333. A antimedalha de prata

Os gringos detectaram agora; nós já sabíamos há muito tempo que nosso sistema educacional é péssimo. Trata-se apenas de escancarar a obviedade.

O Brasil ficou em 39º em ranking educacional elaborado pela Pearson — uma learning company, como se autointitula —, dentro do projeto The Learning Curve. Trigésimo nono lugar não do mundo todo, mas de 40 países.

Os índices surgiram de um cruzamento de dados de vários organismos internacionais envolvidos com educação e comprovam o fracasso da educação brasileira. Embora tentemos disfarçar com Saresp, Prova Brasil e outras maquiagens vagabundas, a verdade é que estudantes oriundos de nossas escolas, com grandes exceções, são incapazes de, por exemplo, fazer a prova do Pisa — Programme for International Student Assessment.

Nas escolas públicas, é a velha choradeira de salários defasados, instalações ruins e falta de interesse do Poder Público, o que tem sua parcela de verdade. O ensino privado é bom de make-up: apostilas, tablets e outras parafernálias, mas que, sem métodos adequados, não acrescentam nada, como já disse o colunista Francisco Belda há algum tempo.

Em suma, tal situação é fruto da excessiva pedagogização do ensino em detrimento do ensino real; da transformação da escola em “creche para grandes”, da retirada da autoridade do professor e da relativização do valor do conhecimento, que muitos apregoam, mas poucos valorizam efetivamente.

Diretores, coordenadores, secretários municipais e estaduais da Educação, pedagogos, ministro. Tirem seus paletós das cadeiras. Vão para casa; podem fechar as escolas. Como estão, do jeito que vocês as deixaram, mais atrapalham que ajudam. Talvez a Indonésia precise de alguma consultoria de vocês.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 30/11/2012.

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332. Catalunha triunfante

É fato que, sendo fruto da união dinástica entre os reinos de Castela e Aragão, a Espanha é — mesmo 500 anos depois — um país artificial. Vários povos agitam-se sob o lodaçal pesado do espanholismo, cuja face mais tenebrosa hoje é a imposição do castelhano — ou, como dizem, “espanhol” — como “língua comum” a todos os cidadãos do país.

Catalães, bascos e galegos, que têm línguas que não são o espanhol, durante décadas foram obrigados a limitar sua fala ao âmbito doméstico, com grandes prejuízos para a cultura desses povos.

Parece que a Catalunha é a primeira dessas regiões hispânicas a começar um processo de autodeterminação, não sem apupos, críticas e até mesmo ameaças vindas do governo de Madri. Depois da multitudinária manifestação do último 11 de setembro (Dia Nacional da Catalunha), o presidente da Generalitat — o governo autonômico catalão —, Artur Mas, resolveu dissolver o parlamento regional e convocar novas eleições, ocorridas no último domingo.

Embora o partido de Mas, a Convergència i Unió (CiU), almejasse a maioria absoluta do legislativo catalão — 62 cadeiras de 135 —, não a conseguiu; mas partidos que também encarnam o ideário soberanista — com destaque para a Esquerra Republicana Catalana (ERC) — têm dois terços da Casa, o que possibilitará convocar o referendo de autodeterminação para 2014, uma data emblemática para os catalães.

É bem possível que, depois de tanto tempo, comece a tomar corpo um “Adéu, Espanya!”.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 27/11/2012.

331. Ao senhor Governador

“Não vejo nada de errado…”

Não sem certo assombro ouvi a declaração do governador Geraldo Alckmin, na última quinta-feira (15), sobre a onda de violência que assola o Estado desde setembro. “[…] senão se cria uma situação muito injusta, quase que uma campanha contra São Paulo. E não é possível fazer isso e ainda criar uma situação de pânico na população”.

Não se trata de criar uma campanha, Sr. Governador. É situação dada. E outra: o pânico não precisa de agente, ele inclusive vai melhor no boca a boca, não precisa de jornais e televisão, ainda mais num país em que jornal é coisa para poucos e televisão é vista somente como entretenimento. O “Jornal Nacional” é somente música de fundo para o jantar da família brasileira.

Com essas palavras, Alckmin externaliza uma concepção errônea — ou não? — e típica de regimes mais fechados: que a culpa das calamidades do povo necessariamente passa pela imprensa. Talvez PSDB e PT partilhem da mesma visão sobre o funesto “controle social” da mídia. Afinal, suas vertentes políticas — a fábrica e a academia — costumam andar de mãos dadas nos partidos políticos de esquerda europeus. Somente aqui que se criaram dois monstros, cada um com meia cabeça.

E enquanto o governador vem com conversa evasiva, o Estado paralelo, operado de dentro dos presídios, continua espalhando o pânico de forma efetiva, com balas e mortos. A sociedade civil está esperando uma resposta adequada ao problema, Governador. Pulso, medidas efetivas. Que os presídios deixem de ser a pós-graduação da criminalidade. Apenas isso.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 20/11/2012.

330. Uma região singular

É difícil chegar a esta região, pois suas entradas aparecem em qualquer autoestrada do Estado; a saída sempre tem um decimal ou uma fração após o numeral cheio.

São alguns municípios, tecnicamente pertencentes ao Estado de São Paulo. Se bem que sempre há alguma petição: alguns querem formar um estado à parte; outros, a junção com Minas ou com o Paraná. Apareceu até mesmo uma petição pedindo a união com o Oceano Atlânico.

A principal cidade é Aqui, circundada pelos municípios menores — e rivais — de Ali, Lá-Em-Cima, São João de Baixo. A cidade de Aqui tem o famoso distrito de Acolá, considerado a capital nacional do apontador de lápis.

Aqui é dominada pela família do Marquês de Quero-e-Não-Posso, capitaneada pelo patriarca Doutor Dom Zezinho do Rés-do-Chão; seus filhos são todos acionistas da fábrica de apontadores em Acolá: Nhonhô, Zeferito, Lau e o cão da família — e presidente da companhia —, Caga-Mole.

329. Os pinheiros de Pondal

O poeta Eduardo Pondal

Na edição de hoje da Tribuna Impressa, jornal diário de Araraquara, está a matéria que produzi sobre o poeta galego Eduardo Pondal. Aqui, um arquivo PDF da página. Espero que gostem.

Sérgio Mendes

328. Há muito tempo, agora há pouco…

Houve um tempo na política nacional em que as ameaças eram desnecessárias. Com base no poder econômico e respaldo do poder político oligárquico, os famosos coronéis simplesmente mandavam fazer. Não havia muito a questão da ameaça, que servia apenas para afugentar os covardes. Os mais valentes acabavam por receber a “expedição punitiva” na porta de casa.

Aliás, cabe dizer que a patente de coronel concedida a esses políticos advém do fato de, eventualmente, serem vinculados à Guarda Nacional, um título honorífico — compensação pela extinção dos títulos de nobreza concedidos no período monárquico.

Mas, voltando, os políticos de então não se importavam um pingo com a opinião pública: o voto era aberto e o coronel poderia mandar à seção eleitoral seus “fiscais”, para ver se o Zé das Couves, que ganhara um pé de sapato, ganharia o outro, por ter votado “corretamente”, ou se seria agraciado com uma bela sova, por ter sido infiel. O sistema do voto aberto permitiu o controle absoluto do eleitorado no período anterior ao golpe militar de 1930.

Não obstante a nossa moderna democracia — por favor, relevem a expressão: nem sempre o “moderno” é melhor que o passado — ter seus mecanismos de prevenção de abusos, tais expedientes ainda encontram eco na política moderna. A troca de favores é um deles.

Hoje, o político é “um homem de doze dedos”, mas,  volta e meia, baixa o espírito do coronel em alguns. Voltam o pé de sapato, as ameaças, a desarticulada verborragia invectiva. Só que, como se vê em vários casos, a ameaça é filha do desespero; e cabe ao desesperado explicar seus rompantes.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 13/11/2012.

327. Análise de um poema de Nego Antão

Boleta de pong-ping.

Eis um haikai revolucionário do mestre da poesia pós-moderna, Nego Antão, morador de rincões em que reina o cinza das telhas de fibrocimento. Como pode existir tanta concisão poética em um dístico — uma forma ocidental clássica —, mas que nos remete à simplicidade do haikai. Seu autor inclusive prefere que a chamemos de haikai. “Crio elas como se criam galinhas num galinheiro: têm penas e boa carne”, explica Antão.

O poema, que não tem título — outra tirada magistral —, narra um jogo de pingue-pongue. Para um leitor desatento, pode ser uma estranha partida de pingue-pongue. Um estrangeiro jogando pingue-pongue na luxuriante atmosfera tropical do nosso país-potência. Mas há mais mistério entre as folhas das bananeiras do que supõe nossa vã filosofia.

Repitamos os versos em voz alta. Sintamos a força e a reverberação de suas aliterações sutis. “Boleta de / pong-ping”. Advirto-os, leitores: há mais.

“Boleta”, um diminutivo pouco usual de bola. Por que não “bolinha”? Na verdade, “boleta” aponta para o “boleto” de pagamento, uma relação consumista e que tem toda liames com o glorioso e radiante momento econômico vivido pelo país. Todos podem comprar. Todos têm seus boletos para pagar, mas Antão não somente celebra as benesses da era Lula, ele põe um elemento feminino, da liberação da mulher do jugo machista, trocando o gênero da palavra: “boleta”. Não apenas os machistas compram, mas também as mulheres, os gays, os transgêneros e os simpatizantes. Antão dá um banho de lirismo em toda a elite branca, cristã, machista e homofóbica com apenas uma palavra. Pergunto-me por que ainda não o indicaram apara o Nobel.

Depois desse glorioso primeiro verso, vejamos o último: “pong-ping”. A inversão do nome do jogo mostra a inversão que a classe trabalhadora, com suas “boletas”, fez na mais-valia, ainda refletindo o primeiro verso. Não apenas mais a elite branca dos olhos azuis compra… os ensebadinhos do subúrbio — o conceito da sebência orgulhosa, tão exaltada por Antão, e também por alguns gêneros musicais como o rap e o funk — também compram, invertendo a situação de domínio. E ainda digo mais: querem estar presentes à globalização, por isso a preferência por não aportuguesar os vocabulários. Mas a inversão dos termos originais também significa a insubmissão à cultura enlatada, manipuladora e planificadora dos Estados Unidos: é a faca apontada para o Tio Sam.

Essa é apenas uma amostra do livro de poemas de Nego Antão. A obra completa consta de cinco pérolas e foi impressa em um conceito ultramoderno de editoração: em uma folha corrida apenas, para que fosse acessível às populações oprimidas.