260. Chave inglesa

"Pega o 'to be' aí na caixa pra mim..."

Se você, leitor, tenta aprender um idioma estrangeiro como se fosse matemática, tenha a certeza de que está no caminho errado. Digo isso com base nas tantas pessoas que vejo que “fizeram inglês” há dois, três anos e não conseguem juntar duas frases.

Sim, eu sei que vivemos em um mundo onde conhecimento é poder, é oportunidade. Mas conhecimento sem lastro cultural é apenas informação: hoje você lembra; amanhã não.

Aprender um idioma estrangeiro não é apenas decorar gramática, conjugar verbo e pôr os pronomes no seu devido lugar. O processo de adquirir — sim, o termo é esse — um idioma estrangeiro vai além de pôr etiquetas sobre as palavras da nossa língua materna. O idioma estrangeiro — por mais globalizado que seja, como o inglês — carrega consigo uma cultura. E língua e cultura são indissociáveis.

A língua é espelho e mesa de uma sociedade. Quantos termos de outros idiomas que são simplesmente intraduzíveis por apenas uma palavra, e que temos de recorrer a longas perífrases para explicá-los? Um sem número.

Logo, não adianta você tratar o idioma estrangeiro como “ferramenta”, ele se nega a tal papel. Fugirá de você como uma barata pelas frestas dos móveis da memória. É necessário alimentar o idioma, como um animal de estimação. Leituras, audição de rádio, televisão. Hoje a internet nos permite esses instrumentos imprescindíveis para simular a vivência que a distância nos cerceava.

Se você, leitor, pensa em um mero utilitarismo dessa “ferramenta”, desista. Vá aprender matemática financeira.

* * *

Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 14/4/2012.

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1 comentário

  1. Thiago Dias

     /  14/04/2012

    Frequentemente me pergunto se não há, hoje, algo que se possa chamar “cultura da globalização”. O termo cultura, para caber aí, precisa ser muito amplo, talvez demasiadamente amplo. Mas termos (para ficarmos apenas com o aspecto linguístico de toda a cultura) frequentes no “mundo” da internet, do show biz, e da “vida empresarial”, cada vez mais presentes, tem formado um vocabulário – talvez mero glossário – comum e acessível a muitos, ainda que o termo inglês seja desconhecido fora daquele contexto restrito. Daí pergunto: não seria esta uma nova forma de relacionamento com a língua? Se for, não se trata de algo tão relevante quanto aprender a usar uma chave inglesa?

    Penso que sim, é outra forma de relacionamento. Uma forma mais simplista e tão utilitária quanto aprender a usar uma chave inglesa. E, como não acho errado aprender a usar uma chave inglesa, não acho errada esta nova forma de relacionamento com a língua. Acho ruim – e muito – o utilitarismo que invade os espíritos em uma sociedade capitalista (em suas vertentes industriais, consumistas…), mas não me parece que o uso de um idioma nos moldes “errados” seja mais escandaloso porque faz parte das Geistwissenschaften. Acho ruim a incapacidade que a maioria dos homens, mesmo na modernidade (talvez por causa dela), tem de adquirir (bom termo) qualquer coisa que ultrapasse o utilitarismo – que, como diz Hannah Arendt, caracteriza o animal laborans -, mas não acho que, por causa disto, devam deixar “para quem pode” o aprendizado de idiomas. Devem aprender o interesse que o “além do útil” tem para oferecer e não se afastar dele por serem, de alguma forma, indignos.

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