310. Análise do(s) discurso(s)

Não se trata aqui de nenhuma disciplina acadêmica, como o título pode sugerir. Dedico as próximas linhas a algumas impressões sobre as sabatinas feitas aos candidatos à Prefeitura e publicadas na edição de domingo (26/8) desta Tribuna.

Os primeiros, definidos em sorteio, foram Márcia Lia (PT) e Valter Merlos (PSD).

O discurso de Merlos é a cansativa ladainha do empresário de sucesso. Dá a entender que administrar uma cidade é como fazê-lo com uma empresa. Mas uma empresa privada não tem parlamento; não basta dar ordens, elas precisam ser endossadas pelo Legislativo. Enfim, a ‘gestão de choque’ é uma expressão bonita, mas oca.

O discurso de Márcia Lia, além das temáticas caras à retórica da esquerda, tem um agravante: “Temos de investir muito para fortalecer a Santa Casa e fazer com que a Maternidade Gota de Leite tenha recursos da Presidenta (sic!) Dilma”. É o tipo de declaração que joga por terra qualquer boa intenção. Pois o que se lê nas entrelinhas é que só teremos as verbas caso o PT volte para a Prefeitura, o que quebra o Pacto Federativo. Se um município não recebe verba porque seu prefeito não é do mesmo partido que a presidente da República, fica claro o aparelhamento do Estado por aquele partido, a face mais pavorosa do fisiologismo.

O que, em tese, é discurso vazio. Em Brasília, o PMDB de Barbieri é da base aliada; o PSD de Merlos e Kassab flerta com o Governo Federal. Logo, o repasse de verbas não será um problema.

A candidata deveria ter repensado e dito “recursos do Governo Federal”, que embora não isento de suspeitas, ficaria mais de acordo com um discurso que se quer — ou deveria ser — republicano.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 28/8/2012.

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309. Para entender a releitura

“Mamãe, acabei a releitura. Vem me limpar?”

Vivemos um vale-tudo cultural. Como já diz o nome da variedade de luta, vale tudo. Qualquer pastiche é elevado à condição de obra de arte. Geralmente a incompetência dos artistas modernos é tão grande, que costumam valer-se de imposturas para justificar suas impropriedades. O termo “releitura” ocupa uma posição central nesse “panteão das trevas”.

Não soube fazer, ficou meia-boca? Diga que é uma releitura. Sua trupe é incapaz de decorar os textos como eles foram produzidos por seus autores? Tudo bem. Crie uns figurinos diferentes e diga que é uma “releitura”. Os pós-modernos vão vibrar e poucos perceberão o embuste. E os que perceberem… bem, chame-os de “retrógrados”, “fascistas” e algum outro termo que estiver em voga; desqualifique-os.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 26/7/2012

308. ‘Divide et impera’

De olho no jogo

Recebemos várias reações ao nosso artigo da semana passada (“Oclocracia”, 14/8); alguns fazendo eco, outros criticando-o. E é sobre um dos questionamentos que gostaríamos de rapidamente nos debruçar.

Um leitor questionou o raciocínio alegando que “temos 27 partidos políticos registrados no STE”. Justo. Mas o que significa esse número absurdo de partidos? Conexão plena com o que chamamos de oclocracia ou democracia numérica.

Sabemos — ou deveríamos saber — como se comportam as agremiações políticas no Brasil: não têm projetos políticos. Têm, no máximo, projetos de poder, de conquista do Estado; são mais alcateias que propriamente partidos. Isso, claro, os mais organizados; o resto são apenas amebas que querem fagocitar uma vaguinha em legislativos poeirentos, uma verbinha.

Dizemos isso porque é impossível haver 27 visões de como gerir a República. Se houvesse algum partido que defendesse a monarquia, teríamos, no máximo, umas três ou quatro visões sobre a administração pública. Aposto meu dedo mindinho esmagado por um torno mecânico que esse número não pode ser maior.

É a lógica da democracia numérica: divide et impera, ou seja, divide para dominar; era a máxima de Júlio César e Napoleão. Uma sociedade muito fragmentada não tem setores fortes; ou, no máximo, dois ou três que polarizam o restante de acordo com as conveniências. Fazem um jogo que nos ilude, um caleidoscópio que dá a sensação de infinito num minúsculo prisma de espelhos.

No final das contas, os partidos apenas fazem parte da liturgia da política. Dão aspecto sério a uma sociedade politicamente hedonista; são peça essencial do democratismo, sistema político que apenas quer parecer democrático.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 21/8/2012.

307. Oclocracia

Socorro!

O fracasso da vida política brasileira tem relação direta com a escola. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1971 levou a cabo a obrigatoriedade do ensino de 1º grau e, sem grandes alterações na infraestrutura existente, todas as crianças — ou boa parte delas — passaram a frequentar a escola. Um inchaço sem o menor planejamento — típico de regimes autoritários — associado a teorias pedagógicas mal aplicadas condenou a educação pública à situação que vemos. Gestores e outros burocratas dirão o oposto; é mera falácia.

O mesmo se dá com a vida política. Todos temos título de eleitor, uma vez que a nossa “Constituição cidadã” democraticamente nos obriga a votar. Ou seja, promovemos uma inclusão forçada de indivíduos que não sentem necessidade de exercer tal direito.

Logo, criamos uma ficção democrática. Uma visão de democracia justificada única e exclusivamente por números: a oclocracia (do grego okhlocratía, o governo da multidão; voraz, amorfo, amoral e inócuo). Os números justificam o eleito; mas se o voto não tem a menor qualidade, a noção de democracia desmorona: abrimos caminhos para os arrivistas, populistas e espertalhões de plantão — os oclocratas, caudilhos, salvadores —, o que favorece ainda vícios como o maniqueísmo — se não é ‘x’, obrigatoriamente é ‘y’ — e injustificável, do qual república e instituições tornam-se reféns.

Enquanto o voto for obrigatório e o descrédito das instituições viger — e não há interesse algum da classe política em qualquer mudança —, será sempre mais fácil arrancar votos fantasiado ou com o toma-lá-dá-cá, justificá-los numericamente e apontar eminências pardas onde elas quase nunca estão.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 14/8/2012.

306. Disse o Rei Miguel

Sua Majestade, o Rei Miguel da Romênia

Dar politica este o sabie cu două tăișuri. Ea garantează democrația și libertățile, dacă este practicată în respectul legii și al instituțiilor. Politica poate însă aduce prejudicii cetățeanului, dacă este aplicată în disprețul eticii, personalizând puterea și nesocotind rostul primordial al instituțiilor Statului.

Mas a política é uma faca de dois gumes. Ela garante democracia e liberdade, se praticada com respeito às leis e às instituições. A política pode também trazer prejuízos aos cidadãos, se for exercida com desrespeito à ética, personalizando o poder e desvirtuando o propósito fundamental das instituições do Estado.

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Parte de discurso proferido do Parlamento romeno em 25/10/2011, quando S.M. o Rei Miguel foi convidado pela casa legislativa para comemoração de seus 90 anos. Texto completo em romeno aqui. Vídeo do discurso com legendas em inglês aqui.

305. “Colombo”, Altan

Columbus dixit

Colombo cru e nu

Mudando um pouco o foco, hoje enveredamos pelas HQs. Ficamos com a obra-prima “Colombo”, do italiano Altan — que inclusive foi colaborador do Pasquim. Um retrato ácido e ligeiramente cruel do grande almirante Cristóvão Colombo é o trabalho do traço jocoso do quadrinista. Dividido em 12 capítulos, conta toda a trajetória do genovês, da infância ao retorno das terras que ele morreu pensando tratarem-se das tão sonhadas Índias.

Além das peripécias-padrão do Almirante, inclua-se aí o bondoso grumete Mário, uma lasciva Isabel de Castela e os índios cínicos com que ele se depara numa terra empesteada de mosquitos. Um diferencial de “Colombo” são as sugestões de trilha sonora e os comentários violentos sob alguns quadrinhos. Imperdível.

“Colombo”, Altan. 102 págs. L&PM Editores

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 12/8/2012

304. Como criar um tirano

Nicolae Ceauşescu e seu indefectível beicinho

Os tiranos modernos são eleitos pelo povo. Aquela imagem de que eram eleitos apenas pelo poder oligárquico já não é mais verdade. Hoje eles fazem questão de serem populares. E quanto mais populares, mais tirânicos são, pois têm apoio de uma massa e as massas não têm face ou opiniões unívocas.

Os tiranos modernos vêm do seio do povo e geralmente representam todos os vícios nele contidos. Para parafrasear Nietzsche porcamente, um tirano moderno não é nada mais que um superpopular. Se um povo é mesquinho, desconfiado e violento, seu “salvador” terá as mesmas características para ser assim reconhecido.

Todos os tiranos têm sua gênese em movimentos populares. Hitler surgiu da conjunção nefasta de crise econômica, desespero e excesso de democracia, que conduziu ao populismo exacerbado — se o “excesso” lhe parece incongruente, leitor, recomendo que pesquise acerca da célebre Constituição de Weimar. Mussolini, de matriz socialista, surgiu da crise política e do descrédito institucional oriundos da Primeira Guerra Mundial.

Se um povo tem problemas com distribuição de renda ou se crê — ou fazem com que ele acredite — vítima de sistemas viciados, provocando a cobiça pelo progresso alheio, a sereia que os seduz é o socialismo. Tão nocivo para o engenho e para o desenvolvimento quanto a subnutrição para uma criança. Quase todos os tiranos modernos e contemporâneos têm matriz e matizes socialistas. Não exatamente escancarada: Hitler perseguia-os, mas, ao mesmo tempo, tinha ideias de Estado totalitário. O que é um estado totalitário se não um “comunismo burguês”?

Mas o que eu gostaria de demonstra com esse texto é a gênese desse tipo de líder e creio que o caso mais emblemático é o de Nicolae Ceauşescu. Ceauşescu tornou-se o homem forte da Romênia após a morte do lide comunista Gheorghe Gheorghiu-Dej, em 1965. Torna-se presidente do Partido Comunista Romeno e, em 1967, presidente do Conselho de Estado.

Ceauşescu, como tantos outros, é o típico arrivista do poder. Nascido em uma família pobre, começou a trabalhar em uma fábrica, o que não o impediu de dedicar-se a pequenos furtos. Acabou preso porque roubara uma mala em uma estação de trem em Bucareste, mala que continha folhetos do Partido Comunista Romeno — à época ilegal. Acabou preso e de ladrão de galinha, foi alçado à condição de “perigoso agitador comunista”.

Acabou entrando em contato com os impressores dos panfletos, que o doutrinaram. Começou com atividades pró-PCR e acabou preso na famosa Prisão de Doftana, praticamente o núcleo de pós-graduação do PCR: ladrões de galinha que passavam a acreditar que matar e reprimir em nome do “povo” e do “futuro melhor” era lícito. Qualquer semelhança entre a prisão de Doftana e o sistema penitenciário paulista, o centro de especialização da bandidagem, deve ser mera coincidência.

Grande parte do quadro do governo de Chivu Stoica — primeiro ministro que forçou o Rei Miguel a abdicar — era oriundo da Doftana.

Ceauşescu aplicou todos os princípios aprendidos na prisão. Reprimiu e matou. Como teve uma vida de privações na infância, subiu-lhe a cabeça que, já que trabalhava pelo povo, poderia viver como um nababo. Palácios com torneiras de ouro, construções suntuosas, tudo para aplacar um ego gigantesco, uma egolatria mal disfarçada em abnegação, culto à personalidade. Qualquer semelhança com a Coreia do Norte não é acidental: após uma visita ao país oriental, Ceauşescu entrou em contato com a ideologia juche, que consiste numa estranha mistura de exaltação nacional, dos esforços coletivos, grandes manifestações simbólicas e culto à personalidade do líder.

Elementos nefastos que deram origem a um líder totalitário — chegou mesmo a usar o título de Conducător, usado pelo rei Carlos II e pelo Marechal Antonescu, da Guarda de Ferro, pró-nazista — e egocêntrico. Foi o único líder da Europa Oriental que terminou executado na queda do regime.

O que aconteceu no caso romeno é muito emblemático. Tiram o rei, que tem a origem do seu poder na tradição, representa não o poder efetivo, mas uma moral; e a turma da esquerda tende à amoralidade, a quebra dos parâmetros anteriores para dar nascimento ao “homem novo”. Porém, com o vácuo do poder moral, a tendência que o caminho seja franqueado para os vícios do povo, quando elementos sem a consciência real do que representa o poder chegam a ele e nele se instalam. Os vícios vêm apenas com uma demão de tinta dourada.

Por esses e tantos outros motivos, um poder extremamente popular pode tornar-se uma tirania; pois, personificado no tirano, o povo liberta-se e oprime-se ao mesmo tempo.

303. Pizzaria Brasília

Zé Dirceu suando

Apesar do escarcéu institucional promovido pelo Supremo Tribunal Federal, grande parte dos que acompanham com algum interesse o julgamento do Mensalão não acredita em punições reais para os envolvidos. No máximo, algo simbólico.

A partir de ontem, começamos a ouvir a defesa de Zé Dirceu et caterva. O esquema financeiro de “azeitamento” da base aliada foi mostrado pelo advogado como invenção do presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson. Embora Jefferson esteja igualmente indiciado no processo e tenha sua parcela de culpa, é inegável seu mérito, em suas próprias palavras, de ter livrado o Brasil de Zé Dirceu. É uma verdade sifilítica, mas, ainda assim, é verdade.

Vimos também as rusgas entre os ministros Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski, na última quinta-feira (2/8), que transformaram o recinto do STF em uma rinha de galos. Esse tipo de acontecimento é só mais um tijolo no mausoléu das instituições brasileiras, sempre desacreditadas.

Assim como as eleições presidenciais são no ano da Copa do Mundo, o Mensalão foi jogado para o período das Olimpíadas. Se foi intencional, foi também um tiro pela culatra: os jogos estavam perdendo em audiência até mesmo para o vetusto seriado mexicano “Chaves”.

Gostaria de poder acreditar em outro desfecho para o julgamento do Mensalão, já apontado como o mais importante da história do País, mas não creio que passará de um grande — outro — oba-oba. Seus réus sairão impunes e com a cabeça erguida, arrogantes e com aura de santos; arrotarão verdades e perseguirão seus detratores. O descrédito das instituições e as tramas frouxas da lei já deram o cardápio há muito tempo: pizza, meia Delúbio, meia Zé Dirceu, acompanhada pelo vinho azedo do desgosto.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 7/8/2012.

302. Bolicola e McEvo

Evo Morales tomando Coca-Cola

Fanfarronice, palhaçada ou simples vontade de aparecer? Não é possível saber exatamente qual doença acomete o chefe boliviano Evo Morales. Talvez seja uma terrível mistura das três.

Nesta semana, Morales expulsou a Coca-Cola de seu território e decretou a falência do McDonald’s. Não que o McDonald’s do Chaco representasse muita coisa: eram apenas oito lojas no país todo. O que sobra é o ridículo; os atos são intitulados como “o fim do capitalismo” na Bolívia. Já consigo ver uma assembleia em qualquer universidade pública brasileira e um barbudinho seboso levantando a mão para pedir votação de uma “moção de apoio ao povo boliviano”.

É um mero ato simbólico do ridículo que esse tipo de regime gosta de representar. Não tem efeito prático, no máximo, no caso do McDonald’s, fica um saldinho devedor de uns 60 ou 70 desempregados; fica só o risível e expõe a megalomania de pessoas e doutrinas que se creem o único caminho possível.

Esquecendo-se do Chaco Meridional, perdido para o Paraguai nos anos 30, a Bolívia faz do McDonald’s suas Malvinas, um monstro para chamar de seu. Talvez o Estado Plurinacional da Bolívia introduza, em lugar dos itens prescritos, a Bolicola e o McEvo. Feitos por estatais, evidentemente.