344. Punição a quem trabalha

É claro que a carga tributária é excessiva e é um peso para os setores produtivos, mas a burocracia estatal e paraestatal é a braquiária que destrói os campos, os cipós que lentamente matam e asfixiam as árvores.

“A burocracia expande-se para satisfazer as necessidades de uma burocracia em expansão.” A frase, certa como a flecha de Guilherme Tell e atribuída tradicionalmente a Oscar Wilde, define bem as intenções do monstro que paralisa a economia: a manutenção de Estado ineficiente, incompetente, dominado por populistas e cujo único motivo de existência é a autoalimentação.

Engana-se quem pensa que a burocracia endêmica é privilégio do setor público. No afã de dominar e controlar a atividade econômica, regula-a excessivamente, esboroando o ânimo em quem poderia gerar mais empregos e criando oportunistas — Jecas Tatu 2.0 — que se valem de empresários incautos para alimentar a indústria dos processos trabalhistas — esta sim, pujante e viçosa.

Ilude-se quem crê que as regulações do mercado pelo Estado sejam vantajosas. Elas criam apenas comodismos e irradiam a burocracia para dentro das empresas, que têm de ajustar seu ritmo por leis obsoletas e contraproducentes. Agências reguladoras, tribunais, câmaras, secretarias de Estado, cartórios, sindicatos — os grandes poleiros das aves de mau agouro que olham com desdém o progresso econômico, tratando seus agentes como inimigos do público.

Enquanto populistas dos mais variados matizes, por monopólio de domínio político, mantêm reféns tanto a sociedade quanto a vida econômica, o empresário — que gera renda e empregos — continua sendo o vilão número um.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 27/12/2012.

343. Outro conto de Natal

janio

Qual não foi a minha surpresa quando encontrei o Espírito do Natal Passado vagando na noite do Bulevar dos Oitis. Óculos, o inconfundível passo torto. Sim, era o presidente Jânio Quadros.

— O senhor talvez não sai­ba, mas deveria sabê-lo, que, no meu governo, combati a cor­rupção de modo vivaz. Minha música de campanha já dizia, “varre, varre, vassourinha…”, distribuí broches de latão em formato de vassoura…

— Mas, presidente, se me per­mite interrompê-lo, a corrupção continua ser combatida… ou tal­vez nem isso… faz-se apenas um teatro: mídia, tribunais… a lei, toda furada, permite todo o tipo de trapaça e tramoia… e ainda batem no peito, jurando pela alma da mãe morta.

Jânio olhou-me de cima a baixo.

— Então continua tudo igual…

— Sinto dizer que sim, presi­dente. Os políticos continuam a manter serviços públicos precá­rios para ter o que prometer nas eleições. Nas eleições, quase todos os jingles fazem rimas com em­prego, saúde e educação… e todos são honestíssimos até a primeira falcatrua, até a primeira botija beijada. E nenhum erra; são pegos em flagrante e têm a desfaçatez e contarem as mentiras mais desla­vadas… um horror!

— Então, nada muda… agora entendo, tudo faz sentido.

— Como?

— Não sou apenas o Fantasma do Natal Passado, mas também fui nomeado Fantasma do Natal Presente e Fantasma do Natal Fu­turo, porque tudo é igual. Mudam leis, mudam personagens, muda até mesmo a Constituição, esse cartapácio inútil, mas os vícios são os mesmos…

Fiquei na calçada enquanto observava o Fantasma de Todos os Natais afastar-se, batendo o sapato nas pedras da calçada e amaldiçoando as forças ocultas e Carlos Lacerda.

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Publicado na Tribuna Impressa em 25/12/2012.

342. Mensagem de Natal e Ano-Novo

Amigos, colegas, concidadãos, leitores,

Com as festividades, encerramos mais um ano difícil para o Brasil. Mais um ano em que reinou o facciosismo de partidos que ora estão no poder, mais um ano em que se confunde economia forte com desenvolvimento humano, como se tudo fosse passível de ser resolvido somente com a força circulatória do papel-moeda.

Mas também foi um ano em que o brasileiro pôde sonhar com um pouco de justiça, pois os responsáveis pelo Mensalão foram, pelo menos, julgados e condenados. Se vão cumprir suas penas são outros quinhentos; tendo em vista de como o Estado está aparelhado por um partido que confunde poder político com tomada do poder, é possível que todo o esforço titânico da maior corte do País esteja fazendo água, numa clara manobra de fomentar ainda mais a crise institucional e o descrédito das instituições democráticas que se vê no Brasil há muito tempo.

Aproveitemos as festas de fim de ano não como um período de esbórnia, como fazem muitos, mas dediquemos esse tempo a uma reflexão profunda sobre a o que devemos fazer para a conquista de valores tão necessários à sociedade, ao povo e às instituições brasileiras: honra, hombridade e honestidade, pilares básicos da vida civil, mas que têm sido espezinhados e deturpados ao bel-prazer de quem usa os termos, como os notórios pilantras que se valem da candura dos conceitos para esconder suas falhas de caráter.

O Brasil precisa de um esforço conjunto, de uma renovação social e moral para os anos que virão. A economia tem crescido, mas a cultura não tem acompanhado. Talvez mesmo tenha declinado. Um país financeiramente rico, mas sem passado e sem cultura, é somente mais um arrivista. As benesses oriundas do bem-estar econômico são passageiras se o povo que delas goza não souber crescer cultural e espiritualmente.

Meus votos aos amigos, colegas e leitores é para que usem a passagem simbólica da virada do ano e das comemorações do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo para tais reflexões.

Um feliz Natal e próspero Ano-Novo

e que Deus nos ajude.

341. Do maior para o menor

A lei brasileira é falha. Imagino que as leis de outros lugares também o sejam, mas as nossas primam pela inviabilidade.

Temos uma premissa constitucional que diz todo cidadão ser inocente até que se prove ao contrário. Certamente é uma premissa válida e correta, mas pouco eficiente para nós. Esse tipo de pensamento é válido para sociedades em que a honra pessoal ainda valha de algo — penso nas sociedades germânicas, mas sem generalizações.

Com o hedonismo atual fomentado pela sociedade de consumo — em que ter é mais importante que ser —, gente que está acumulada de culpa até as orelhas e que são efetivamente criminosas, nega, sem o menor pudor, sem mesmo que um leve rubro lhe cubra a face, seus crimes, mesmo que sejam óbvios. Vemos casos em Brasília, vemos casos locais.

Gente que burla a sociedade apoiando-se numa legislação “suíça”, ou seja, cheia de furos, que beneficia todo tipo de colarinho branco, seja desvio de verba para alimentar as bocas famintas de bezerros engravatados, seja o clientelismo rasteiro e sujinho de província.

Entre nós, a honra pessoal é um verniz dourado que usamos quando queremos, ação típica de povos amorais, transpassados pela nefasta cultura do “jeitinho” que, antes de ser virtude, é uma lepra. Somos o povo do “primeiro eu e os meus”, nunca pensamos no público. O Brasil é o país onde “público” não significa “o de todos”, mas sim “o de ninguém”.

E o que são esses comportamentos lulescos, ou esse “deixa pra lá” horroroso que a Câmara de Vereadores promoveu no caso Serginho, senão manifestações diversas da mesma coisa: o “jeitinho”, o “buraco na lei”, o “hedonismo”?

E o que é todo esse mau comportamento senão o nosso próprio, ampliado?

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 18/12/2012.

340. Pensamento solto

Os jornais já foram o centro da vida literária brasileira, dos romances que eram publicados em capítulos — os folhetins, como foi o caso de “O Guarani” e “Memória de um Sargento de Milícias” — aos grandes escritores que eram também jornalistas. Passou da hora de os periódicos recuperarem essa sua função, hoje usurpada por uma incompetente academia

339. Intrusos

republicanização das famílias reais é algo assustador. Para que restaurar tronos se os monarcas — ou pretendentes — casam-se com plebeus? O rei é rei porque tem a regula e porque está acima do resto do povo e acima da nobreza; um príncipe que se casa com uma plebeia ou com um nobre menor perde a legitimidade da sua investidura e joga ao chão toda e qualquer pretensão que tenha.

E não é um fenômeno recente. A família Bonaparte, usurpadora do trono francês, conseguiu imiscuir-se em várias casas europeias. E é um caso grave ainda mais tratando-se dos Bonaparte, que forjaram seus documentos de nobreza ainda antes da ascensão de Napoleão.

Até mesmo o pretendente Bourbon ao trono francês, Luís, tem em seu sangue traços do ditador Francisco Franco.

Aliando-se a tais nomes, que chance têm as famílias reais? Só lhes resta desaparecer na fossa comum da História.

Niilíssimo

Já que o WordPress permite que cada perfil tenha vários blogues, os poemetos fugazes daqui estão sendo transferidos para um novo endereço, o Niilíssimo. Ali, toda sorte de sandices.

Os textos mais prosaicos, sejam os avulsos ou os publicados na Tribuna Impressa, continuam por aqui.

338. A centopeia política

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Nosso regime é recheado de problemas. É quase uma piada de mau gosto chamá-lo democracia; poderia ter qualquer nome: corporativismo, partidocracia, criptocracia. Chamam-no democracia por moda e conveniência.

A grande falha — uma entre milhares — do sistema político brasileiro são seus partidos. Não os partidos em si, mas a forma que a lei estipula como deve ser formados, que segue legislação federal de caráter unitário.

Em um país tão grande, é impensável que os problemas que afligem, por exemplo, Araraquara, sejam os mesmos da Capital do Estado ou os da cidade de Oiapoque, no Amapá. Por conta do obrigatório caráter nacional, nossos partidos transformaram-se em monstros políticos, centopeias que se escondem sob o pedregulho estatal e atrapalham sua renovação e a diminuição. É óbvio que todo o mecanismo de legalização dos partidos foi criado por eles mesmos e embutido na legislação.

Por que não podemos ter candidatos independentes, como em vários outros lugares do mundo, cujo compromisso não fosse regido por cores partidárias, mas pelo real compromisso para com a população?

Outro dia, navegando pela internet, vi alguns dados sobre as eleições municipais e autonômicas na Espanha. Há municípios cuja população une-se e forma frentes para disputar as eleições, comumente chamadas de uniones. Ou seja, há os grandes partidos, com representação nacional, há partidos regionais — como, por exemplo, na Catalunha, onde os principais agentes políticos são partidos regionais — e há também as pequenas uniões.

Talvez fosse tempo de o Brasil começar a desmantelar o monstro partidista que, com sua coesão, ignora peculiaridades em prol do corporativismo político.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 11/12/2012.

337. Café no escritório

Numa sala sem janelas,
dois homens civilizados
bebericam café,
enquanto discutem amargores.
Café regrado, descafeinado,
em comportados copos plásticos.
Pequeninos, os homens os mantêm
entre polegares e indicadores.
Marmanjos brincando de boneca.

Café amargo, descafeinado,
com adoçante e um pouco ralo.
Levantam-se, despendem-se
com um gosto ruim na boca.

336. Aos 60 anos do meu pai

Meu pai não gosta de poesia;
Nunca o vi lendo poemas.
Meu pai não é dessas pessoas
que sovacam livros
ou veem o mundo através
de lentes míopes.

Ele apenas fita
o horizonte azul
do verde dos seus olhos.
Um verde simples e honesto.

8/12/2012

335. O velho novo mundo

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Parece que a América foi descoberta outra vez. Os “colombos” da educação estão fazendo estardalhaço na televisão e em outdoors: reinventaram o ensino médio integrado ao técnico.

Antes de 1998, era assim que o ensino técnico estadual funcionava. Prestava-se o vestibulinho e, sendo aprovado, cursava-se o ensino médio integrado a disciplinas de uma área específica. A grande maioria dos cursos era de quatro anos, um a mais que o ensino médio convencional. A proporção de disciplinas técnicas na grade curricular ia aumentando na passagem dos anos. Era uma opção interessante para quem não tinha tempo ou paciência para fazer um curso superior. E outra: bacharéis ficam avessos a certas atividades excessivamente manuais, mesmo que sejam vinculadas ao seu métier.

Em 1998, o Governo do Estado, amparado na famigerada Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, Lei federal nº 9.394/96), reorganizou o sistema de ensino técnico do Estado, desvinculando o ensino médio em si, que passou a ser ministrado como no resto da rede, do ensino técnico, cujo acesso ficou vinculado a um segundo exame de admissão. A desculpa na época era que muitos faziam o ensino técnico — conhecido por sua boa qualidade — para disputar o vestibular.

A solução deu tão certo, que voltaram ao sistema anterior. Cursar o médio regular e o técnico implica em o aluno ter dupla jornada, o que não raramente atrapalha quem trabalha. Outra: a conclusão das modalidades técnicas — a maioria delas — requer um estágio curricular. Como fazê-lo com dupla jornada escolar?

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Publicado na Tribuna Impressa  de Araraquara em 4/12/2012.

334. Alfredo Ellis Júnior, historiador

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Ponho aqui à disposição um pequeno texto sobre o historiador paulista Alfredo Ellis Júnior, produzido para a Tribuna Impressa de Araraquara, edição de 27/11/2012.

Ellis Jr. deixou-nos um grande volume de obras literárias e estudos historiográficos que hoje, por motivos ideológicos que dominam a vida acadêmica brasileira, jazem no esquecimento. Mas, aos grandes vultos, resta ainda a esperança que as gerações vindouras os resgatem e os restituam ao lugar de onde jamais deveriam ter saído.

Boa leitura.