293. Insônia

E quem dorme?

A votação das emendas à Lei de Diretrizes orçamentárias na Câmara de Araraquara foi da tarde de terça ao fim da madrugada de quarta da semana passada (19-20/6). Quarenta emendas: 35 do vereador Carlos Nascimento. Fora as retiradas de pauta, o restante foi todo negado. Uma inolvidável noite de nãos.

Duas coisas ficaram claras na “Noite do Não”. Primeiro, a intransigência e a centralização absurdas da administração municipal, que não aceitou uma só emenda a sua pétrea LDO — o que complementa o papel pífio dos conselhos municipais, esvaziados pelo pouco caso do Governo, como reportagem e editorial desta Tribuna (17/6 págs. A2 e A5) também mostraram. Segundo, o pavoneamento da oposição, que se vale do obstáculo certo — e praticamente intransponível — para fazer palanque eleitoral.

Posso estar sendo cruel no meu curto julgamento — o espaço não me permite mais —, mas não consegui ver reais debates pela cidade. Foram perceptíveis apenas a exposição de egos inflamados e até mesmo alguns gritos. Uma ruidosa e desnecessária vitrine de vaidades.

Nos últimos tempos, principalmente por conta do aumento nos subsídios, cobrou-se ‘respeito’ pela instituição Câmara e seus membros. Porém, para que algo ou alguém seja merecedor de respeito, deve antes inspirá-lo. Não basta ser membro do Legislativo; não basta evocar os votos recebidos. É necessário ter um comportamento condizente com o cargo. A grosso modo, o hábito não faz o monge.

A Câmara precisa esforçar-se mais; precisa trabalhar pela cidade. Nem mesmo uma campanha publicitária é necessária — como foi aventado não faz muito. É simplesmente cumprir seu papel de legisladora; a população, com o tempo, saberá reconhecer.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 26/6/2012.

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292. “Eram os deuses astronautas?”, Erich Von Däniken

Domingo, a edição do caderno de cultura Tô Ligado, da Tribuna Impressa de Araraquara, era semitemático. Afinal, era o Dia do Disco Voador. Para fazer jus à data, no Menu Cultural de minha responsabilidade, indiquei um clássico do gênero: “Eram os deuses astronautas?”, de Erich Von Däniken.

Além do que escrevi para o jornal, que está aí logo abaixo, dou um tempero pessoal a coisa. Existia uma edição desse livro na casa da minha mãe, da Melhoramentos, dos anos 70 (cuja capa ilustra o curto artigo). Dos vários livros “doidões” que li — não são muitos, é verdade — esse se preocupa com um mínimo de coerência. Fica para vocês a dica de leitura; ou como diria o suprassumo da cultura brasileira, Chaetano Seboso, “Ou não”.

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Ligação interplanetária

Perguntas que não calam: “Seria o escritor um pinguço?”

Pirado para uns, cientista para outros. Bem ou mal, o ufólogo suíço Erich Von Däniken conseguiu incontáveis admiradores e detratores com seu polêmico “Eram os deuses astronautas?”; a indiferença é impossível.

No livro de 1968, Von Däniken traça liames entre feitos, representações e construções de antigos povos (egípcios, incas) com a possível intervenção extraterrestre. Para o autor, a própria representação de divindades que “vêm do céu” ou “nele estão” aponta para influências vindas de seres oriundos do espaço; ele chega mesmo a propor que a raça humana moderna seria resultado do cruzamento de extraterrestres com primatas.

Embora “Eram os deuses astronautas?” seja sua obra mais conhecida, Von Däniken tem uma produção bibliográfica de cerca de 20 livros, todos voltados para a temática da relação dos seres humanos com a vida inteligente fora da terra.

291. Guarânia time

Fernandito, padre de muchos

O presidente paraguaio, Fernando Lugo, está sendo processado pelo parlamento de seu país por conta de morte em uma mal-fadada operação envolvendo sem-terras e a polícia.

Algumas coisas têm de ficar claras porque há muita gente falando besteira internet a fora.

Primeiro: não é golpe de estado. Embora o próprio mandatário o tenha dito, qualificando o ato administrativo contra sua pessoa como “golpe de estado expresso”, o impeachment é um processo político-administrativo levado a cabo pelo parlamento democraticamente eleito. O problema do caudilhismo latino-americano é ter ilusão na autocracia e nela apoiar-se para governar. O mesmo ocorre no Brasil; o presidente da república não é um autocrata e o parlamento, tão legitimamente eleito como o presidente, tem sim responsabilidades sobre o presidente da república se achar necessário.

Segundo: o processo contra Lugo é resultado de ele ter perdido maioria nas câmaras, hoje dominadas pelo Partido Colorado, e também de várias outras indigestões políticas no decorrer do seu mandato, como seus vários filhos — tendo ainda em vista que ele era sacerdote católico, logo, celibatário; sozinhos, tais fatos são de ordem política e moral, respectivamente, mas acabam tendo peso sobre uma decisão dessa magnitude. Mostram manifestações contra o impeachment; o que significa que o Paraguai é um país com certo nível de democracia, onde descontentes — e até mesmo sectários — podem manifestar-se. É um ótimo sinal.

Terceiro: o movimento que tem surgido na esquerda internética brasileira não tem pé nem cabeça. Não é assunto nosso. A não ser que ela tenha algo a defender, como, p. ex., o presidente Lugo ser membro do Foro de São Paulo, organização que congrega partidos de esquerda — até mesmo o mui democrático Partido Comunista Cubano — e luta por uma hegemonia absoluta nos países da América do Sul. O que explicaria a rapidez de uma “missão” da Unasul — União de Nações Sul-Americanas, esse aborto organizativo que ninguém nem mesmo sabe exatamente o que é — para intromissão em assuntos internos paraguaios. Com a Síria, aliada até outro dia, foram necessários meses e meses para que o Itamaraty se posicionasse decentemente e condenasse os ataques.

E por fim, mas não menos importante: é assunto interno do Paraguai e a resolução deve vir de seus poderes constituídos e de sua população.

290. Política, futebol e religião

Verde, que te quero verde

Diz o ‘velho deitado’ que política, futebol e religião não se discutem. Uma versão mais sucinta fala de “cor e gosto”. Temas e percepções. O grande problema do brasileiro — digo isso porque é o povo que conheço, mas a definição imagino ser expansível à Latinidade — é misturar as coisas.

O cidadão não se contenta em ver o jogo de futebol e torcer pelo seu time. Não. Alguns espíritos de porco têm de sair à rua acelerando carros e berrando. Outro cidadão tem sua fé; ele não se contenta em servir a Deus, tem de sair nos domingos pela manhã para bater de porta em porta e tentar arrebanhar mais almas com um discurso impositivo. Das misturas dessas duas vertentes de manifestação surge a política vista pelo brasileiro que a acompanha: dogmática e escandalosa. O brasileiro acompanha política como quem torce para Corinthians ou Palmeiras: é mau perdedor, é dogmático e crê na infalibilidade dos seus “papas” e só seu time tem razão. “Minha razão é a minha força.”

Essa política futebolística se vê muito pela ‘esquerda festiva’, ou seja, aquela que se encontra ora no poder. Nosso ex-presidente adora uma metáfora do mundo da bola, uma bela alegoria. E também não admite críticas. Essa esquerda e outras ainda mais radicais aninharam-se, por exemplo, na área de Humanas das universidades públicas, ultrapassando mesmo as cansativas assembleias em que se discute, num “samba do crioulo doido”, falta de professores e propõe-se uma “moção de apoio ao povo do Iraque contra a opressão estadunidense”, as doutrinas chegaram mesmo às salas dos professores, onde são os únicos critérios de pesquisa e investigação. Nossa universidade parou nos anos 60.

E são infalíveis. A economia de mercado teve suas turbulências esporádicas — e está tendo uma grave agora, um dolorido espasmo —, porém o Segundo Mundo, que chegou a englobar 33% da Humanidade, hoje se acha reduzido a ilhas de tirania, como Cuba e Coreia do Norte. O resto do Mundo Socialista dissolveu-se por absoluta incompetência econômica; as revoluções populares foram apenas uma cereja no bolo da desgraça. Se não tivessem acabado na contração violenta do começo dos anos 90, os regimes da Europa Oriental teriam definhado por mais uma década e lentamente começariam a abrir-se.

Dizem os acadêmicos: “Ah, mas isso não é o socialismo”. Se não o é; o que seria? O problema do socialismo/comunismo é que ele nunca ultrapassou a barreira da famigerada ditadura do proletariado que, uma vez instalada, deveria dar lugar à lenta dissolução do Estado, a administração descentralizada e local. Nessas linhas, seria um sonho. O grande problema é que a amorfa ditadura do proletariado tornou-se a pétrea ditadura da nomenklatura. E assim foi até a dissolução dos regimes.

Possivelmente, junto com a monarquia absolutista e a república revolucionária, o socialismo é um dos regimes que provou sua incompetência em um longo e largo laboratório de 80 anos. Vivemos um regime de democracia representativa que é péssimo, mas, parafraseando Winston Churchill, ainda é o melhor que eu conheço.

O grande problema da esquerda socialista é que a teoria é ótima. Porém tem um grave defeito: não contou com o fator humano. O ser humano é amigo do poder; o poder o fascina. Logo, se uma camada tem acesso a ele agarra-se como o náufrago à jangada. E o “horizonte luminoso” do socialismo fica como o horizonte real: quando se dá um passo em direção a ele, ele se afasta outro.

E, retomando o enfoque do texto, pode-se dizer que há um apego sacro com a política. Há dogmas, há heresias, há excomungados. Heranças de um catolicismo fetichista? A esquerda mantém a ilusão de que é possível mudar, porém, quando chegou ao poder, entregou-se ao mesmíssimo fisiologismo que domina o Estado brasileiro desde a colônia. Mais do mesmo. O poder é como a maresia: corrompe até ferro. Somos um povo torto, dado a paixões e a vícios como poucos. Nossas grandes qualidades são a falta de caráter — o jeitinho —, o sorriso falso com cerveja, o dogmatismo de ocasião das nossas opiniões, a moleza da nossa alma.

Por isso somos tão insuportáveis.

289. O escudo da ignorância

Assim como no auge da Idade Média, os dogmas continuam existindo. Antes, afirmava-se que o universo era finito; quem dissesse o contrário, ia para a fogueira. A diferença é que as chamas das fogueiras modernas são a reprovação e troça pública; coisa muito mais fácil de lidar. Ainda mais quando se trata de um amontoado de asneiras.

Nos e-mails corporativos da empresa em que você trabalha — se for o caso —, há um rodapé com dizeres do tipo: “Verifique a real necessidade de imprimir seus e-mails; preserve a natureza”. É um tipo de mensagem comum incitando a economia de papel para “preservar a natureza”, “preservar a Mata Atlântica”. Afirmação que vem blindada, tratada como verdade imperativa; um verdadeiro escudo de ignorância acerca do assunto.

A intenção real é a economia de papel, o que é um valor legítimo por si mesmo; assim como apagar as lâmpadas quando se sai de um recinto, desligar aparelhos elétricos. Uma questão de bom senso e economia. Mas não que esse tipo de comportamento vá salvar alguma coisa.

Na questão do papel, primeiro, ele é feito com madeira de plantações industriais especialmente para esse fim. Não se faz papel de madeira nativa, ou alguém realmente acha que há papel de mogno? Geralmente é feito de eucalipto, cujas fibras têm a mesma densidade e uniformidade na hora do cozimento da madeira para extração da celulose. Ou seja, fazer papel de madeiras duras ou variadas, além de inviável, resultaria — se for possível — em um papel de péssima qualidade.

As plantações de eucalipto para esse fim, por ora, concentram-se em Minas Gerais e São Paulo e estão em áreas em eram originalmente de alguma monocultura como cana ou laranja. Ou seja, não há desmatamento para produção de papel.

Outra lenda é que o eucalipto “mata” ou “seca” o solo. Acredita-se que esse tipo de boataria venha justamente de grupelhos ecológicos a soldo de países interessados em manter o monopólio da produção de celulose, como a Finlândia, por exemplo, atualmente ainda a maior produtora mundial da matéria-prima. Como simples curiosidade, veja onde estão sediadas as organizações ecológicas mais famosas como Greenpeace, WWF e outras. São quase todas ‘multinacionais’ do lobby verde, localizadas “lá em cima”.

O eucalipto é ecológico, gera renda e tira os agricultores da monocultura. Então, antes de acreditar em qualquer coisa apenas porque tem o revestimento, a proteção do politicamente correto e tratá-la como dogma e combatê-la por simples e pura ignorância. Certamente que tudo deve ser usado com a devida economia, mas que fique claro o motivo correto e que não seja baseado em lendas ou estórias mal-contadas.

288. Gornalismo, Sakamoto e mais do mesmo

Graham Chapman e a metáfora do ‘gorn’

Sim, com g mesmo. A ideia vem de gorn, palavra inexistente na língua inglesa usada pela trupe britânica Monty Python em um de seus esquetes. Nada significa, mas ‘evoca madeira’, algo sólido, segundo o esquete em que aparece. Ou seja: um discurso vazio com uma armadura sólida.

É o que acontece quando o jornalista — ou articulista — se agarra em algum dogma do politicamente correto. Se está do lado ‘certo’ ou ‘dos bons’, considera-se inatingível. Usa o senso comum como escudo.

É o caso recente do texto “Ostentação diante da pobreza deveria ser crime previsto no Código Penal”, do gornalista Leonardo Sakamoto. Não o acompanho; na verdade, desconhecia-o até que o texto citado causou certa enevoamento nas redes sociais.

A partir das falas de uma dondoca colhidas da coluna social da Folha, Sakamoto reza pelo estranho catecismo do marxismo com laivos cristãos. Embora as declarações da socialite tenham sido ligeiramente infelizes, a impressão que se tem é a justificação das violências, dos arrastões nos restaurantes paulistanos pelo fator desigualdade social.

Prega um esquisito pauperismo, na lógica de ‘não tenho nada para roubarem, logo não preciso me preocupar’. O que o senhor Sakamoto ignora — ou finge ignorar — é que pessoas têm bens ou desfrutam de determinados serviços porque trabalharam para tal. Talvez não seja o caso da socialite, mas que, mesmo assim, vive às expensas de alguém que tem alguma atividade econômica.

O que se infere do texto é a famosa invidia brasiliensis. Ou seja, justifica-se o roubo, a apropriação indébita porque ciclano não tem condições de ter aquilo. Vivemos em tempos mais tranquilos do que aqueles que viveram, por exemplo, nossos avós. A universidade está aí; o ensino está aí; é óbvio que as coisas não vêm em bandeja, é preciso certa dose de esforço.

Sakamoto defende, nas entrelinhas, uma cultura do coitadismo, que é o mesmo discurso vagabundo usado, por exemplo, pelo Governo para justificar suas mil bolsas. O que falta entre nós é uma real cultura da dignidade e do trabalho. O curioso que esse pensamento tem um estranho ranço cristão, mesmo vindo da pena de gente que renega o cristianismo como formador do caráter brasileiro e o culpa pelos atrasos do Ocidente. Por isso quando digo que somos um país católico, não é somente por ser ainda a religião da maioria, mas também porque determinados conceitos ficaram presos à formação da nacionalidade: justamente os mais deturpados e os mais prejudiciais. Aquelas coisas do tipo que ter dinheiro é pecado; hoje, para os novos sacerdotes do politicamente correto e da igualdade social — Tocqueville revira-se na tumba —, é crime.

Ter inveja é fácil, mas ela pode ser ruim quando casado com o imediatismo e pode ser boa quando casada com a vontade de progredir. De lamentações, já basta o Jeca.

287. A aurora do lulomalufismo

A bênção do capo (Adriana Spaca/Brasil Photo Press/Folhapress)

Leio as colunas de Arnaldo Jabor, mas não sou exatamente aficionado por ele. Porém, aproprio-me a ideia do título de um de seus livros: pornopolítica. O radical grego porno- tem relação com pórne, prostituta na língua de Homero. Logo, basta deduzir o que pode significar pornopolítica.

A aliança entre PP e PT em São Paulo em torno da candidatura de Fernando Haddad à Prefeitura teria tudo para apenas levantar alguns ‘ohs’ de assombro em meia-dúzia de pessoas. Mas a exigência de Maluf para que o próprio Lula viesse ratificar o apoio, a associação dos nomes… é algo que causa, no mínimo, estupefação. Uma Realpolitik despudorada.

Homens com um passado todo de ofensas e sarilhos, agora se abraçam num repulsivo gesto de união política. É nesses momentos cruciais que se percebe que não há projeto de governo, ética, princípios partidários. Nada. O único projeto que existe é o projeto de poder por parte de todos e, principalmente, pela permanência indefinida do PT no poder. Será a aurora sebenta do lulomalufismo? Pode não parecer, mas as duas vertentes têm muito em comum; o que as separa são aparências.

Apesar de tudo, creio que tal ‘união maléfica’ traga ojeriza tanto a parte da militância petista quanto aos ditos malufistas históricos. O restante chafurda na alegria suja, joga fora um passado em nome das conveniências do momento.

Até mesmo a filiação de Delfim Netto ao PMDB, em 2005, fica embaçada quando comparada a essa aliança; se alguém a previsse há 20 anos, poderia ouvir que, no mesmo instante que Lula e Maluf estreitassem as mãos, um buraco negro tragaria todo o Universo. Parece que as coisas mudam; e não necessariamente para melhor.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 19/6/2012.

286. “O Dicionário Kazar”, Milorad Pavitch

A fumacinha enciclopédica do cachimbo literário de Milorad Pavitch

Lendo dicionário

Tendo como tema principal a conversão dos cazares ao judaísmo, “O Dicionário Kazar – Romance-enciclopédia em 100.000 palavras” é um romance, como o próprio nome indica, em verbetes. A obra do sérvio Milorad Pavitch apresenta-se como uma obra do século 17 que narra a conversão dos cazares — um povo não-eslavo das estepes entre os mares Cáspio e Negro — com um léxico e com apêndices organizados sob três ópticas diferentes: o Livro Amarelo (pelo judaísmo), o Livro Verde (pelo islamismo) e o Livro Vermelho (pelo cristianismo).

“O Dicionário Kazar”, segundo sua própria introdução, pode ser lido em qualquer sequência, ficando a critério do leitor qual caminho seguir. Chama a atenção ainda o fato de existirem duas edições, uma dita “masculina” e outra “feminina”. A diferença é apenas um parágrafo em certo ponto do livro; mas a alteração de sentido provocada pode ser crucial.

O “Dicionário…” É o primeiro romance de Pavitch e foi publicado originalmente em 1984.

O Dicionário Kazar – Milorad Pavitch – Marco Zero – 300 págs. – Preço variável

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Sugestão publicada na Tribuna Impressa de Araraquara em 18/6/2012.

285. Argentina de novo

Cristina Kirchner com cara de quem sujou as calçolas

Em abril, escrevi neste espaço um artigo sobre a questão das Malvinas. Procurei mostrar como governos que vão perdendo a popularidade submetem-se a práticas de populismo desenfreado. Cristina Fernández de Kirchner, presidente da Nação Argentina, evoca os brios nacionalistas para angariar suporte popular. No Brasil, o nacionalismo é algo fora de moda. Basta um bolsa-alguma-coisa que a situação já está resolvida.

E quando se pensa que nada mais possa vir da margem sul do Rio da Prata, brotam surpresas. A mais recente foi a nacionalização da petroleira YPF, que era controlada pelo grupo espanhol Repsol.

O pior é que todos nós já vimos o filme ruim. Protagonistas diferentes, mas o mesmo populismo estúpido. O ano é 2007; o país, a Bolívia. Evo Morales nacionalizou duas refinarias construídas e mantidas pela Petrobras pela sua polêmica Lei de Hidrocarbonetos. Resultado: apesar da semelhança ideológica entre os governos, o empresariado brasileiro riscou a Bolívia do mapa e o próprio Governo brasileiro esfriou suas relações com o país andino.

A Argentina faz o mesmo erro. Nacionalizando a YPF, que era estatal até os anos 90, ganhou antipatia automática da Espanha — que, querendo ou não, tem razão — e sanções da União Europeia. A excessiva ingerência do Estado na economia só trará prejuízos. Haverá fuga de capitais, principalmente do setor produtivo.

Agora, uma guerra fictícia, de bravatas, com direito a discursos no plenário da ONU. Logo se nota que são soluções desesperadas de uma presidente desequilibrada, escorada na sombra do marido morto, e gerindo um Estado operado por mafiosos a seu mando. Eis o que se tornou a Argentina.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 16/6/2012.

284. O poder pelo poder

Talvez Machiavel explique; talvez

O título pode parecer cruel e maledicente — maquiavélico, no melhor sentido da palavra, talvez —; mas já o explico. O Brasil é uma invenção, uma estranha invenção política à qual simplesmente nos acostumamos. A gênese do país deu-se por processos nos quais não houve nenhum tipo de pressão ou participação de alguma parcela consideração da população.

A própria Independência foi gerada por problemas políticos entre Dom Pedro e as Cortes portuguesas, que culminaram no rompimento político entre Brasil e Portugal e a criação de uma monarquia em um continente de repúblicas.

A nossa república não passou de uma quartelada que foi o ponto culminante do processo de desgaste político da monarquia desde o fim da Guerra do Paraguai (1864-1870). A dita Revolução de 1930 foi um choque entre gente que queria o poder com gente que não queria largar o poder.

Esses fatos históricos mostram apenas de como as mudanças no Estado brasileiro foram sempre uma questão de conveniência a quem estava no poder ou muito próximo a ele. Para nós, brasileiros, o poder político é sempre algo que “vem de cima”. Por isso a pouca ou nenhuma identificação do cidadão com o poder público — ou do eleitor com aquele que é eleito.

Dentro dessa óptica, aqueles que são eleitos para o Executivo e para o Legislativo representam não quem os elegeu, mas simplesmente o poder que exercem. Logo, os mandatários sentem-se no direito de legislar para si ou para partidos. O único projeto que existe não é o de governo, mas sim o projeto de poder.

O país precisa ser ‘refeito’ de ‘baixo para cima’; do ‘menor para o maior’. Logo, o cerne das mudanças tem de ser as câmaras de vereadores e a sua ressignificação frente aos munícipes.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 12/6/2012.

283. Visita a Lênin

Trata-se de um capítulo de “Gog”, de Giovanni Papini. Está em castelhano, mas não é difícil de acompanhar.

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Lênin em estado avançado de dodói

VISITA A LENIN

Moscú, 3 julio

He estado porfiando casi un mes, pero al fin lo he conseguido. Había venido a Rusia únicamente para conocer a este hombre y no quería marcharme sin haberle oído hablar. Me parece, en su género, uno de los tres o cuatro vivientes que vale la pena de escuchar. Llegar hasta él me ha costado casi veinte dólares —regalos a las mujeres de los comisarios, propinas a los soldados rojos, donativos a los asilos de huérfanos—, pero no lo lamento.

 Decían que Vladimiro Ilitch estaba enfermo, cansado, y que no podía recibir a nadie, a excepción de sus íntimos. No permanece ya en Moscú, sino en una aldea vecina, en una antigua villa de señores, con el acostumbrado peristilo de columnas blancas a la entrada. El viernes por la noche las últimas dificultades habían sido vencidas y el teléfono me advirtió que el domingo se me esperaba. Dijeron a Lenin que mi capital podría  ayudar a los difíciles comienzos de la «Nep» y había consentido en verme.

Fui recibido por la esposa, una mujer gorda y taciturna, que me miró como las enfermeras miran a un nuevo enfermo que entra en la sala. Encontré a Lenin en un pequeño balcón, sentado ante una gran mesa cubierta de grandes hojas de dibujos. Me produjo la impresión de un condenado al cual se le permite gandulear en paz en las últimas horas de su vida. La característica cabeza de tipo mongólico parecía hecha de queso viejo y seco; árida y, sin embargo, blanda. Entre los labios sucios, la calavera mostraba ya la fila siniestra de sus dientes. El cráneo, vasto y desnudo, hacía el efecto de una caja barbárica construida con el hueso frontal de algún monstruo fósil. Dos ojos turbios e inquisitivos de pájaro solitario estaban agazapados dentro de los párpados sanguinolentos.

Las manos jugueteaban con un lápiz de plata: se veía que habían sido grandes y fuertes manos de labrador, pero con su descarnadura anunciaban la muerte. No podré olvidar nunca sus orejas de marfil chupado, tendidas hacia fuera como para coger los últimos sonidos del mundo, antes del gran silencio.

Los primeros minutos del coloquio fueron  más bien penosos. Lenin se esforzaba en estudiarme, pero con aire distraído, como si cumpliese un deber que ahora ya no le importaba. Y yo, ante aquella máscara azafranada y cansada, no tenía valor para hacer las preguntas que me había propuesto. Murmuré al azar un cumplido sobre la gran obra realizada por él en Rusia. Y entonces aquella cara medio muerta se llenó de arrugas espectrales que querían ser una sonrisa sarcástica.

—Pero si todo estaba hecho —exclamó Lenin con un brío inesperado y casi cruel—; todo estaba hecho antes de que llegásemos nosotros. Los extranjeros y los imbéciles suponen que aquí se ha creado algo nuevo. Error de burgueses ciegos. Los bolcheviques no han hecho más que adoptar, desarrollándolo, el régimen instaurado por los zares y que es el único adaptado al pueblo ruso. No se pueden gobernar cien millones de brutos sin el bastón, los espías, la policía secreta, el terror, las horcas, los tribunales militares, las galerías y la tortura. Nosotros hemos cambiado únicamente la clase que fundaba su hegemonía sobre este sistema. Eran sesenta mil nobles y tal vez unos cuarenta mil grandes burócratas; en total, cien mil personas. Hoy se cuenta cerca de dos millones de proletarios y de comunistas. Es  un progreso, un gran progreso, porque los privilegios son veinte veces más numerosos, pero el noventa y ocho por ciento de la población no ha ganado mucho en el cambio. Esté seguro de que no ha ganado nada, y es al mismo tiempo lo que se quiere, lo que se desea, aunque por otra parte era absolutamente inevitable.

Y Lenin comenzó a reír en sordina como un  comerciante que ha engatusado a alguien y contempla alegremente las espaldas del burlado que se va.

— Entonces —murmuré —, ¿y Marx, y el progreso, y lo demás?

— A usted, que es un hombre potente y extranjero — añadió —, se lo podemos decir todo.

Nadie lo creerá. Pero recuerde que Marx mismo nos ha enseñado el valor puramente instrumental y ficticio de las teorías. Dado el estado de Rusia y de Europa me he tenido que servir de la ideología comunista para conseguir mi verdadero fin. En otros países y en otros tiempos hubiera elegido otra.

Marx no era más que un burgués hebreo aferrado a las estadísticas inglesas y admirador secreto del industrialismo. Le faltaba el sentido de la barbarie, y por esta razón era apenas una tercera parte del hombre. Un cerebro saturado de cerveza y de hegelianismo, en el que el amigo Engels esbozaba alguna idea genial. La Revolución rusa es una completa negación de las profecías de Marx. Donde no había casi burguesía, allí ha vencido el comunismo.

»Los hombres, señor Gog, son salvajes espantosos que deben ser dominados por un salvaje sin escrúpulos, como yo. El resto es charlatanería, literatura, filosofía y músicas para uso de los tontos. Y como los salvajes son semejantes a los delincuentes, el principal ideal de todo Gobierno debe ser el de que el país se asemeje lo más posible a un establecimiento penal. La vieja mazmorra zarista es la última palabra de la sabiduría política. Bien meditado, la vida del presidiario es la más adaptada al promedio vulgar de los hombres. No siendo libres, están, al fin, exentos de los peligros y de las molestias de la responsabilidad y se hallan en condiciones de no poder realizar el mal.

Apenas un hombre entra en la prisión, debe, por la fuerza, llevar la vida de un inocente. Además, no tiene pensamientos ni preocupaciones, pues ya están aquí los que piensan y mandan por él; trabaja con el cuerpo, pero su espíritu descansa. Y sabe que todos los días tendrá qué comer y podrá dormir, aunque no trabaje, aunque esté enfermo, y todo esto, sin las preocupaciones que incumben al libre para procurarse su pan cada mañana y un lecho cada noche. Mi sueño es transformar a Rusia en un inmenso establecimiento penal, y no se imagine que lo diga por egoísmo, pues con un tal sistema, los más esclavos y sacrificados son los jefes y los que los secundan.

Lenin calló un momento y se puso a contemplar un diseño que tenía ante sí. Representaba, según me pareció, un palacio alto como una torre, agujereado por innumerables ventanas redondas.

Me atreví a formular una de mis preguntas:

— ¿Y los campesinos?

— Odio a los campesinos — respondió Vladimiro Ilitch con un gesto de asco—, odio al mujik idealizado por aquel reblandecido occidental llamado Turguenev y por aquel hipócrita fauno convertido que se llama Tolstoí. Los campesinos representan todo lo que detesto: el pasado, la fe, la herejía y la manía religiosa, el trabajo manual. Los tolero y los acaricio, pero los odio. Quisiera verlos desaparecer todos, hasta el último. Un electricista vale, para mí, por cien campesinos.

»Se llegará, según espero, a vivir con los alimentos producidos en pocos minutos por las máquinas en nuestras fábricas químicas, y podremos al fin hacer la matanza de todos los labriegos inútiles. La vida en la naturaleza es una vergüenza prehistórica.

»Tenga usted en cuenta que el bolcheviquismo representa una triple guerra: la de los bárbaros científicos contra los intelectuales podridos, del Oriente contra el Occidente y de la ciudad contra el campo. Y en esta guerra no dudaremos en la elección de las armas. El individuo es algo que debe ser suprimido. Es una invención de aquellos gandules griegos o de aquellos fantásticos germanos. Quien resista será extirpado como una pústula maligna. La sangre es el mejor abono ofrecido a la Naturaleza.

»No crea que yo sea cruel. Todos estos fusilamientos y todas estas horcas que se levantan por mi orden me disgustan. Odio a las víctimas, sobre todo porque me obligan a matarlas. Pero no puedo hacer otra cosa. Me vanaglorio de ser el director de una penitenciaría modelo, de un presidio pacífico y bien organizado. Pero  aquí se hallan, como en todas  las prisiones, los rebeldes, los inquietos, aquellos que tienen la estúpida nostalgia de las viejas  ideologías y de las mitologías homicidas. Todos ésos son suprimidos. No puedo permitir que  algunos millares de enfermos comprometan la felicidad futura de millones de hombres. Además, al fin y al cabo, las antiguas sangrías no eran una mala cura para los cuerpos. Hay una cierta voluptuosidad en sentirse amo de la vida y de la muerte. Desde que el viejo Dios fue muerto —no sé si en Francia o en Alemania—, ciertas satisfacciones han sido acaparadas por el  hombre. Yo soy, si quiere, un semidiós local, acampado entre Asia y Europa, y, por tanto, me puedo permitir algún pequeño capricho. Son gustos de los que, después de la decadencia de los paganos, se había perdido el secreto. Los sacrificios humanos tenían algo bueno: eran un símbolo profundo, una alta enseñanza; una fiesta saludable. Y yo, en vez de los himnos de los fieles, siento llegar hasta mí los alaridos de los prisioneros y de los moribundos, y le aseguro que no cambiaría con la novena sinfonía de Beethoven esa sinfonía, canto anunciador de la beatitud próxima.

Y me pareció que el rostro descompuesto y cadavérico de Lenin se inclinaba hacia delante para escuchar una música silenciosa y solemne,  que tan sólo él podía oír. Apareció la señora Krupskaia para decirme que su marido estaba cansado y que tenía necesidad de un poco de reposo.

Me marché en seguida.

He gastado casi veinte dólares para ver a este hombre, pero en verdad no me hace el efecto de que los haya malgastado.

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Fonte: www.ultimoreducto.com/libros/Gog.pdf

282. Bolsos insaciáveis

É quase o título de um filme pornográfico. Mas festa com dinheiro público também é um tipo de pornografia, mais refinada e, ao mesmo tempo, mais nojenta.

Depois de meses de embate, os vereadores da cidade de Araraquara reajustaram seus subsídios que, na próxima legislatura, passarão a  R$ 6.550. Um aumento de 27%.

A situação pegou fogo ontem, em uma sessão que durou 7h30. O primeiro projeto, votado já há algum tempo, queria elevar os vencimentos para cerca de R$ 8 mil, um aumento de 60% sobre o valor atualmente percebido e que englobaria a inflação dos últimos quatro anos, mais projeção de inflação (?!) para os quatro anos seguintes. Afinal, os vencimentos só podem ser reajustados para a legislatura seguinte.

Tiveram de mudar de ideia após um movimento popular chamado “Reage Araraquara” ter conseguido recolher em poucos dias 12 mil assinaturas para protocolar um projeto de lei popular. Bem mais que os 5% do eleitorado exigidos pela Constituição Federal, 8 mil eleitores no caso de Araraquara.

O mais engraçado é o jogo do direito adquirido. Parte dos vereadores fez lobby e disse que “não aceitariam” ganhar menos de R$ 7 mil, ou seja, o salário de um secretário municipal. Curioso, pois grande parte da vereança tem outras atividades e, em tese, não precisaria lançar-se sobre o erário com tanta voracidade. Mas tiveram de recuar.

Possivelmente o mais prejudicado com o desgaste político e eleitoral foi o próprio governo, coalizão PMDB-PSDB-DEM, majoritariamente. A base do governo discutiu entre si e ofendeu-se. Certamente haverá prejuízos políticos para os últimos meses da legislatura.

Em compensação, silenciosamente a oposição — majoritariamente PT — parece ter gostado da confusão toda e certamente capitalizará com o fato, uma vez que foi contra o aumento desde o início e, numa manobra de fundo populista, propôs o congelamento dos vencimentos.

Ontem, para evitar que o caldo entornasse, a conturbada sessão de ontem teve de ser paralisada por 20 minutos. Tempo suficiente para que o vereador Serginho Gonçalves (PMDB) e o membro do Reage Araraquara Marcelo Bonholi se estranhassem no corredor. “Você é um bosta!”, ouviu-se ecoar da boca do rotundo vereador.

Creio que Napeloso pode ser considerado inocente da ofensa. Afinal, ele só exteriorizou o que a classe política pensa do eleitor e cidadão. Tanto em Araraquara quanto em Brasília, os membros dessa casta — uma nobreza podre legitimada por votos comprados — deve mesmo pensar isso de nós: somos uns bostas.

Como já diria Justo Veríssimo, personagem do saudoso Chico Anysio, “Eu quero que o povo se exploda!”

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E ainda haverá queda de braço entre políticos e população. Afinal, ainda não desistiram de aumentar seus ‘tronos’ de 11 assentos para 18.

281. A república do assombro

Este é o meu 30º texto de opinião publicado na Tribuna Impressa de Araraquara. Enjoy it.

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Vai precisar rezar muito mesmo

Se Lula sente-se no direito de cobrar um magistrado da mais alta corte do País — e isso veio à tona —, imagine o que não acontecia quando ele era presidente da República. Esse tipo de manobra só mostra a faceta mais óbvia da podridão que lastreia a coisa pública brasileira. Nossa república — coitada — de bem comum a cosa nostra.

Nem a doença do ex-presidente tira-lhe a empáfia, a aura de ungido. O mais curioso é que esse tipo de personalidade, o caudilho, é algo muito hispano-americano. Talvez o aparecimento de Lula seja indício que estamos nos integrando à América Latina, para bem e para mal.

Há alguns dias, Barack Obama fez uma insinuação sobre o possível veto da Suprema Corte americana a uma lei aprovada pelo Congresso e bastou para desencadear uma minicrise. Porque, na sociedade americana, a intenção corresponde à materialidade de uma ação.

Muitos de nós — e vejo isso com assombro — veem como natural que “o Cara” tenha esse tipo de influência. Que a barafunda é mera invenção da Veja, do PSDB, de FHC ou do monstro fictício mais à mão. Estamos acostumados ao absurdo; não nos causa mais repulsa. A insensatez é a nossa rotina política e social.

É encostado à parede e já sem fôlego que constatamos uma deterioração sem par da situação política. Uma argentinização — leia-se a Argentina sob o kirchnerismo — do Brasil. E quanto mais tempo PT et caterva ficarem no poder, mais profunda será a vigilância, a censura, o controle da vida dos cidadãos por um Estado mastodôntico e onipresente.

Tomemos consciência; ou afundemos no lodaçal das pequenezas, ignorando o que há ao redor. É o que eles desejam.

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Publicado em 5/6/2012.

280. Longa noite

Antes de qualquer julgamento, leia o texto até o fim.

Longa noite

Todos parecem sentir que a casa está na mais perfeita ordem, e alguns até são loucos o bastante para acreditar que o grande sinal de saúde cultural do país são eles próprios.

Se há uma coisa que, quanto mais você perde, menos sente falta dela, é a inteligência. Uso a palavra não no sentido vulgar de habilidadezinhas mensuráveis, mas no de percepção da realidade. Quanto menos você percebe, menos percebe que não percebe. Quase que invariavelmente, a perda vem por isso acompanhada de um sentimento de plenitude, de segurança, quase de infalibilidade. É claro: quanto mais burro você fica, menos atina com as contradições e dificuldades, e tudo lhe parece explicável em meia dúzia de palavras. Se as palavras vêm com a chancela da intelligentzia falante, então, meu filho, nada mais no mundo pode se opor à força avassaladora dos chavões que, num estalar de dedos, respondem a todas as perguntas, dirimem todas as dúvidas e instalam, com soberana tranqüilidade, o império do consenso final. Refiro-me especialmente a expressões como “desigualdade social”, “diversidade”, “fundamentalismo”, “direitos”, “extremismo”, “intolerância”, “tortura”, “medieval”, “racismo”, “ditadura”, “crença religiosa” e similares. O leitor pode, se quiser, completar o repertório mediante breve consulta às seções de opinião da chamada “grande imprensa”. Na mais ousada das hipóteses, não passam de uns vinte ou trinta vocábulos. Existe algo, entre os céus e a terra, que esses termos não exprimam com perfeição, não expliquem nos seus mais mínimos detalhes, não transmutem em conclusões inabaláveis que só um louco ousaria contestar? Em torno deles gira a mente brasileira hoje em dia, incapaz de conceber o que quer que esteja para além do que esse exíguo vocabulário pode abranger.

Que essas certezas sejam ostentadas por pessoas que ao mesmo tempo fazem profissão-de-fé relativista e até mesmo neguem peremptoriamente a existência de verdades objetivas, eis uma prova suplementar daquilo que eu vinha dizendo: quanto menos você entende, menos entende que não entende. Ao inverso da economia, onde vigora o princípio da escassez, na esfera da inteligência rege o princípio da abundância: quanto mais falta, mais dá a impressão de que sobra. A estupidez completa, se tão sublime ideal se pudesse atingir, corresponderia assim à plena auto-satisfação universal.

O mais eloqüente indício é o fato de que, num país onde há trinta anos não se publica um romance, uma novela, uma peça de teatro que valha a pena ler, ninguém dê pela falta de uma coisa outrora tão abundante, tão rica nestas plagas, que era a – como se chamava mesmo? – “literatura”. Digo que essa entidade sumiu porque – creiam – não cesso de procurá-la. Vasculho catálogos de editoras, reviro a internet em busca desites literários, leio dezenas de obras de ficção e poesias que seus autores têm o sadismo de me enviar, e no fim das contas encontrei o quê? Nada. Tudo é monstruosamente bobo, vazio, presunçoso e escrito em língua de orangotangos. No máximo aponta aqui e ali algum talento anêmico, que para vingar precisaria ainda de muita leitura, experiência da vida e uns bons tabefes.

Mas, assim como não vejo nenhuma obra de literatura imaginativa que mereça atenção, muito menos deparo, nas resenhas de jornais e nas revistas “de cultura” que não cessam de aparecer, com alguém que se dê conta do descalabro, do supremo escândalo intelectual que é um país de quase duzentos milhões de habitantes, com uma universidade em cada esquina, sem nenhuma literatura superior. Ninguém se mostra assustado, ninguém reclama, ninguém diz um “ai”. Todos parecem sentir que a casa está na mais perfeita ordem, e alguns até são loucos o bastante para acreditar que o grande sinal de saúde cultural do país são eles próprios. Pois não houve até um ministro da Cultura que assegurou estar a nossa produção cultural atravessando um dos seus momentos mais brilhantes, mais criativos? Media, decerto, pelo número de shows de funk.

Estão vendo como, no reino da inteligência, a escassez é abundância?

Mas o pior não é a penúria quantitativa.

Da Independência até os anos 70 do século XX, a história social e psicológica do Brasil aparecia, translúcida, na literatura nacional. Lendo os livros de Machado de Assis, Raul Pompéia, Lima Barreto, Antônio de Alcântara Machado, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, Marques Rebelo, José Geraldo Vieira, Ciro dos Anjos, Octávio de Faria, Anníbal M. Machado e tantos outros, obtínhamos a imagem vívida da experiência de ser brasileiro, refletida com toda a variedade das suas manifestações regionais e epocais e com toda a complexidade das relações entre alma e História, indivíduo e sociedade.

A partir da década de 80, a literatura brasileira desaparece. A complexa e rica imagem da vida nacional que se via nas obras dos melhores escritores é então substituída por um sistema de estereótipos, vulgares e mecânicos até o desespero, infinitamente repetidos pela TV, pelo jornalismo, pelos livros didáticos e pelos discursos dos políticos.

No mesmo período, o Brasil sofreu mudanças histórico-culturais avassaladoras, que, sem o testemunho da literatura, não podem se integrar no imaginário coletivo nem muito menos tornar-se objeto de reflexão. Foram trinta anos de metamorfoses vividas em estado de sono hipnótico, talvez irrecuperáveis para sempre.

O tom de certeza definitiva com que qualquer bobagem politicamente correta se apresenta hoje como o nec plus ultrada inteligência humana jamais teria se tornado possível sem esse longo período de entorpecimento e de trevas, essa longa noite da inteligência, ao fim da qual estava perdida a simples capacidade de discernir entre o normal e o aberrante, o sensato e o absurdo, a obviedade gritante e o ilogismo impenetrável.

Olavo de Carvalho

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Publicado no Diário do Comércio.

279. “Dom Camilo e seu pequeno mundo”, Giovannino Guareschi

O autor e seu bigode

Foice, martelo e cruz

Em uma cidadezinha da Planície do Pó, na convulsão social e econômica da Itália do pós-guerra. Eis o cenário de “Dom Camilo e seu pequeno mundo”.

Giovannino Guareschi (1908-1968) faz uma alegoria das contendas políticas daquele triste período italiano, opondo o pároco da cidadezinha — Dom Camilo — e o administrador comunista Giuseppe Bottazzi, mais conhecido como Peppone.

Embora haja uma eterna rixa entre os dois, na verdade, são o que costuma chamar de inimigos cordiais. Gente que, apesar de duas posições ideológicas — a Democracia Cristã versus o Partido Comunista Italiano —, têm em mente o bem comum da cidade, embora não deixem de marcar suas posições de modo bem irreverente.

Dividido em pequenos contos, “Dom Camilo…” é o primeiro livro da série baseada nessa alegoria, que soma seis volumes, publicados entre 1948 e 1996, sendo que os quatro últimos são póstumos. Uma literatura que, como diria o próprio Guareschi no seu “Zibaldino”, “é bela e instrutiva”.

Dom Camilo e seu pequeno mundo – Difel/Bertrand do Brasil – preço variável

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Publicado com alguns cortes na Tribuna Impressa de Araraquara em 3/6/2012.