313. Olhos gastos

Calça e camiseta amassadas; realmente gastas e velhas. Vinha sempre se esgueirando pelo muro do cemitério, confundindo-se com as manchas de umidade; entrava sempre na mesma floricultura.

— Um buquê de cravos. Cravos vermelhos.

Uma vez não havia cravos vermelhos; teve de contentar-se com os brancos.

No mesmo passo rápido e molambento, passava pelo portão do cemitério. Demorava-se lá um par de horas. Saía sem o buquê de cravos.

O farrapo de gente aparecia toda semana; toda quarta-feira. Além da roupa amassada, o aspecto macilento não ajudava. Passados alguns meses, a funcionária da floricultura teve a reluzente ideia de puxar papo com aquele cliente caladão.

— Calor hoje, não?

— Hum-hum.

Ou então:

— Será que chove?

— Hum-hum.

Lacônico. Talvez fosse uma concordância, uma muda revolta. Talvez.

A funcionária não se dava por vencida:

— Muito querido devia ser esse seu parente…

— Hum-hum.

E o homem, além das roupas gastas, tinha um olhar vago e gasto, como se tivesse sido muito raspado contra o horizonte. Mal recebia as flores, jogava o dinheiro na mão da funcionária e saía rapidamente da loja.

Depois de mais uma visita, a moça resolveu seguir à distância o homem gasto. Viu-o entrar no cemitério; viu-o parar diante de uma sepultura, não sem certa hesitação, e nela depositar o ramalhete. Ficou parado de pé durante umas boas duas horas.

A funcionária voltou para a loja e, no dia seguinte, foi verificar o nome da sepultura. Nada demais, e bem que era uma pessoa que havia morrido em 1955. O homem, por velho que fosse, não tinha 50 anos. Poderia tratar-se de alguma graça alcançada, mas também não parecia ser um daqueles túmulos milagrosos, de anjinhos ou gente piedosa. Assunto de família.

Na semana seguinte, o homem foi novamente à floricultura. Um ramo de cravos vermelhos. Pagou e saiu. No seu encalço, a funcionária.

Passou pelo portão e, no meio caminho principal do cemitério, hesitou. Para espanto da funcionária, foi para o lado oposto àquele da sepultura visitada na semana anterior. O homem pareceu boiar entre as cruzes, como se procurasse algo não nelas, mas acima delas; uma bandeira esfarrapada. Parou diante de outra sepultura;  outro parente, talvez. Outras duas horas de muda contemplação da lápide.

No dia seguinte, a funcionária foi ver de quem se tratava. Outro nome, aparentemente sem ligação com o anterior.

Na quarta seguinte, o homem apareceu de novo. Todo o ritual seguiu-se. E novamente com outra campa. Desta vez, o homem viu a funcionária esgueirando-se atrás de um mausoléu, mas fingiu não vê-la. Fez sua contemplação até quando acho necessário e foi embora.

Ele não apareceu mais na floricultura. Nem na quarta seguinte, nem na outra. Sequer numa terça-feira. Não havia para quem perguntar sobre seu paradeiro. Ninguém sabia quem ele era, de onde vinha, onde morava.

Ele continua por aí. Está agora visitando outro cemitério, presenteando os mortos às cegas.  Mas ele não presenteia os mortos em si. Não, seria uma tolice. Ele apenas homenageia a morte, em um culto íntimo. E não quer intromissão dos vivos.

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