas é exatamente isso: caso não haja uma reforma política a médio prazo, a unidade política do País estará ameaçada — o que não necessariamente é ruim.

Abraçamo-nos à ideia de Brasil como uma viúva desesperada mantém as cinzas do marido. A pátria auriverde — amarelo Habsburgo e verde Bragança, é sempre conveniente lembrar — não passa de uma ideia abstrata. “Mas toda a ideia de pátria é abstrata”, dirá o leitor. Sim, mas há graus de abstração: do inteligível ao insondável.

O que realmente nos une como brasileiros além dos documentos? Um senso de “povo festeiro” que tem cheiro de fim de festa; o maldito “jeitinho”, a alegria forçada que parece mais uma doença, as paisagens naturais que já existiam antes mesmo de os portugueses porem os pés aqui? Parece que a patriotada das aulas de EMC e OSPB apenas mudou de forma e conseguiu fazer-se ainda mais boçal.

Precisamos repensar o País e seu significado, se quisermos que ele sobreviva. Os regionalismos latentes já se aguçaram na questão da divisão dos royalties do petróleo. O federalismo à brasileira é assim: lucro para todos os estados, prejuízos para quem produz. Não escutei ninguém falar em divisão de ônus caso aconteça um acidente ambiental. Ah, aí é problema de quem produz.

Ou o Brasil revê suas estruturas políticas e institucionais, profundamente acorrentadas pelo clientelismo e pela burocracia, promove um federalismo real entre estados e municípios, ou estará fadado à desagregação ao som de um pagodinho fuleiro.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 12/1/2013.

347. A falta de legitimidade e suas consequências

A violência e a criminalidade que aterrorizam não apenas a população de Araraquara, mas a de todo o País, é somente a face mais aparente da desagregação institucional que já é parte da sociedade brasileira desde sua fundação.

A justificada falta de apreço que temos por nossas instituições políticas e sociais é fruto de seu inchaço e burocratização; em poucas palavras, há muito cacique para pouco índio e, logo, o sentido original de autoridade, por ser muito diluído e estar ainda sendo usurpado por tiranetes de repartição, perdeu totalmente o sentido.

A concepção democrática de autoridade criada pela Revolução Americana e disseminada pela Revolução Francesa, ou seja, de que ela emana do povo e condensa-se nos poderes eleitos — em oposição ao direito divino do Ancien Régime, mostra-se falha. Não há engajamento real dos cidadãos na construção do Estado: a indiferença generalizada — e até mesmo discretamente fomentada — deixa o terreno livre para os interessados em fazer da política profissão. Daí inclusive a “reserva de mercado” de somente permitir o acesso a cargos eletivos àqueles que são filiados a um partido.

Esse tipo de corporativismo no meio da coisa pública tende a gerar privilégios que, por sua vez, desgastam e retiram toda legitimidade de tais instituições. Dos cargos eletivos, o descrédito espalha-se para as instituições auxiliares da república: polícia, empresas mistas, escolas. Tudo que tem o adjetivo “público” ou “estatal”, passa a inspirar desconfiança, em vez de transparecer a legitimidade que deveria ter algo estabelecido pelos poderes investidos do voto popular.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 8/1/2013.

346. Juízos literários

Um questionamento que leitores contumazes se fazem — ou se ainda não o fizeram, é mera questão de tempo — é sobre uma definição de literatura. O que é a literatura exatamente. Tal problema pode ser falsamente resolvido de uma forma marota como a famosa definição de que palavra são letras agrupadas entre dois espaços tipográficos, ou seja, literatura “é tudo o que está fixado por meio de letras, como cita Anatol Rosenfeld em seu texto “Literatura e personagem” (lembremo-nos que literatura tem sua raiz em littera, -ae­, efetivamente ‘letra’, ‘sentido claramente expresso pela escrita’).

Rosenfeld faz ainda uma breve explanação sobre caráter ficcional do texto e critérios de valorização estética para que algo seja literário, mas que não vêm obrigatoriamente juntos. Ele cita como exemplo os “Sermões” do Padre Vieira: têm estética, mas são não fictícios. Não raramente, Vieira vale-se de alguma alegoria bíblica para expor um raciocínio sobre alguma situação então corrente. Fora a qualidade estética que têm os “Sermões”.

Fora as definições técnicas e vendo a aparentemente longa má fase da literatura brasileira — qual nosso último grande poeta? Drummond? , nota-se que qualquer definição presente é somente presunçosa. O grande juiz da Literatura é o tempo: nomes que eram considerados ímpares por seus coetâneos caíram no mais sombrio esquecimento — Prosper Merimée, alguém sabe quem é? — enquanto outros, às vezes ignorados em vida, vão fazer parte do cânone. Quem garante que os que hoje estão aí representando — espuriamente — a pretensa Literatura brasileira sobreviverão ao juízo do tempo? O bom será perene.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 6/1/2013.

345. Números

Há um dito popular que diz que há mentiras, há grandes mentiras e há a estatística. A blague baseia-se no fato de a opinião pública ser absolutamente manipulável; nem é necessário esconder todos os números ou alterá-los: basta publicar os que são mais convenientes e convenientemente omitir os restantes.

Somos absolutamente influenciáveis pela força dos algarismos: temos uma democracia que se baseia única e exclusivamente em critérios numéricos, independente se o voto foi pensado e repensado ou apenas influenciado por aquele panfletozinho largado “acidentalmente” na porta da seção eleitoral, e somos uma sociedade que se impressiona pela pujança econômica.

Araraquara recebeu muitos investimentos no ano que terminou ontem, mas também foi um ano em que a violência teve uma escalada quase que sem precedentes. Fala-se da “qualidade de vida” araraquarense — acho que as pessoas que dizem isso evitam sair do Centro, do núcleo da Vila Xavier ou da Vila Harmonia. Não conhecem a nova cidade que cresce ao redor, os pés que são já maiores que a cabeça.

Temos de ter em mente que o bem-estar econômico é algo passageiro; basta ver a crise que atinge a Europa do Welfare State. Se o dinheiro se vai, resta para um povo apenas sua dignidade e suas raízes culturais, coisas que entre nós são excessivamente fracas. Ou seja, uma sociedade que unicamente se agrega em volta do dinheiro, sem dele efetivamente fazer bom uso, como os novos ricos que se preocupam unicamente em ostentar.

Espero que 2013 não seja outro ano de “números”, mas um ano de crescimento real, de crescimento da percepção das pessoas de seu papel na sociedade.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 1º/1/2013.