289. O escudo da ignorância

Assim como no auge da Idade Média, os dogmas continuam existindo. Antes, afirmava-se que o universo era finito; quem dissesse o contrário, ia para a fogueira. A diferença é que as chamas das fogueiras modernas são a reprovação e troça pública; coisa muito mais fácil de lidar. Ainda mais quando se trata de um amontoado de asneiras.

Nos e-mails corporativos da empresa em que você trabalha — se for o caso —, há um rodapé com dizeres do tipo: “Verifique a real necessidade de imprimir seus e-mails; preserve a natureza”. É um tipo de mensagem comum incitando a economia de papel para “preservar a natureza”, “preservar a Mata Atlântica”. Afirmação que vem blindada, tratada como verdade imperativa; um verdadeiro escudo de ignorância acerca do assunto.

A intenção real é a economia de papel, o que é um valor legítimo por si mesmo; assim como apagar as lâmpadas quando se sai de um recinto, desligar aparelhos elétricos. Uma questão de bom senso e economia. Mas não que esse tipo de comportamento vá salvar alguma coisa.

Na questão do papel, primeiro, ele é feito com madeira de plantações industriais especialmente para esse fim. Não se faz papel de madeira nativa, ou alguém realmente acha que há papel de mogno? Geralmente é feito de eucalipto, cujas fibras têm a mesma densidade e uniformidade na hora do cozimento da madeira para extração da celulose. Ou seja, fazer papel de madeiras duras ou variadas, além de inviável, resultaria — se for possível — em um papel de péssima qualidade.

As plantações de eucalipto para esse fim, por ora, concentram-se em Minas Gerais e São Paulo e estão em áreas em eram originalmente de alguma monocultura como cana ou laranja. Ou seja, não há desmatamento para produção de papel.

Outra lenda é que o eucalipto “mata” ou “seca” o solo. Acredita-se que esse tipo de boataria venha justamente de grupelhos ecológicos a soldo de países interessados em manter o monopólio da produção de celulose, como a Finlândia, por exemplo, atualmente ainda a maior produtora mundial da matéria-prima. Como simples curiosidade, veja onde estão sediadas as organizações ecológicas mais famosas como Greenpeace, WWF e outras. São quase todas ‘multinacionais’ do lobby verde, localizadas “lá em cima”.

O eucalipto é ecológico, gera renda e tira os agricultores da monocultura. Então, antes de acreditar em qualquer coisa apenas porque tem o revestimento, a proteção do politicamente correto e tratá-la como dogma e combatê-la por simples e pura ignorância. Certamente que tudo deve ser usado com a devida economia, mas que fique claro o motivo correto e que não seja baseado em lendas ou estórias mal-contadas.

Anúncios
Deixe um comentário

8 Comentários

  1. PAX

    Caro colega,

    Parabéns pelo bom texto! Contudo, há problemas. Refiro ao primeiro parágrafo:

    “Assim como no auge da Idade Média, os dogmas continuam existindo. Antes, afirmava-se que a terra era chata; quem dissesse o contrário, ia para a fogueira. A diferença é que as chamas das fogueiras modernas são a reprovação e troça pública; coisa muito mais fácil de lidar. Ainda mais quando se trata de um amontoado de asneiras.”

    A Igreja nunca disse que a Terra era chata, muito menos isso foi definido como dogma. Não haveria necessidade teológica alguma para caracterizar o formato da Terra como um dogma, mesmo porque não há necessidade contida na relação divina que levassem a essa conexão como necessária.

    Não há quem apresente que o Ministério da Igreja tenha definido isso. Afinal, quem poderia mostrar que isso foi definido, por exemplo, em algum Concílio? Onde está?

    Se a Igreja acreditasse que a Terra era redonda, por que então muitas imagens medievais de Santos e, sobretudo, do Menino Jesus são feitas com estes segurando um globo redondo representando o mundo?

    Ora, e quem foi mandado para a fogueira por dizer que a Terra é redonda? A Santa Inquisição existia por um motivo: combater heresia. Ao contrário do que muitos pensam, a Inquisição tinha o objetivo de proteger o herege e de convencê-lo de seu erro (desvio da Doutrina), e não de queimá-lo vivo.

    O fato é que historiadores protestantes, revolucionários franceses e marxistas (que nem sequer poderiam ser chamados de historiadores) usam/usavam continuamente esse lugar-comum. Não há historiador de ponta hoje que use dessas falas; sabe-se bem que isso foram invenções (que de tão repetidas viraram “verdades”).

    Isso tudo não é muito diferente do que tem acontecido com as mentiras e absurdos usados hoje por esses ambientalistas da Nova Ordem Mundial. Veja o vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=qjHIYgeLKas !

    Em essência, não se pode basear um bom texto como o seu, começando por um argumento que pertence ao inimigo.

    Caso haja interesse da tua parte, procure-me, e eu com prazer lhe enviarei algumas fontes. Desculpa-me igualmente pelo comentário escrito na pressa. Não interprete mal o meu comentário.

    Deixo aqui um forte abraço,
    Diego Aurino.
    https://twitter.com/#!/diegoaurino

    Responder
  2. Sérgio F. Mendes

     /  20/06/2012

    Olá, Diego.

    De fato, há problemas. Acabei escrevendo um pouco na pressa e tropecei nas referências.

    Minhas desculpas.

    Responder
  3. Thiago Dias

     /  21/06/2012

    A associação da bobagem verde com a esquerda é frágil.

    (Pulando a discussão sobre o pertencimento (ou não) da URSS à esquerda.) A Conferência de Estocolmo, uma das mais importantes para as discussões internacionais sobre ecologia, foi boicotada pela URSS. A alegação oficial era a não aceitação da Alemanha Oriental no evento. Na verdade, estava por trás o interesse dos maiores poluidores do mundo então.

    O Clube de Roma (ou Círculo?) não é exatamente um grupo de esquerda e suas propostas não são exatamente progressistas.

    Sua crítica se harmoniza bastante com aquela feita contra o chamado eco-capitalismo e quem a faz é a esquerda.

    (Pulando a discussão sobre o pertencimento (ou não) do governo federal à esquerda)
    Para acelerar a economia, por duas vezes, o GF incentivou o aumento de produção de carros.

    Entendo a afirmação de que existe uma proximidade entre o besteirol verde e um besteirol solidário, que, por sua vez, pode se identificar com os ideais da esquerda. Mas, a associação tem que ser mais cuidadosa do que normalmente fazem os direitistas, sobretudo os grosseiros como Luis Felipe Pondé.

    Abraço

    Responder
    • Sérgio F. Mendes

       /  21/06/2012

      Perdão pela intransigência, Thiago; mas você se ateve apenas à figura. Note que palavras como “esquerda” ou “direita” não aparecem uma vez sequer no texto.
      Ao contrário; note que há inclusive uma citação aos “e-mails” corporativos.
      Isso de esquerda e direita, ainda mais no Brasil, é conversa para acalentar bovinos. Não há direita no Brasil. Morreu com a UDN. O que é péssimo.

      Responder
      • Thiago Dias

         /  21/06/2012

        Sim, Sérgio, notei que no texto não havia referências referências diretas à esquerda. E a referência aos e-mails corporativos não necessariamente colocam o problema na direita, pois esquerda deixou de ser oposto de “empresa privada” há muito tempo, embora certa tensão ainda seja presente. Mas havia referência na página. E como há em discursos endireitados por aí, grito sempre que há ocasião.

        Embora as linhas entre os campos da esquerda e da direita não sejam tão claros no âmbito da Realpolitik, eu acho a distinção bastante válida.

        Discordo da idéia de que a UDN foi a última direita brasileira. Acho que, aí, há uma confusão entre o que é moderno e o que é antigo. A UDN era uma direita antiga, que não morreu inteiramente (basta ver a moralização proposta por José Cerra na última campanha à presidência), mas que hoje tem pouca força. A divisão entre público e privado sempre foi um problema para a cultura brasileira (Sérgio Buarque), mas a UDN levava este “problema” muito longe, pois tinha uma compreensão pré moderna da divisão entre público e privado ao conceber o público como “a casa” de todo mundo. Daí a ocorrência de temas relativos à moral estritamente privada no discurso público e a fixação pela figura do homem forte para conduzir as coisas. É a imagem do bom pai que não deixa a filha sair de casa com o cabelo molhado. Esta idéia costuma ser repetida pelo místico Olavo de Carvalho, que deve odiar o Galileu por ter questionado a hierarquia do cosmos. Em termos de história das idéias políticas, o que esta consideração faz é restabelecer a antiga disputa entre conservadores e liberais chamando todos os não conservadores, inclusive os liberais, de esquerda. Eu os chamaria de modernos, que se dividem,grosso modo em esquerda e direita.

  4. Sérgio F. Mendes

     /  21/06/2012

    A esquerda morreu com o Regime Militar. O que existe no espectro político brasileiro vai da esquerda-oportunista (o PT malufista) e uma turma que não é direita, é simplesmente patrimonialista (DEM); quem defende mercado livre? Desmonte do Estado? Ninguém; o que manda é a mamação geral.
    A esquerda que almejava chegar ao poder desde 1964 conseguiu e está nele desde 1994; uma bela merda. O PSDB só fez o ciclo de privatizações porque, se não o fizesse, seria a total bancarrota. O que é necessário nessa republiqueta de fancaria não é um líder, é que as pessoas tomem vergonha na cara e desmontem esse inferno de Estado que suga as energias econômicas.
    Muitos se vangloriam do “estamos bem” e estamos é à beira de uma crise de crédito. O que o governo faz, reduz IPI! Ora porra!
    O Brasil precisa ser desconstruído e refundado sem o espírito do paternalismo, do Estado-mastodonte; o brasileiro em si precisa deixar de ser espertalhão e metido a sabichão. Trabalho e justiça.

    P.S.: Em várias fotos que vejo das manifestações de rua da Rio+20, vi bandeiras do PCdoB no meio… é só olhar.

    Responder
    • Thiago Dias

       /  21/06/2012

      Bem, definições diferentes entre esquerda e direita estão em jogo aqui.
      Muitos defendem o desmonte do estado. O Consenso de Washington tem influências enormes por aqui e foi para segui-lo que as privatizações aconteceram. A concepção de que é por meio do desenvolvimento de uma elite que iremos entrar no conjunto das nações é política atuante dos tucanos. Basta ver o orgulho que se tem da OSESP, que tem nível internacional (gente, fomos aceitos!!!) e cujo entorno da sede é infestada pela miséria mais gritante. Aliás, o “populismo de mercado” (um conjunto de idéias com cara de elaboradas que “provam” que a realidade das “coisas” segue as leis de oferta e demanda) grassa nos centros urbanos e é com base nisto que a identificação da classe média (capaz de apreender estas idéias e de se “distinguir socialmente” do porteiro) faz do PSDB um partido vitorioso.

      Deixe-me perguntar, qual “estado desmontado” pode servir de bom exemplo hoje?

      O PCboB é parte do que você chamou de “esquerda oportunista”. E se bandeira do PCdoB bastasse para chamar lançar o “ecobobo” na esquerda, o PV falaria em luta de classes em seus programas.

      Responder
      • Sérgio F. Mendes

         /  21/06/2012

        Bem, “Estado desmontado” não; Estado mínimo. O estado está cheio de “adjuntos” e tem de limitar-se aos “termos essenciais da oração”. Nada de Petrobras e Banco do Brasil. Isso é função da iniciativa privada. Um golden share e uma agência reguladora que não esteja politicamente loteada bastam. Talvez não haja um exemplo sólido; apenas parciais como o Reino Unido, p. ex., mas que ainda tem muita ingerência estatal na economia.

        Marina Silva ter ido para o PV, para mim, é absolutamente sintomático. Alguma afinidade ideológica há de ter. Luta de classes é um conceito ultrapassado: as classes são esfumaçadas e não têm consciência de unidade. O que é excelente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: