288. Gornalismo, Sakamoto e mais do mesmo

Graham Chapman e a metáfora do ‘gorn’

Sim, com g mesmo. A ideia vem de gorn, palavra inexistente na língua inglesa usada pela trupe britânica Monty Python em um de seus esquetes. Nada significa, mas ‘evoca madeira’, algo sólido, segundo o esquete em que aparece. Ou seja: um discurso vazio com uma armadura sólida.

É o que acontece quando o jornalista — ou articulista — se agarra em algum dogma do politicamente correto. Se está do lado ‘certo’ ou ‘dos bons’, considera-se inatingível. Usa o senso comum como escudo.

É o caso recente do texto “Ostentação diante da pobreza deveria ser crime previsto no Código Penal”, do gornalista Leonardo Sakamoto. Não o acompanho; na verdade, desconhecia-o até que o texto citado causou certa enevoamento nas redes sociais.

A partir das falas de uma dondoca colhidas da coluna social da Folha, Sakamoto reza pelo estranho catecismo do marxismo com laivos cristãos. Embora as declarações da socialite tenham sido ligeiramente infelizes, a impressão que se tem é a justificação das violências, dos arrastões nos restaurantes paulistanos pelo fator desigualdade social.

Prega um esquisito pauperismo, na lógica de ‘não tenho nada para roubarem, logo não preciso me preocupar’. O que o senhor Sakamoto ignora — ou finge ignorar — é que pessoas têm bens ou desfrutam de determinados serviços porque trabalharam para tal. Talvez não seja o caso da socialite, mas que, mesmo assim, vive às expensas de alguém que tem alguma atividade econômica.

O que se infere do texto é a famosa invidia brasiliensis. Ou seja, justifica-se o roubo, a apropriação indébita porque ciclano não tem condições de ter aquilo. Vivemos em tempos mais tranquilos do que aqueles que viveram, por exemplo, nossos avós. A universidade está aí; o ensino está aí; é óbvio que as coisas não vêm em bandeja, é preciso certa dose de esforço.

Sakamoto defende, nas entrelinhas, uma cultura do coitadismo, que é o mesmo discurso vagabundo usado, por exemplo, pelo Governo para justificar suas mil bolsas. O que falta entre nós é uma real cultura da dignidade e do trabalho. O curioso que esse pensamento tem um estranho ranço cristão, mesmo vindo da pena de gente que renega o cristianismo como formador do caráter brasileiro e o culpa pelos atrasos do Ocidente. Por isso quando digo que somos um país católico, não é somente por ser ainda a religião da maioria, mas também porque determinados conceitos ficaram presos à formação da nacionalidade: justamente os mais deturpados e os mais prejudiciais. Aquelas coisas do tipo que ter dinheiro é pecado; hoje, para os novos sacerdotes do politicamente correto e da igualdade social — Tocqueville revira-se na tumba —, é crime.

Ter inveja é fácil, mas ela pode ser ruim quando casado com o imediatismo e pode ser boa quando casada com a vontade de progredir. De lamentações, já basta o Jeca.

Anúncios
Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: