314. A democracia sou eu

“Paz, amor e sieg heil!”

L’État c’est moi” — “O Estado sou eu” — é frase atribuída a Luís XIV, Rei da França entre 1643 e 1715. O dito, embora os historiadores não considerem ter saído efetivamente da boca do monarca, contém a ideia da monarquia absolutista, ou seja, regime em que o rei era executivo, legislativo e judiciário. A frase resume o espírito da época.

“A democracia sou eu.” Disse outro Luís, o Inácio Lula da Silva. Não exatamente assim, mas a maneira como ele vem se comportando bem o demonstra. Embora seja dado a bravatas, Lula jamais diria uma frase dessas. Jamais se comprometeria tanto com conceitos que lhe são apenas degraus, como a democracia.

Parte de sua concepção política vaza de seu discurso furado: “Temos de aproveitar o bom momento do País para eleger mais companheiros”, disse o ex-presidente no palanque de Luiz Marinho, candidato a prefeito em São Bernardo do Campo/SP. A ideia de Lula paira sobre um regime de partido único, uma democracia “companheira”. Basta ver algumas declarações: “Precisamos extirpar o DEM da política brasileira”, nas eleições de 2010, e, agora, no comício de Mário Reali, candidato a prefeitura de Diadema/SP, quando comparou a oposição a um câncer.

Sua insistência em dizer que “não sabia de nada” sobre o Mensalão está se mostrando um péssimo álibi. Enquanto Lula tenta esconder o morto no armário, a militância — principalmente pela internet — está arreganhando dentes e falando em “golpe”. O único movimento que vejo é o da decência, de magistrados que estão fazendo seu papel, não obstante terem sido, em grande parte, indicados por Lula ou Dilma. O golpe é apenas contra o democratismo “companheiro”, que há de chegar ao fim.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 25/9/2012.

313. Olhos gastos

Calça e camiseta amassadas; realmente gastas e velhas. Vinha sempre se esgueirando pelo muro do cemitério, confundindo-se com as manchas de umidade; entrava sempre na mesma floricultura.

— Um buquê de cravos. Cravos vermelhos.

Uma vez não havia cravos vermelhos; teve de contentar-se com os brancos.

No mesmo passo rápido e molambento, passava pelo portão do cemitério. Demorava-se lá um par de horas. Saía sem o buquê de cravos.

O farrapo de gente aparecia toda semana; toda quarta-feira. Além da roupa amassada, o aspecto macilento não ajudava. Passados alguns meses, a funcionária da floricultura teve a reluzente ideia de puxar papo com aquele cliente caladão.

— Calor hoje, não?

— Hum-hum.

Ou então:

— Será que chove?

— Hum-hum.

Lacônico. Talvez fosse uma concordância, uma muda revolta. Talvez.

A funcionária não se dava por vencida:

— Muito querido devia ser esse seu parente…

— Hum-hum.

E o homem, além das roupas gastas, tinha um olhar vago e gasto, como se tivesse sido muito raspado contra o horizonte. Mal recebia as flores, jogava o dinheiro na mão da funcionária e saía rapidamente da loja.

Depois de mais uma visita, a moça resolveu seguir à distância o homem gasto. Viu-o entrar no cemitério; viu-o parar diante de uma sepultura, não sem certa hesitação, e nela depositar o ramalhete. Ficou parado de pé durante umas boas duas horas.

A funcionária voltou para a loja e, no dia seguinte, foi verificar o nome da sepultura. Nada demais, e bem que era uma pessoa que havia morrido em 1955. O homem, por velho que fosse, não tinha 50 anos. Poderia tratar-se de alguma graça alcançada, mas também não parecia ser um daqueles túmulos milagrosos, de anjinhos ou gente piedosa. Assunto de família.

Na semana seguinte, o homem foi novamente à floricultura. Um ramo de cravos vermelhos. Pagou e saiu. No seu encalço, a funcionária.

Passou pelo portão e, no meio caminho principal do cemitério, hesitou. Para espanto da funcionária, foi para o lado oposto àquele da sepultura visitada na semana anterior. O homem pareceu boiar entre as cruzes, como se procurasse algo não nelas, mas acima delas; uma bandeira esfarrapada. Parou diante de outra sepultura;  outro parente, talvez. Outras duas horas de muda contemplação da lápide.

No dia seguinte, a funcionária foi ver de quem se tratava. Outro nome, aparentemente sem ligação com o anterior.

Na quarta seguinte, o homem apareceu de novo. Todo o ritual seguiu-se. E novamente com outra campa. Desta vez, o homem viu a funcionária esgueirando-se atrás de um mausoléu, mas fingiu não vê-la. Fez sua contemplação até quando acho necessário e foi embora.

Ele não apareceu mais na floricultura. Nem na quarta seguinte, nem na outra. Sequer numa terça-feira. Não havia para quem perguntar sobre seu paradeiro. Ninguém sabia quem ele era, de onde vinha, onde morava.

Ele continua por aí. Está agora visitando outro cemitério, presenteando os mortos às cegas.  Mas ele não presenteia os mortos em si. Não, seria uma tolice. Ele apenas homenageia a morte, em um culto íntimo. E não quer intromissão dos vivos.

312. Cemitério da memória

Cemitério de Bueno de Andrada (foto: Moisés Schini/Tribuna Impressa)

Um adágio popular repete que o brasileiro é um povo sem memória. De fato, a maioria das pessoas só dá importância ao agora ou, no máximo, ao imediatamente futuro. O passado jaz na poeira.

E poeira e mato não faltam no Cemitério de Bueno de Andrada. Apesar dos 362 corpos sepultados entre 1925 e 1967, apenas uma cruz assinala a pretensa sacralidade do local. Esta Tribuna dedicou uma reportagem de duas páginas ao assunto; no interessante texto de Antonio Marquez fica patente o descuido e o pouco caso das autoridades constituídas para com o patrimônio público e a memória coletiva.

Um cemitério não é apenas um local de pranto ou um sagrado — assim considerado pelo lugar central que a morte tem na nossa concepção de mundo —, mas é também um local de memória, de história. O desaparecimento físico do cemitério é um desastre para a história de Araraquara. Desaparecimento sim, porque um pasto com uma cruz não é mais um cemitério, parecendo-se mais com aquelas tristonhas cruzes de beira de estrada que recordam os mortos em acidentes.

Por sorte, existem ainda os registros. A Prefeitura, por sua vez, fala em “cemitério desativado”. E como se desativa um cemitério? Não se trata de um prédio, de uma máquina. Os corpos continuam lá; tiveram suas identificações roubadas por profanadores, mas continuam lá. Os entendidos falam em contaminação do solo. Frente ao descaso com a memória, é mero tecnicismo; um detalhe ínfimo.

O Cemitério de Bueno — que sequer fez 90 anos — é uma triste metáfora do nosso senso de conservação histórica e memória: um pasto cheio de pó e mato.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 18/9/2012.

311. As tristes jornadas de Dom Bertrand

S.A.I.R. o Príncipe D. Bertrand (fonte: monarquia.org.br)

Em 28 de agosto, a cidade de Franca, Interior paulista, viu o que certamente foi um dos fatos mais lamentáveis de sua história.

Um simpósio organizado pelo câmpus da Universidade Estadual Paulista (Unesp) naquela cidade contaria com a ilustre presença de S.A.I.R. (Sua Alteza Imperial e Real), o Príncipe Dom Bertrand de Orleans e Bragança, o segundo na linha de sucessão ao Trono imperial se este fosse restaurado.

No momento em que a palestra teria início, o recinto da conferência foi invadido por meia-dúzia de estudantes que, não obstante protestarem contra a presença do Príncipe, dirigiram-lhe grosseiros insultos imotivados, chamando-o, por exemplo, de nazista.

Estudantes todos vinculados ao movimento universitário de esquerda — há outra coisa que não a esquerda na academia brasileira? — cuja visão de democracia restringe-se apenas a esquerda. Que tipo de exemplo queriam dar a não ser de sua profunda falta de civilidade? É isso que a academia tem gerado.

Além da falta da educação, a grande burrice: a Família Imperial Brasileira, retida na França com o início da Segunda Guerra Mundial, nunca teve ligações com os nazistas. É o famoso termo “fascista” que os estudantes usam aleatoriamente para tudo e todos que não estão de acordo com suas ideias totalitárias de esquerda.

Do episódio, duas coisas interessantes: a Unesp de Franca estuda punição àqueles que não sabem respeitar a opinião alheia, e a fundação de uma frente de defesa da monarquia naquela cidade, com cerca de 40 membros.

No caso da defesa da monarquia, foi da adversidade que veio a força.