278. O Marquês de Pombal e o português

O Marquês de Pombal em sua glória. Detalhe de pintura de Louis-Michel van Loo e Claude Joseph Vernet (1766)

O texto abaixo foi desenvolvido como atividade acadêmica, mas que foi erroneamente interpretada. Logo, não serviu como atividade. Há algumas considerações interessantes que gostaria de dividir com os meus leitores. Afinal, o texto ficaria apodrecendo no fundo de um pen drive.

Peço desculpas pela empolação acadêmica. Às vezes, ela é necessária para um igualmente empolado — e empoleirado — interlocutor.

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A imposição do português como idioma único no período pombalino tem ainda relação com a ideologia de formação dos estados nacionais (sécs. XV-XVI). Um povo, um rei, uma língua. Embora só tenha ocorrido tardiamente no Brasil (por falta de gente ou por displicência?), na Europa, a imposição de um dialeto sobre os demais de um território nacional era a regra. Assim ocorreu com o francês (o dialeto da Ilha de França, a região de Paris), que foi tornado obrigatório nas cortes de justiça por decreto (1539). O mesmo ocorreu com o castelhano que se sobrepôs ao galego, ao catalão e até mesmo adotou um nome nacional, “espanhol”.

A questão do Marquês de Pombal com o português dividia-se em: 1) uma administração mais eficiente (por isso a “unidade” linguística de Portugal e domínios foi buscada); 2) a “condenação” à língua geral tem relação direta com os jesuítas, expulsos em 1760, que a usavam para catequese dos índios e que atingiu mesmo foros de língua literária, tendo sido compilada e normalizada pelos religiosos.

A língua geral de base tupi, ao que parece, deixou-nos (aos falantes do Interior paulista, sul de Minas, norte do Paraná, Goiás e Mato Grosso do Sul) um r retroflexo. Sílvia Figueiredo Brandão, em seu “Nas trilhas do -r retroflexo” (Signum, Estud. Ling., Londrina, n. 10/2, p.265-283, dez. 2007), sobre o fonema que não está presente em nenhuma outra área do português, que há um esforço dos filólogos em determinar o ponto de irradiação (São Paulo) e o meio de difusão (entradas e bandeiras) do r retroflexo. Se é algo que tem relação com os bandeirantes, o fonema tem base na língua geral, pois os bandeirantes, muitos deles falavam um português “atravessado”, sendo sua língua materna a língua geral “criada” pelos jesuítas.

O mote principal das reformas pombalinas não era a língua em si; o predomínio esperado do português era um instrumento para o objetivo maior: a unidade política e cultural do império português. Tal como se lê no famoso gramático castelhano Antonio de Nebrija, “a língua sempre foi companheira do Império”[1]. Ideia também reforçada pelos gramáticos lusos Fernão de Oliveira (1540), João de Barros (1540) e Duarte Nunes do Lião (1606)[2].

A questão da ‘imposição’ da língua portuguesa no Estado do Pará e no Estado do Maranhão[3] pela Lei do Diretório de 1757 passa primeiramente pela questão da expulsão da Companhia de Jesus de Portugal e seu império colonial. De um ponto de vista “oficial”, os jesuítas, além de não respeitarem as ordens reais prévias — deduz-se pelo parágrafo 6º da Lei de 1757 —, tampouco obedeciam à diretriz aprovada pelo concílio de Trento (1562), “[…] o qual impunha o uso do latim nas atividades litúrgicas católicas” (GOULARTE, 2007).

A missão primeva dos jesuítas era a catequese e a língua geral amazônica — por eles mesmos compilada a partir do tupi. Era mais fácil proceder à catequização com essa língua franca, o que ajudou enormemente em sua difusão mesmo entre os descendentes dos colonos portugueses.

Embora os textos consultados não façam diferenciação, a Lei do Diretório faz referências às atuais regiões Norte e Nordeste do País, cuja variante da língua geral era diferente. No Norte, a língua geral amazônica — ainda hoje falada em São Gabriel da Cachoeira/AM e uma das línguas oficiais do município — e a língua geral paulista, codialetos entre si. Além do mais “não há documentos que comprovem a extensão do Diretório a toda a Colônia, o que leva a crer que isso não tenha ocorrido” (FÀVERO, 2005).

A intenção do Marquês de Pombal era o controle temporal de vastas áreas da colônia que, por conta da administração do ensino, estavam de facto na mão da Companhia de Jesus. A substituição do ensino ministrado pela Companhia por um ensino estatal era uma arma de efetivo domínio e controle. O próprio texto da Lei deixa transparecer uma ideia de polidez e assimilação linguística:

Sempre foi máxima inalteravelmente praticada em todas as Nações, que conquistaram novos Domínios, introduzir logo nos povos conquistados o seu próprio idioma, por ser indisputável, que este é um dos meios mais eficazes para desterrar dos Povos rústicos a barbaridade dos seus antigos costumes; e ter mostrado a experiência, que ao mesmo passo, que se introduz neles o uso da Língua do Príncipe, que os conquistou, se lhes radica também o afeto, a veneração, e a obediência ao mesmo Príncipe. (PORTUGAL, 1757; art. 6º), grifos nossos.

A língua do Príncipe. Eis o “português-padrão” de então. Se bem que apoiado nos gramáticos já citados, mormente em João de Barros. O texto acusa ainda que, em vez de se proceder a introdução do idioma

[…] se praticou tanto pelo contrário, que só cuidaram os primeiros Conquistadores estabelecer nela o uso da Língua, que chamaram geral; invenção verdadeiramente abominável, e diabólica, para que privados os Índios de todos aqueles meios, que os podiam civilizar, permanecessem na rústica, e bárbara sujeição, em que até agora se conservavam. (PORTUGAL, 1757, art. 6º)

Os adjetivos que qualificam a língua geral não deixam dúvida do lugar que lhe caberá na nova organização estatal almejada pelo Marquês de Pombal. Valendo-se ainda de preceitos religiosos (antijesuítas, mas de fundo cristão), qualifica negativamente a língua geral.

A língua tem um papel primordial no novo Estado pombalino, por isso a preocupação de difundi-la, impô-la, “dar-lhe esplendor” (afinal, é a língua do Príncipe).

REFERÊNCIAS

FÁVERO, Leonor Lopes. Século XVIII – A língua portuguesa no Brasil e o discurso do poder. In: GONÇALVES, M. et al. Gramática e humanismo, vol. 1. Universidade Católica Portuguesa: Braga, 2005.

GOULARTE, Raquel da Silva. O ‘ensino’ do português para os índios do Brasil: um percurso de intenções. Anais. 16º Congresso de leitura do Brasil: Campinas, 2007. Disponível em: <http://alb.com.br/arquivo-morto/edicoes_anteriores/anais16/sem04pdf/sm04ss03_04.pdf>, acessado em 8.mai.2012

PORTUGAL. Lei do Diretório (1755, 1757). 1757. Disponível em <http://www.nacaomestica.org/diretorio_dos_indios.htm>, acessado em 8.mai.2012.

TROUCHE, Lygia Maria Gonçalves. O Marquês de Pombal e a Implantação da Língua Portuguesa no Brasil – Reflexões sobre a proposta do Diretório de 1757. Cadernos do CNLF, Série IV, no. 12 -Semiótica, Discurso, Leitura, História da Língua Portuguesa e Neurolinguística Aplicada – IV Congresso nacional de Linguística e Filologia, 2000.


[1] Apud FÁVERO, 2005, p. 317-330.

[2] Idem, ibidem.

[3] Divisões coloniais muito mais amplas que as atuais unidades homônimas; o próprio termo ‘estado’ deve ser lido não com o significado que a ele damos hoje.

277. O imperativo

Este texto não tem pretensões acadêmicas; é tão-só uma reflexão ilustrativa sobre alguns fatos da nossa língua do dia a dia.

Sabe-se que operamos em um sistema de diglossia. Existe um português escrito, com normas que remetem ao século XVII e XVIII, e existe não um, mas vários portugueses falados, cada qual com suas variações regionais. E, volta e meia, me pego pensando em alguma dessas ‘irregularidades’.

É notório que entre nós paulistas do hinterland, ou seja, de todas as áreas exceto o Litoral, o pronome de tratamento você suplantou o tu. O que era uma forma de tratamento formal (vossa mercê > vosmecê > você) passou a ser tão simplesmente a forma mais comum de tratamento informal. Tanto que para o formal, um novo pronome: o senhor/a senhora que, para mim, guarda certa semelhança de formação com o tratamento formal do romeno, dumneavoastră, como explica o Dicționarul explicativ al limbii române:

DUMNEAVOÁSTRĂ pron. pers. Pronume de politețe pentru persoana a 2-a (singular și plural). [Var.: (pop.) dumnevoástră pron. pers.] –Domnia + voastră.

Ou igualmente ao castelhano usted (vuestra merced > vuested > usted).

Muito bem. O você substituiu o tu como pronome de tratamento informal; as conjugações dos verbos passaram, obviamente, da segunda para a terceira pessoa. Mas, nem todas. Na área de São Paulo se usa o imperativo da segunda pessoa:

a. “Faz isso pra mim?”

b. “Pega esse negócio aí.”

c. “Me traz um sanduíche de atum.”

A explicação que posso deduzir vem mesmo do nome do tempo: imperativo. Como nos ensinavam as professoras na escola — no tempo em que as escolas eram de alguma serventia —, o imperativo serve para exprimir uma ordem, um comando. No português padrão, as frases acima ficariam

a. “Faça isso para mim?”

b. “Pegue esse negócio aí.”

c. “Traga-me um sanduíche de atum.”

Em Portugal, a forma de tratamento formal ainda é o você; o tu reserva-se ao tratamento familiar e àqueles com que se tem algum grau de intimidade.

Para nós, um verbo no imperativo fornece duas informações: 1) uma distância marcada entre emissor e receptor, o que pode ser lido como uma diferença social ou de hierarquia; 2) uma certa antipatia. É óbvio que são informações psicológicas que podem não corresponder à realidade efetiva.

Possivelmente a escolha do imperativo na 2ª pessoa é um resquício de afabilidade, alguma artimanha criada para pôr suavidade a uma ordem, no tempo em que a distinção entre você e tu existia entre a população, amenizando um verbo mais áspero. Assim como o uso generalizado dos diminutivos entre nós.

276. Da moral e dos maus costumes

Alexis de Toqueville

Alexis de Tocqueville viveu entre 1805 e 1859 e, como pensador político, sua grande obra é “A democracia na América”, na qual descreve o sistema democrático americano nos anos 1830. Embora o livro esteja aparentemente longe de nós, algumas conclusões de Tocqueville explicam nossa situação sociopolítica sem pôr nem tirar.

Tocqueville preconizava que o sistema democrático requer uma sólida base moral e que essa deve ser uma moral social de tipo consensual, não imposta pela Igreja — como na Idade Média — ou pelo Estado, mas uma moral pública, nascida no convívio igualitário e nas ponderações da própria sociedade, portanto, cultural.

O sábio francês atribui a mudança da moral religiosa para a laica à Reforma, quando a interpretação bíblica única da Igreja Católica foi quebrada, dando margem à liberdade de interpretação e, consequentemente, mudanças profundas na moral pública.

Nos países profundamente católicos, a sociedade teve o lastro moral da Igreja substituído pelo do Estado; logo, o Estado passou a ditar a moral, afogando a possibilidade de ela surgir do próprio seio da sociedade. E a moral ditada pelo Estado é a própria tirania, já que o movimento deveria ser inverso: da sociedade para o Estado.

A moral estatal é uma aberração. Um exemplo pôde ser visto recentemente: a ministra Izabella Teixeira (Meio Ambiente), na apresentação dos vetos ao Código Florestal, vangloriou-se de que o Brasil era o único país que exigia área de preservação permanente dentro da propriedade privada. Ou seja, um conceito moral vindo do Estado, que influi diretamente na vida de muita gente, e amplamente aplaudido como se fosse panaceia.

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Texto publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 29/5/2012.

275. “Bestiário”, Julio Cortázar

Monsieur Cortázar

Animais invisíveis

Bestiário é o nome que dado a obras medievais que reúnem narrativas sobre animais fabulosos ou reais ou que contenham iconografia animalista. O “Bestiário” de Julio Cortázar tem poucos animais; principalmente no conto-título e em “Cefaleia”, no qual aparece a mancúspia, mamífero imaginário.

As ‘bestas’ de Cortázar são sentimentos humanos, sempre majorados, à beira do absurdo e do nauseante. Trata-se do primeiro livro de contos do autor, publicado em 1951 e, segundo o próprio Cortázar, vários dos contos foram escritos como autoterapias psicanalíticas: “Escrevi esses contos sentindo sintomas neuróticos que me molestavam”.

Considerado um dos grandes escritores argentinos — além de Jorge Luis Borges e Ernesto Sabato —, Cortázar marcará nessa recolha o embrião de um estilo que o seguirá pelas obras posteriores, principalmente pela tentativa de vivissecção dos volteios da alma e da mente humana, causando estranhamento pela sua aparente frieza.

“Bestiário”, Júlio Cortázar – várias edições, preço variável

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 27/5/2012.

274. Mapa

Curioso como as pessoas procuram por um sentido. O sentido obrigatório; a rua de mão única que leva obrigatoriamente a um castelo de cristal. O sentido, para mim, é algo que me atrapalha. Prefiro ter os fios do pensamento prontos para amarrar-se a qualquer elo, sem obrigatoriedades, em pontos pouco usados. Afinal, a agulha é minha.

Sento-me aqui e tenho este volume de Cortázar entre as mãos. Um homem que vomita coelhitos — perdoem, mas a tradução é lusitana. Talvez eu seja o homem que vomite coelhinhos felpudos que acabam crescendo e destruindo tudo.

É madrugada; silêncio. É a hora que os genes cobram seu peso. Imigrantes que vieram fazer a América, deixando sobre a magra terra europeia a enxada gasta. Gentes do interior, descendentes dos primeiros paulistas, que deixaram as quietudes das paragens remotas iludidas pela sereia das escamas de vidro que é a cidade grande. Eu voltei. Genes gastos de promessas velhas.

No silêncio absurdo da madrugada interiorana, somente os coelhinhos raspam-se pelo livro. Preparo um chá, volto e sento-me no sofá em uma posição confortável. Visto o poncho argentino que trouxe da lua de mel passada no Rio Grande. A caixa diz que o chá é de frutas vermelhas — melancia é vermelha por dentro, não? Um cheiro doce ligeiramente enjoativo invade minhas narinas. Acaricio o papel do livro.

Afinal, para que o sentido obrigatório? Não passa de cadeias.

273. A república da coação

Por que, em uma democracia — ou regime que assim se apresenta — o voto é obrigatório? Garanto que meu eventual leitor já se deve ter pensado no tema alguma vez.

O voto é obrigatório tanto pela Constituição Federal (art. 14 §1º, incisos) quanto pelo Código Eleitoral (art. 6º, caput); é tratado como direito-dever. Há vários defensores do voto obrigatório, dizendo que tal instrumento é necessário, uma vez que a “imaturidade política (?!) da população brasileira o requer”. Porém, é desse mecanismo de dever-direito que muitos dos espertalhões que estão na política se valem.

Fui mesário durante cinco pleitos. E nesse espaço de nove anos — houve um referendo no meio — vi gente que não tinha a menor noção do que ia fazer ali diante da caixinha que apita. Muitos entravam com panfletos que lhes haviam sido dados na porta e naqueles votavam.

O voto obrigatório e a cultura fajuta insuflada pelo TSE de que “você tem de escolher alguém” fazem com que as pessoas votem em qualquer candidato por receio a mitos, como a necessidade da escolha ou “se você anula, seu voto vai para quem está ganhando”.

É claro que uma democracia deve-se pautar pelas escolhas populares, mas com uma condição: a desobrigação do exercício do direito ao voto — por que não um referendo nessa direção, senhores congressistas? —, o que levará à qualidade do voto, fruto de uma real escolha ou da consciente abstenção.

A situação é cômoda para os que têm seus currais eleitorais. E enquanto a democracia da quantidade reinar sobre a democracia da qualidade, jamais sairemos do democratismo, fonte do populismo e tantos outros males que sufocam nosso país.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 22/5/2012.

272. “Contos Gauchescos”, Simões Lopes Neto

O autor (fonte: Wikipédia)

Mais ao Sul

Quando se fala em literatura regionalista, o primeiro nome que surge é Guimarães Rosa, cuja fama monopolizou o ideário e o ‘modelo’ dessa vertente. Porém, em latitudes mais altas há também nomes tão grandes quanto, mas pouco divulgados.

João Simões Lopes Neto (1865-1916) é autor de “Contos Gauchescos”, um dos quatro livros que publicou em vida. Como o nome indica, trata-se de uma recolha narrada por um personagem, Blau Nunes, “vaqueano”, ou seja, condutor de gado que conhece muito bem rincões, trilhos e querências dum Rio Grande que foge à turística ideia que temos por conta da Serra Gaúcha. Em 19 contos, há tanto o folclórico quanto o descritivo, que pode servir para “montar” o imaginário gaúcho do final do século 19 e ainda presente em áreas mais antigas, já formadas quando do incentivo à imigração alemã e italiana — predominante na Serra.

A edição de 2008 da gaúcha Artes e Ofícios traz ainda um resumo comentado de cada conto, apresentação, notas e cronologia da vida do autor por Paulo Bentancur. Textos auxiliares de suma importância para o leitor não-gaúcho.

Contos Gauchescos – João Simões Lopes Neto – Artes e Ofícios – 197 págs. R$ 26

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 20/5/2012.

271. Deseducação

Talvez ontem fosse um pouquinho melhor.

Alguns dizem que a família é uma instituição falida. Talvez sim, talvez não; é algo de analisar caso a caso. A única instituição que realmente faliu e perdeu sua justificativa é a escola.

Esta Tribuna noticiou, em sua edição de sexta passada (11/5, pág. A7), o caso da professora que foi furtada e ameaçada de morte por um aluno de 14 anos. Esse tipo de episódio é pouco comentado, mas é muito mais frequente do que se imagina.

Já faz tempo que o ensino é dominado por pedagogos, e mesmo professores de outras disciplinas estão reféns desse furor burocrático. Basta ver uma prova, p. ex., para professor de Português, em que cerca de um quarto das questões são da disciplina e o restante perde-se na decoreba de legislação (Constituição, ECA, LDB) e na repetição psitacídea de burocratas e filosofastros da Educação (Philippe Perrenaud, Paulo Freire, Antoni Zabala et caterva).

A voracidade com que a pedagogia caiu nas escolas tirou a autoridade dos professores e esvaziou a função de instrução, transformando-as em creches, meros aparatos assistencialistas. Prova cabal é que a maioria das nossas crianças deixa o ensino como tábula rasa. Isso se ainda não saírem piores de quando entraram, à maneira como funcionam nossos presídios, que, em vez de recuperarem, degradam mais.

O pior mesmo é que o Estado nos obrigue a pôr as crianças nas escolas, a deixá-las em um lugar que fomenta uma falsa igualdade, nivelando-as “por baixo”. Por que o Estado não nos permite o homeschooling?

Costumamos creditar a falência da escola aos políticos e a partidos. Eles também têm sua parte, mas as pretensiosas teorias pedagógicas e suas leituras ortodoxas são a principal causa do declínio.

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Artigo publicado na Tirbuna Impressa de Araraquara em 15/5/2010.

270. “O falecido Mattia Pascal”, Luigi Pirandello

“Assim é, se lhes parece.”

Inaudita liberdade

Talvez na sua cabeça, leitor, já tenha passado o pensamento de largar tudo e sumir. Quem sabe até mesmo ser dado como morto e poder evaporar em paz. É exatamente sobre esse pensamento que o italiano Luigi Pirandello constrói seu fabuloso romance “O falecido Mattia Pascal”.

Pascal, um pobretão que se casa com a filha de uma viúva interesseira, é acossado por dívidas e ainda por cima morrem-lhe a mãe e a filha de colo. Açoitado constantemente pela língua ferina da sogra, foge de casa. Quando, depois de uma maré de sorte, está voltando ao lar, descobre que foi dado como morto e sente-se livre; estranhamente livre.

“Il fu Mattia Pascal” (convenhamos, o ‘fu’ para ‘defunto’ em italiano é muito mais expressivo) é a obra-prima de Pirandello, embora sua produção inclua a igualmente fantástica peça “Seis personagens à procura de autor”. Agraciado com o Nobel de Literatura de 1934, o autor é considerado um dos grandes escritores não apenas da literatura italiana, mas também da universal.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, 13/5/2012.

269. A voz do povo

A democracia direta, como faziam os gregos antigos, torna-se inviável para nós, mesmo em núcleos médios como Araraquara. Logo, adotou-se o sistema de representação parlamentar, que tem sua origem na Inglaterra. O povo fazendo-se presente por seus representantes é o que chamamos de “democracia indireta”. Mesmo assim, “o poder emana do povo” (parágrafo único do art. 1º da Constituição Federal) que elege seus representantes. Mas não é o que vem ocorrendo.

É dolorido o “compadrismo” parlamentar. Legisladores valem-se de leis e regulamentos duvidosos para proteger-se e protegerem seus interesses. Quantos eleitores de Araraquara aprovariam um regulamento pelo qual apenas a Mesa Diretora da Câmara pode propor mudanças no subsídio dos parlamentares?

De virarem as costas àqueles que representam, os edis da Morada do Sol estão sendo cobrados; também os de Santa Lúcia e Ribeirão. Como definiu bem o jornalista Marco Antonio dos Santos, desta Tribuna, uma verdadeira “Primavera Caipira”, em comparação ao movimento que varreu o Oriente Médio e parte do norte da África.

Tentam-se subterfúgios, escapadelas, manobras untuosas. Mas, finalmente, uma parcela da população recobrou sua consciência política e exige o justo: o respeito ao desejo popular, justiça nas decisões.

 “A voz do povo é a voz de Deus”; ou, adaptando melhor a máxima aos nossos tempos modernos e laicos, “A voz do povo é a voz da urna”. A surdez coletiva e a insistência em decisões corporativistas sufragadas em regulamentos espúrios podem significar uma retumbante (e merecida) derrota.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 8/5/2012.

268. “Malditos paulistas”, Marcos Rey

Jornal, feliz ou infelizmente, é uma caixa de Pandora. A crítica de livro do último domingo teve de ser reduzida por conta de um anúncio de quase meia página; abaixo, a versão integral.

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Capa da 4ª edição, 1991

Cheiro de casa

Basta uma visita à livraria ou um golpe d’olhos nas estantes de casa. Às vezes o romance contemporâneo causa certo engulho por conta de praticamente todas as obras serem estrangeiras, de língua inglesa majoritariamente. Os nomes ingleses de pessoas e lugares boiam na sopa narrativa cuja sintaxe tem o retrogosto da tradução apressada, do português artificial — arredondado e antialérgico —, castelinhos que decoram fundo de aquário.

Mas o gênero tem também suas pérolas no mare nostrum e um de seus grandes expoentes é Marcos Rey.  Na larga obra do escritor paulistano, destacamos “Malditos Paulistas”, romance misto entre o veio policial e o picaresco. Algo no título também sabe a Curzio Malaparte (“Malditos toscanos”).

A narrativa está Centrada na trajetória singular de Raul, carioca que se torna motorista de um suspeito empresário italiano que mora no Morumbi — notadamente um arrivé — e acaba também por tornar-se cúmplice e testemunha de várias situações, no mínimo, curiosas. O espaço da narrativa tem aquele cheiro de casa: entre a Capital e o Guarujá. Nomes mais convenientes e ambientes que podem fazer parte do arcabouço do leitor araraquarense.

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Publicado na Tribuna Impressa  de Araraquara em 6/5/2012.

267. De trenzinhos e trenzões

Piuí

De trenzinhos e trenzões

As manhãs de domingo costumam já ser memoriosas por si, mais ainda quando chove. E na manhã chuvosa do último domingo, fomos eu e minha esposa à exposição de ferromodelismo que ocorreu na antiga estação, hoje Museu Ferroviário.

Há quem despreze o ferromodelismo; há quem diga que se trata de coisa para crianças. Não é. É preciso muito trabalho para que uma maquete fique bonita, digna de exposição. Na plataforma feita salão, foi possível observar aqueles senhores — alguns deles, certamente já avôs — cheios de cuidados para com suas maquetes, seus pequenos trens elétricos. Algo belo de ser visto.

Enquanto estávamos na estação, um trem de carga entrou e parou no coberto da gare. Flashes, poses; afinal, em um país em que o transporte ferroviário foi jogado às traças, um trem pode sim emocionar. Principalmente aos que se dedicam a reproduzi-los em miniatura. Sorrisos emoldurados por bigodes já brancos.

Pensar que aquela plataforma era a porta de entrada da cidade na era áurea dos trens de passageiros. Parece que há um estudo do Governo do Estado para novamente ligar com trens a Capital a quatro destinos de médio percurso (Santos, Sorocaba, São José dos Campos e Campinas); as ligações rodoviárias dessas cidades com São Paulo já estão saturadas.

É possível que soluções similares valham também para nós. Trens modernos, rápidos ligando centros regionais, como Ribeirão, Araraquara e São Carlos. É preciso investimento e de gente disposta a investir na modernização da malha e administrar o serviço.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 1º/5/2012.

266. “A misteriosa chama da Rainha Loana”, Umberto Eco

Eco sorrindo

Pelos labirintos da memória

Após um acidente, um livreiro encontra-se desmemoriado. Mas não se trata de uma amnésia comum; ele se lembra apenas do que leu. Todas as suas memórias são trechos de livros, de poemas, e cada trecho evoca alguma familiaridade; algo que o desmemoriado sente, mas não apreende por inteiro, como aquela sensação de quando tentamos nos lembrar de uma palavra e ela vai esconder-se nas profundezas do cérebro, deixando apenas uma impressão fugaz.

A reconstrução da memória pelas referências textuais e icônicas dos anos 30, 40 e 50 é o mote do romance “A misteriosa chama da Rainha Loana”, do escritor e semioticista italiano Umberto Eco. Mais conhecido pelo seu “O nome da rosa”, o autor surpreende pelo romance “ligeiramente autobiográfico” e com a reconstrução da memória de seu personagem faz um apanhado da história da Itália dos anos 1930 até 1990, tempo presente da narrativa.

Ao leitor que for aventurar-se com Eco, duas recomendações: paciência   e boa vontade. “A misteriosa chama…” é um desses romances que mostram que literatura não é somente passatempo ou diversão fácil. Nota: o livro autointitula-se “romance ilustrado”.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 29/4/2012.