290. Política, futebol e religião

Verde, que te quero verde

Diz o ‘velho deitado’ que política, futebol e religião não se discutem. Uma versão mais sucinta fala de “cor e gosto”. Temas e percepções. O grande problema do brasileiro — digo isso porque é o povo que conheço, mas a definição imagino ser expansível à Latinidade — é misturar as coisas.

O cidadão não se contenta em ver o jogo de futebol e torcer pelo seu time. Não. Alguns espíritos de porco têm de sair à rua acelerando carros e berrando. Outro cidadão tem sua fé; ele não se contenta em servir a Deus, tem de sair nos domingos pela manhã para bater de porta em porta e tentar arrebanhar mais almas com um discurso impositivo. Das misturas dessas duas vertentes de manifestação surge a política vista pelo brasileiro que a acompanha: dogmática e escandalosa. O brasileiro acompanha política como quem torce para Corinthians ou Palmeiras: é mau perdedor, é dogmático e crê na infalibilidade dos seus “papas” e só seu time tem razão. “Minha razão é a minha força.”

Essa política futebolística se vê muito pela ‘esquerda festiva’, ou seja, aquela que se encontra ora no poder. Nosso ex-presidente adora uma metáfora do mundo da bola, uma bela alegoria. E também não admite críticas. Essa esquerda e outras ainda mais radicais aninharam-se, por exemplo, na área de Humanas das universidades públicas, ultrapassando mesmo as cansativas assembleias em que se discute, num “samba do crioulo doido”, falta de professores e propõe-se uma “moção de apoio ao povo do Iraque contra a opressão estadunidense”, as doutrinas chegaram mesmo às salas dos professores, onde são os únicos critérios de pesquisa e investigação. Nossa universidade parou nos anos 60.

E são infalíveis. A economia de mercado teve suas turbulências esporádicas — e está tendo uma grave agora, um dolorido espasmo —, porém o Segundo Mundo, que chegou a englobar 33% da Humanidade, hoje se acha reduzido a ilhas de tirania, como Cuba e Coreia do Norte. O resto do Mundo Socialista dissolveu-se por absoluta incompetência econômica; as revoluções populares foram apenas uma cereja no bolo da desgraça. Se não tivessem acabado na contração violenta do começo dos anos 90, os regimes da Europa Oriental teriam definhado por mais uma década e lentamente começariam a abrir-se.

Dizem os acadêmicos: “Ah, mas isso não é o socialismo”. Se não o é; o que seria? O problema do socialismo/comunismo é que ele nunca ultrapassou a barreira da famigerada ditadura do proletariado que, uma vez instalada, deveria dar lugar à lenta dissolução do Estado, a administração descentralizada e local. Nessas linhas, seria um sonho. O grande problema é que a amorfa ditadura do proletariado tornou-se a pétrea ditadura da nomenklatura. E assim foi até a dissolução dos regimes.

Possivelmente, junto com a monarquia absolutista e a república revolucionária, o socialismo é um dos regimes que provou sua incompetência em um longo e largo laboratório de 80 anos. Vivemos um regime de democracia representativa que é péssimo, mas, parafraseando Winston Churchill, ainda é o melhor que eu conheço.

O grande problema da esquerda socialista é que a teoria é ótima. Porém tem um grave defeito: não contou com o fator humano. O ser humano é amigo do poder; o poder o fascina. Logo, se uma camada tem acesso a ele agarra-se como o náufrago à jangada. E o “horizonte luminoso” do socialismo fica como o horizonte real: quando se dá um passo em direção a ele, ele se afasta outro.

E, retomando o enfoque do texto, pode-se dizer que há um apego sacro com a política. Há dogmas, há heresias, há excomungados. Heranças de um catolicismo fetichista? A esquerda mantém a ilusão de que é possível mudar, porém, quando chegou ao poder, entregou-se ao mesmíssimo fisiologismo que domina o Estado brasileiro desde a colônia. Mais do mesmo. O poder é como a maresia: corrompe até ferro. Somos um povo torto, dado a paixões e a vícios como poucos. Nossas grandes qualidades são a falta de caráter — o jeitinho —, o sorriso falso com cerveja, o dogmatismo de ocasião das nossas opiniões, a moleza da nossa alma.

Por isso somos tão insuportáveis.

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5 Comentários

  1. Thiago Dias

     /  21/06/2012

    Desculpe o nível pessoal do pitaco. Mas é que eu acho um desperdício um sujeito culto, interessado e capaz como você chegar a reflexões a respeito da condição humana partindo da ação de meia dúzia de meninos com os hormônios em polvorosa. A questão da esquerda te preocupa muito e, assim como se faz nos cursos de humanas das universidades públicas por aí, sugiro: leia os clássicos da questão! Veja se em Marx, Adorno, Rosa, Caio Prado Jr., Sartre ou Marcuse a esquerda “não contou com o fator humano.” Se for ler textos de intervenção, veja a diferença entre os de Marx, Lenin e Trotsky com os de Stalin, Mao e Hitler.

    Entendo os limites impostos pelo formato do texto (não dá para tratar de tudo em uma coluna). Mas é grande demais o nível de generalidade de um argumento que vai do entusiasmo de alunos do primeiro ano de Ciências Sociais à constatação de que o homem é um ser ontologicamente marcado pela queda, passando pela Coréia do Norte e pela falta de civilidade do povo em um país de modernidade atrasada!

    ***

    Talvez seja muita muita falta de modéstia de minha parte, mas não posso deixar de crer que o tema do post tem relação com a discussão do anterior. Aí, fica a pergunta: por que toda discordância tem que ser chamada de dogmática?

    Resposta
  2. Sérgio F. Mendes

     /  22/06/2012

    Como diria Jack, o estripador, vamos por partes.

    Muito bem. Esses “meninos em polvorosa” que me preocupam acabam por se tornar massa de manobra de partidos políticos dentro da universidade. Veja o caos que eles fazem dentro da USP: greves, invasão de prédio, destruição do patrimônio público. Muito bem, um mero protesto dentro do câmpus de Guarulhos da Universidade Federal de São Paulo acabou com mais de 10 detidos pela Polícia Federal. Ou seja, o PT consegue incitar a desordem numa universidade que está sob a tutela de um ente federativo cujo poder tenta, mas não consegue agarrar; quando a “revolução” estoura no quintal, PF.

    Não preciso falar etrusco para estudar a civilização etrusca. A falta da completude de leitura dos teóricos de esquerda não me obnubila a vista para ver o rastro de desgraça que ficou na Europa Oriental e em outras partes. Outra: não pretendo me tornar um crítico do socialismo. Para mim, simplesmente não serve, não dá e há prova suficiente disso mundo a fora. Quero (ou busco, sei lá), um modelo de funcionamento o mais simples possível para a sociedade poder gozar das benesses econômicas de um país que cresce, mas, que até agora, não se vê uma moeda. E não é com um Estado mastodôntico, impostos absurdos e programas de “distribuição de renda” demagógicos: é permitindo que as pessoas trabalhem e vivam em paz. Sabe quanto tempo se demora para abrir uma empresa e quanto de imposto incide sobre um ente que sequer faturou um centavo? Pois é.

    O grande problemas das teorias é que contam com excessiva boa vontade dos que ficaram sobre elas; logo os oportunistas de plantão aparecem; do proletariado à burocracia. Um regime socialista jamais passará disso e esmagará toda a população com um Estado gigantesco que, em tese, deveria sumir.

    O problema é que não estou atrás de soluções acadêmicas; o povo não tem tempo de ler aquela montanha de dissertações e teses bancadas com dinheiro público, escritas com aquela linguagem horrorosa que se quer “imparcial” e depois mofam nas prateleiras das universidades. É necessário ação, é necessário que surja no Brasil uma força que defenda esses princípios de “direita”: liberalismo, liberdade de produção. E, infelizmente, só vejo partidos-mamíferos, com um predominante verniz de esquerda.

    O triste é que estamos acostumando as novas gerações com esse tipo de descalabro, acostumadas com o absurdo, com os genes amolecidos pela inércia política do período da Ditadura (esse sim um dos grande prejuízos causados pelos militares). Aliás, os que ocupam o poder desde 1994 só têm a agradecer aos milicos: devem o poder a eles.

    Liberdade econômica, federalismo, estado mínimo. Isso basta para uma sociedade ser “saudável”.

    Resposta
    • Thiago Dias

       /  23/06/2012

      O estudo da civilização etrusca feito por quem não fala etrusco traz marcas desta falta. Não se trata de virar um crítico do socialismo. Trata-se de não misturar alhos e bugalhos e achar que há um enlace (esta, aprendi contigo) direto entre o DCE da UNIFESP e os Ladas nas ruas de Belgrado. Esta conexão direta é fantasia herdada da época da Guerra Fria, quando quem criticava a autonomia do banco central podia ser com maior ou menor acerto chamado de pro-Moscou. Esta fantasia também acomete setores da esquerda – os mais vulneráveis aos hormônios – mas não deixa de ser fantasia por isto.

      Mais uma vez, perdão pelo tom pessoal. Embora a política seja um assunto “passional”, acho que certa racionalidade pode operar nas discussões a respeito. A raiva que, por alguma razão, você acumula de algumas experiências passadas termina por te conduzir acriticamente para o lado pouco elevado da discussão. Note, não me refiro ao “lado de lá”, à direita, mas ao andar de baixo do lado de lá. São os negros vapores da bile atrapalhando a reta razão. Para deixar claro, não ser de esquerda não é “culpa” dos negros vapores da bile. É opção política. Agora, achar que a esquerda de hoje é a mesma da época da Guerra Fria, e que quem defende imposto para fortunas se diverte com imagens os Gulags, é culpa dos negros vapores e tem pouquíssimo valor racional.

      ps – dada a referência à vida pessoal, fique a vontade para não publicar ou editar o comentário.

      Resposta
      • Sérgio F. Mendes

         /  23/06/2012

        Acho que pode sim haver um liame/enlace a partir do momento em que partidos/movimentos abraçam ideologias/teorias econômicas que se provaram altamente ineficazes. A partir do instante que um estudante defende uma maior intervenção do Estado na vida pública, com o tempo chegará ao Lada, por defenderá a “apropriação dos meios de produção” pelos “trabalhadores”. Aliás, essa do Lada é uma grande metáfora. Agradeço-lha.
        Assim como a “esquerda”/partidos/movimentos de tendências socialismoides (não é irônica a palavra, é apenas para conter “aparentando ser”, “com o formato de”) vê uma conspiração “capitalista” internacional para “dominar o mundo” e “escravizar o proletariado”; vejo — aliás, com imenso desprazer; não pense que esse tipo de constatação me agrade, muito pelo contrário, me deprime — um projeto de poder dos partidos/movimentos à esquerda. E o pior: mantêm-se sobre certos pilares (“combate à pobreza”, povo, “desenvolvimento sustentável”), que se tornam praticamente inatingíveis. E esse tipo de projeto é amplo, cheio de ramificações. Mais recentemente ficou claro pela existência do tal Foro de São Paulo — que se negava veementemente a existência e, de repente, ele simplesmente “brotou”, limpo e imaculado como se sempre tivesse existido. O que me assusta nessas coisas é como há uma canalhice intrínseca, uma cara-lavada dessa gente.
        Logo, vejo um projeto nessa direção: de perpetuação no poder. Alguns chamam de “estabilidade”; eu vejo com preocupação. Passei a apoiar algo que há algum tempo acreditava impraticável: o parlamentarismo. Embora há vozes que bradem pela estabilidade, a ameaça de instabilidade política — ou até mesmo uma instabilidade inicial — seria extremamente salutar à política brasileira e evitaria planos de poder a longo prazo (aliás, estou para escrever uma postagem sobre o assunto).
        Voltando, não exatamente questão de raiva — aparentemente injustificada — é simplesmente pelo fato de uma teoria econômica socializante/de esquerda ter demonstrado seu absoluto fracasso. Acho que o estudo vale sim, mas mais como paleontologia e como uma maneira de não repetir os mesmos erros do passado. Um sistema econômico que, prometendo fartura e justiça, alijou muita gente de seus direitos fundamentais, como liberdade de expressão e a até mesmo liberdade social. Acho um preço muito alto abdicar dessas premissas em nome de um “futuro”. Outra: o fator econômico é importante, mas a civilização não se faz apenas deles. Até ontem, o dito Mundo Desenvolvido estava muito bem, obrigado. Hoje, estão passando por problemas que enfrentamos há 15, 20 anos. Nós mesmos. A economia parece estar num momento interessante, mas a crise externa já se avizinha… uma bolha de crédito está em formação. A economia perece… por isso que não é possível — e até suicida — planificar, basear uma sociedade em uma teoria econômica. Pode virar o próprio inferno e as chances de dar errado são altíssimas, principalmente quando centralizada por Estados corruptos.
        Posso eventualmente me exaltar. Quem não? Mas frente à sem-vergonhice dos “defensores do povo”, quem não se exaltaria?

        P.S.: do etrusco só se conhecem umas cem palavras; mas fica pela metáfora.

  3. Sérgio F. Mendes

     /  22/06/2012

    Ah, sim. O bolo já estava pronto; nossa discussão da postagem anterior foi apenas um “fermento”.

    Resposta

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