327. Análise de um poema de Nego Antão

Boleta de pong-ping.

Eis um haikai revolucionário do mestre da poesia pós-moderna, Nego Antão, morador de rincões em que reina o cinza das telhas de fibrocimento. Como pode existir tanta concisão poética em um dístico — uma forma ocidental clássica —, mas que nos remete à simplicidade do haikai. Seu autor inclusive prefere que a chamemos de haikai. “Crio elas como se criam galinhas num galinheiro: têm penas e boa carne”, explica Antão.

O poema, que não tem título — outra tirada magistral —, narra um jogo de pingue-pongue. Para um leitor desatento, pode ser uma estranha partida de pingue-pongue. Um estrangeiro jogando pingue-pongue na luxuriante atmosfera tropical do nosso país-potência. Mas há mais mistério entre as folhas das bananeiras do que supõe nossa vã filosofia.

Repitamos os versos em voz alta. Sintamos a força e a reverberação de suas aliterações sutis. “Boleta de / pong-ping”. Advirto-os, leitores: há mais.

“Boleta”, um diminutivo pouco usual de bola. Por que não “bolinha”? Na verdade, “boleta” aponta para o “boleto” de pagamento, uma relação consumista e que tem toda liames com o glorioso e radiante momento econômico vivido pelo país. Todos podem comprar. Todos têm seus boletos para pagar, mas Antão não somente celebra as benesses da era Lula, ele põe um elemento feminino, da liberação da mulher do jugo machista, trocando o gênero da palavra: “boleta”. Não apenas os machistas compram, mas também as mulheres, os gays, os transgêneros e os simpatizantes. Antão dá um banho de lirismo em toda a elite branca, cristã, machista e homofóbica com apenas uma palavra. Pergunto-me por que ainda não o indicaram apara o Nobel.

Depois desse glorioso primeiro verso, vejamos o último: “pong-ping”. A inversão do nome do jogo mostra a inversão que a classe trabalhadora, com suas “boletas”, fez na mais-valia, ainda refletindo o primeiro verso. Não apenas mais a elite branca dos olhos azuis compra… os ensebadinhos do subúrbio — o conceito da sebência orgulhosa, tão exaltada por Antão, e também por alguns gêneros musicais como o rap e o funk — também compram, invertendo a situação de domínio. E ainda digo mais: querem estar presentes à globalização, por isso a preferência por não aportuguesar os vocabulários. Mas a inversão dos termos originais também significa a insubmissão à cultura enlatada, manipuladora e planificadora dos Estados Unidos: é a faca apontada para o Tio Sam.

Essa é apenas uma amostra do livro de poemas de Nego Antão. A obra completa consta de cinco pérolas e foi impressa em um conceito ultramoderno de editoração: em uma folha corrida apenas, para que fosse acessível às populações oprimidas.

Anúncios
Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: