274. Mapa

Curioso como as pessoas procuram por um sentido. O sentido obrigatório; a rua de mão única que leva obrigatoriamente a um castelo de cristal. O sentido, para mim, é algo que me atrapalha. Prefiro ter os fios do pensamento prontos para amarrar-se a qualquer elo, sem obrigatoriedades, em pontos pouco usados. Afinal, a agulha é minha.

Sento-me aqui e tenho este volume de Cortázar entre as mãos. Um homem que vomita coelhitos — perdoem, mas a tradução é lusitana. Talvez eu seja o homem que vomite coelhinhos felpudos que acabam crescendo e destruindo tudo.

É madrugada; silêncio. É a hora que os genes cobram seu peso. Imigrantes que vieram fazer a América, deixando sobre a magra terra europeia a enxada gasta. Gentes do interior, descendentes dos primeiros paulistas, que deixaram as quietudes das paragens remotas iludidas pela sereia das escamas de vidro que é a cidade grande. Eu voltei. Genes gastos de promessas velhas.

No silêncio absurdo da madrugada interiorana, somente os coelhinhos raspam-se pelo livro. Preparo um chá, volto e sento-me no sofá em uma posição confortável. Visto o poncho argentino que trouxe da lua de mel passada no Rio Grande. A caixa diz que o chá é de frutas vermelhas — melancia é vermelha por dentro, não? Um cheiro doce ligeiramente enjoativo invade minhas narinas. Acaricio o papel do livro.

Afinal, para que o sentido obrigatório? Não passa de cadeias.

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