326. O terço descontente

Quando termina uma eleição e contam-se os votos, a ansiedade fica pela torcida na “corrida dos cavalinhos” — lembra-se desse quadro do programa infantil “Bozo”, leitor? A conta final exclui as abstenções, sejam elas por anulação ou por justificação do voto.

No caso da disputa pela Prefeitura paulistana, os números são assustadores. Veicula-se apenas o porcentual considerado “válido” por critérios estabelecidos em lei. Se incluirmos o número total de eleitores do colégio, as porcentagens são: Fernando Haddad (PT), 3.387.720, ou 39,3%; José Serra (PSDB), 2.708.768, ou 31,4%, e o conjunto de nulos, brancos e abstenções atingiu 2.522.682, ou seja, 29,3%.

A esperteza dos legisladores está em considerar a maioria absoluta dos “votos válidos”, esvaziando qualquer tipo de protesto com o voto nulo ou com a abstenção. Em qualquer outro país sério, tais números causariam uma crise política. Haddad elegeu-se — não obstante a condenação por formação de quadrilha da antiga cúpula do seu partido — com pouco mais de 39% dos votos. Os votos dos descontentes chegaram a quase um terço de todos os eleitores aptos a votar.

O protesto de anular o voto não tem valor legal — o que é cômodo aos políticos, pois a vontade dos descontentes é simplesmente ignorada —, mas deveria servir para que criassem o mínimo de vergonha na cara e revissem seus conceitos. O eleitorado está cansado. A tendência desses números — mesmo com o estardalhaço do TSE pelo “voto útil” — é aumentar, o que vai tirar ainda mais a legitimidade do processo democrático brasileiro.

É hora da reforma política. Já passou da hora.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 30/12/2012.

325. Mortes urbanas

Ruínas de instalação das Indústrias Reunidas Matarazzo em Iguape/SP

Embora o artigo abaixo seja específico sobre a cidade de Araraquara, Interior do Estado de São Paulo, ele retrata bem um fenômeno urbano brasileiro: zonas inteiras que morreram asfixiadas pelas vias de acesso. Com uma política que privilegia sempre o fluxo dos automóveis, a decadência que cantos que ficaram “ilhados” por equipamentos viários é visível principalmente nas grandes cidades. Mas também nas de médio porte o fenômeno é perceptível.

O artigo “Mortes urbanas” foi escrito para a Tribuna Impressa, de Araraquara, e publicado no dia 23/10. O mote é uma reportagem do domingo imediatamente anterior que tratava da decadência do Mercado Municipal da cidade.

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Mortes urbanas

A falta de planejamento urbano é o algoz das cidades. E não se trata de algo pontual, de uma só administração, mas de uma longa tradição de descaso com o aparato urbano.

No Brasil, os deuses do progresso são o trator e a marreta. Divindades violentas e inclementes. Observe ao seu redor, leitor. Se Araraquara existe desde o final do século 18 — embora só tenha “entrado no mapa” em 1817 —, o que pode nos dar noção disso? Nosso passado dourado resume-se a meia dúzia de casarões do começo do século 20, na área central da cidade. Nada mais. Se alguém dissesse que Araraquara foi fundada apenas em 1905, visualmente, seria factível.

Foi a falta de planejamento e o afã da marreta que necrosaram a região do Mercado Municipal, tema de reportagem de Raquel Santana, publicada nesta Tribuna, no último domingo (21/10).

Quando a estrutura que hoje abriga o Terminal de ônibus era a Rodoviária, movimento por ali não deveria faltar. Porém, a Rodoviária foi exilada para a ponta da Via Expressa e a própria Via Expressa foi construída, criando aquela curva esquisita que faz a Rua Zero, e foi erguido o viaduto da Duque de Caxias. O Mercado ficou “ilhado” entre vias de acesso; é vítima desse “progresso mal planejado”.

Pelo que sei, a transferência da Rodoviária e a construção da Via Expressa são da mesma época, a primeira metade dos anos 1980. Juntas, as duas alterações causaram graves desarranjos ao tecido urbano; a maior ferida é o Mercado: isolado num estranho canto e esquecido pela população, que lhe torce o nariz.

Sobreviverá o Mercado à sanha da marreta?

324. Enquanto caminho

Eu sou dum outro tempo,
que a cada instante fica mais longo.
Eu sou dum outro lugar
que a cada momento fica mais longe.
O aqui e o agora
É agora e nunca.
Um grito preso no vidro
dum efêmero perene.

323. Do ouro ao chumbo

Aurea mediocritas, o meio-termo de ouro, lema e meta dos poetas árcades. Meio-termo porque não peca pela falta, nem pelo excesso. Mas a palavra assumiu uma conotação negativa entre nós. O medíocre é indivíduo que além de não ter talento nenhum para destacar-se — não destacar-se não é um pecado em si —, projeta a queda dos demais, nivelando todos “por baixo” e ali procurando mantê-los.

O mal teve início quando os medíocres tomaram as academias, o parlamento; geraram leis e prerrogativas para seus iguais, burocratizaram a sociedade, imobilizando a criatividade. Mantêm sob ameaça o setor produtivo da sociedade com suas ações abstrusas. Como exemplo, o tal “desvio de função”, criação de legisladores ociosos para alimentar advogados de “porta de empresa”.

O medíocre não quer ter esforço. Por isso, mata na concepção a iniciativa alheia. O que antes era aprendizado no ambiente laboral, que dava oportunidades reais de crescimento profissional ao empregado e criava um vínculo com o empregador, passou a ser visto com desconfiança: tanto dos medíocres em geral, quanto do empregador, que, com plena razão, tem receio que aquele fato possa conduzir a um processo trabalhista — que sempre envolve uma reparação financeira; afinal, o real intuito do medíocre é alimentar-se do esforço alheio.

Há hoje faculdades, mas certas coisas somente a rotina de trabalho nos ensina. E perdemos uma parcela importante desse aprendizado por conta dos medíocres que legislam e invejam desde suas cátedras ou banquinhos.

Será que com esse tipo de pensamento canalha e mesquinho, inerente a quase todos nós, chegaremos ao dito mundo desenvolvido? Ou continuaremos a patinar na nossa mediocritas, plumbea mediocritas?

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 19/12/2012.

322. Cidades novas

[…]
 Dos mármores partidos e das colunas trágicas
[…]
Giorgios Seféris, VI, de “Mitologia”

Nunca houve mármore por aqui.
Apenas o corpo bárbaro da taipa
e seu esqueleto de ripas.
Houve — e ainda há algures —
o tristonho e roído sorriso do tijolo.
Hoje, somente a porosidade cinza
do concreto, fora do tempo.

321. Giorgios Seféris, V, de “Mitologia”

Giorgios Seféris

V

Jamais os conhecemos.
……………………………… Era a esperança, no fundo de nós,
Que dizia que os havíamos conhecido desde nossa infância.
Vimo-los duas vezes, talvez, depois entraram em seus barcos;
Cargueiros de carvão, cargueiros de cereais, e nossos amigos
Desaparecidos do outro lado do oceano, para sempre.
A aurora nos encontra ao pé da lâmpada fatigada
Desenhando com esforço no papel, desajeitadamente,
Navios, sereias e conchas.
No fim do dia, descemos para o rio
Porque ele nos aponta o caminho para o mar
E passamos nossas noites em subsolos que cheiram a alcatrão.

Nossos amigos partiram.
……………………………….. Talvez jamais os hajamos visto,
Talvez os hajamos encontrado quando o sono ainda
Levava-nos junto da vaga que respira,
Talvez os procuremos porque procuramos essa outra vida
Para lá das estátuas.

* * *

Giorgios Seféris, de “Mitologia” (1933-1934) – Tradução possivelmente de Paulo Rónai.

320. Utopia linguística

Selo brasileiro comemorativo do centenário de nascimento de L. L. Zamenhof, criador do esperanto

Quando eu tinha uns 12 ou 13 anos, meu pai tinha uma avícola num bairro da Capital. Entre seus fregueses, havia uma senhora russa, muito falante, cujo português era gaguejado, mas enérgico. Sempre conversava comigo enquanto fazia suas compras no comércio do meu pai; perguntava da escola. Eu era um aluno mediano, e ela dizia: “Tem que melhorar, hem?”.

Certo dia, quando vinha a pé de algum lugar, encontrei a senhora, cujo nome nunca soube. Nessa ocasião, num tom de confidência, me disse: “Tem uma língua que será muito importante no futuro…”; “O inglês”, tentei num rompante de querer agradar. “Não; se chama esperanto.” Nunca havia ouvido falar.

Em casa, fui à enciclopédia. Estava lá: língua artificial criada pelo oftalmologista polonês Luís Lázaro Zamenhof em 1887. Uma língua inventada, quem diria. Apesar de não ter dado muita atenção, a menção à língua e a informação adicional ficaram comigo. Em 2000, fuçando num sebo, encontrei o manual “Aprenda sozinho esperanto”. Comprei-o e está comigo até hoje. Nunca me tornei um esperantista, infelizmente.

Essa língua artificial — ou auxiliar — tem por base o vocabulário de várias línguas ocidentais, regras de gramática relativamente simples e um sistema de escrita e pronúncia regular. Sua ideia principal é a aproximação dos povos através de um idioma neutro.

Fiquei contente em descobrir que houve um congresso estadual — o 6º — de esperanto em nossa região, em São Carlos, entre 12 e 14/10. Infelizmente, não pude acompanhá-lo. Também é bom saber que há presença do esperanto perto, inclusive com esperantistas araraquarenses. Quem sabe não retomo os estudos?

* * *

Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 16/10/2012.

319. Acabou o amendoim

Quando percebeu que untara
Todas as páginas com gordura
e sal dos amendoins, o poeta
— sim, o poeta —
entrou em desespero.

Seus sebentos e salgados versos
tinham tanta sonoridade
quanto o saquinho que acabara de esvaziar.

O sal dos grãos e o sal dos olhos
tornaram suas páginas
um campo de pedras.

318. Ressaca

Eu votei, você votou, nós votamos. Elegemos um prefeito. No nosso caso específico, reelegemos quem ocupava a cadeira, Marcelo Barbieri. Não nutro esperanças. Não pense o prefeito, se por acaso deitar os olhos nestas linhas, que é pessoal. Não, procuro sempre ser republicano no sentido mais estrito da palavra. Mesmo que qualquer outro postulante ganhasse, eu estaria desiludido do resultado.

A segunda-feira pós-pleito é de ressaca, tanto dos eleitos, embriagados pela vitória, quanto dos derrotados, pois a derrota também embebeda. Os eleitores também estão com dor de cabeça, daquelas que o simples ato de pôr o pé no chão é trabalhoso. As portas das escolas estão atulhadas de panfletos.

Festa da democracia tivemos, mas não há sal de frutas que cure o enjoo dos próximos quatro anos, quando os eleitos recuarão para seus gabinetes e se dedicarão às habituais intrigas palacianas.

Não obstante a apatia que caracteriza nossas eleições, algumas mudanças na Câmara. Parece que a grita contra o ‘autoaumento’ causou algum estrago eleitoral. O PT regional também sofreu alguns reveses, apesar de o ex-presidente Lula ter dito “que o povão está mais preocupado com a queda do Palmeiras que com o Mensalão” — outra de suas frases de boteco que não condizem com a dignidade do cargo que ocupou —, parece que a coisa não foi bem assim: embora tenha ganhado Boa Esperança do Sul, Rincão e mantido Matão, não reconquistou Araraquara — sofrendo inclusive um “encolhimento proporcional” na Câmara, com sua bancada passando de 3/13 para 3/18 — e ainda perdeu Américo — onde Ademir Gouvêa era candidato à reeleição — e São Carlos — lá Osvaldo Barba também pelejava pelo segundo mandato —, Nova Europa e Motuca.

Parece que o Mensalão, não obstante Lula, teve mais protagonismo que o cadente Palmeiras. Ainda bem.

* * *

Publicado na edição especial da Tribuna Impressa de Araraquara em 8/10/2012.

317. De novo

Hoje é dia de exercermos o nosso dever-direito, dentro de um incongruente marco constitucional. De dois em dois anos, temos de rastejar às urnas para eleger quem pretensamente nos representa. A obrigatoriedade do voto arrasta às seções milhares de pessoas que não têm o menor interesse em tal direito. O STF já bateu o martelo: mesmo sem candidatos, temos de comparecer às urnas para manifestar nosso descontentamento.

Já abordei neste espaço — e não faz muito tempo — a falta de legitimidade que têm nossos pleitos. A democracia cujo único critério de validação são os números — e não qualidade do voto — e seu caráter referendário, por concentrar excessivos poderes nas mãos do Executivo.

É óbvio que uma reforma política está fora de questão. Não interessa aos políticos. Tudo lhes é muito confortável: o presidencialismo de coalizão, a rígida estrutura partidária que não permite agremiações em nível estadual ou federal, o voto proporcional, que dilui a base de representação dos parlamentares e deixa regiões inteiras sem representação e abre espaço para todo o tipo de arrivista: dos mais comuns aos fracassados em suas profissões de origem.

A política, entre nós, não é o como administrar a polis, a coisa pública: virou — e há muito — arrimo de oportunistas, de arrivistas, de gente cujo interesse não são as atribuições do cargo — esta Tribuna mesmo mostrou que muitos candidatos a vereador desconhecem as funções do posto —, mas sim uma sinecura ou um lugar privilegiado para suas atividades paralelas.

E lá vamos nós. De novo.

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Publicado na Tribuna Impressa de 7/10/2012, dia das eleições municipais.

316. O mais fácil

Ficar do lado “justo” ou “certo” é fácil. É igualmente fácil juntar-se ao pensamento dominante e ser mais um replicante. A ilusão que o politicamente correto cria é que cada um é um justiceiro e que tem “pensamento crítico” quando, na verdade, apenas incorpora o pensamento da massa. A grande sacada dos tempos modernos é fazer o indivíduo achar que está pensando por si quando apenas repete dogmas.

É confortável defender o que todo mundo defende, valores abstratos como “democracia”, “liberdade”, “tolerância”. Para ver como são frágeis e manipuláveis, basta pedir que um de seus “paladinos” os defina. As respostas serão de uma vacuidade e de um relativismo impressionantes.

Não é difícil — mas sim ingrato — mostrar como essas bandeiras lindas são pura mentira, construções convenientes. Ingrato porque os “paladinos” apedrejarão de volta. Eles têm licença moral de censurar. O politicamente correto é arbitrário e autoritário. Não admite crítica. Seus adeptos — independentemente da área de atuação, seja arte, cultura ou ativismo, seus nichos prediletos — sentem-se acima do bem e do mal e, logo, com poder de julgar quem não se enquadra em seus preceitos. São ditadores sem pasta. A liberdade que pregam é a subjugação da maioria, o silêncio forçado. É uma ditadura ainda pior que as institucionais, porque se instala na mente do indivíduo e controla-o de dentro.

Seus agentes têm várias faces: ativistas sociais, pedagogos, políticos. Temos de desconfiar deles, dos que insistem em “coletivo”, “bem comum”, “minorias”. Seu trabalho não passa de desinformação; são agentes do velho divide et impera.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 5/10/2012.

315. O fetiche do carro

“Voa, urubu albino!”

Araraquara ganha um veículo por hora. É o que nos informa a reportagem de Roberto Schiavon na edição de sábado (29/9) da Tribuna. Fora a queda dos impostos — paliativo para segurar manter o consumo em alta e protelar as reformas estruturais tão necessárias à economia —, a alta tem relação com o fetiche brasileiro por automóvel.

Mal faz 18 anos, o sonho dourado da juventude é tirar carta de condução. Se compra o carro ou o ganha dos pais é irrelevante: o Governo não se importa; as montadoras esfregam as mãos. É o começo do círculo vicioso: o feliz proprietário do veículo automotor não sairá de casa a pé nem para ir à padaria. Tudo será feito de carro, que é não apenas uma comodidade, como também símbolo de status. E quanto mais novo e reluzente, melhor!

Depois, acaba tendo de fazer algo estranho: sair para “caminhar”, porque é saudável. Ora, por que não deixa o carro em casa um pouco? É tarde. Já foi escravizado pelo objeto.

É claro que há exceções, de gente que realmente precisa locomover-se de carro por conta de horários — certamente você tentará se encaixar aqui, nada é tão cômodo quanto o autoengano —, mas uma grande parte da população motorizada o faz por comodidade e tal benesse está custando caro à qualidade de vida urbana: tanto pelo acúmulo de veículos na rua, quanto pelos pontos problemáticos nas principais vias (vide a novela dos balões) e pela cada vez maior falta de civilidade no tráfego: o excesso de velocidade, os equipamentos de som — fora o intrínseco mau gosto musical que os acompanha — e a pressa de não parar para dar passagem a um pedestre ou uma bicicleta.

É o paradoxo dos nossos tempos: quanto mais moderno, mais primitivo.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 2/10/2012.