259. Fábula IX

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* * *

IX

Parecia um salão de chá. Nas mesas, discutindo, fumando e bebendo, várias caras ligeiramente conhecidas. O secretário de Finanças e o sucessor iam de mesa em mesa.

— Ora, como vai? Esse é o menino? Um pouco esquálido, não?

— Precisamos marcar uma pescaria. E esse é o rapaz? Tem o rosto de doninha! Marca de quem tem o intelecto rápido e afiado.

E assim, de mesa em mesa.

Tomaram lugar em uma mesa vazia. Um garçom. Anotou os pedidos dos dois homens e saiu. Logo se juntaram aos dois secretários outros dois homens.

— Este é Boegels, ex-secretário de Comunicação. Hábil em manipulação mediática. Este outro é Joaquim Loventroppo, ex-secretário da Educação.

— Prazer.

— Prazer.

Os dois cavalheiros pedem também suas bebidas. Somente agora o rapaz percebeu que um tango invade o local e abafa a conversa das mesas ao redor. Quando olhava para uma mesa mais ao fundo, dela levantou-se outro distinto senhor, que estava de fraque e veio caminhando em direção à mesa dos recém-chegados. Parou e cumprimentou coletivamente com uma sutil mesura. Olhou para o jovem secretário da Casa Civil.

— Me concede?

O jovem estranhou.

—Conceder o quê?

— A dança! Ou não escuta a música?

Pasmo, foi encorajado pelos seus colegas de mesa.

— Sim, sim! Dance um pouco. Faz bem para as articulações. Esperamos você aqui mesmo.

A contragosto, o rapaz levantou-se e enganchou-se ao braço que lhe era oferecido pelo elegante senhor de fraque, que o conduziu a um salão de dança anexo. Ali era a origem da música e com qual pasmo percebeu que havia vários dançarinos, todos homens.

— Entenda, meu filho. Não há mulheres por aqui. Dançamos o tango como nos velhos tempos, quando apenas os compadritos o dançavam.

Arrastaram vários passos pelo salão. O rapaz não era de dança e tropeçava com frequência.

— Permita-me que eu conduza.

Enquanto dançavam, conversavam.

— Lugar curioso este, não? Todos os políticos que caem no ostracismo são mandados para cá, numa espécie de exílio dentro da própria terra. Não pense que há aqui apenas gente do Partido. Não senhor. Há uns dois quilômetros daqui, existe outro complexo de prédios, ocupados por políticos da oposição. As áreas são divididas com cercas de arame farpado e barreiras. Mas há túneis escavados no solo e escorados por vigas de madeira. Lá nos juntamos, em certas noites e fumamos e bebemos. Como as confraternizações dos soldados inimigos na Primeira Guerra.

— Então… é tudo a mesma coisa?

— Sim e não. Opomo-nos pelo poder; é a única coisa que nos opõe.

— E o partido, o que acha?

— Acha natural. É assim.

— E a governadora?

— Ela nem sonha com a existência do asilo.

— Não?!

— Não. Somente quem vem para cá ou, por algum motivo, é escolhido por nós para ter o conhecimento de sua existência. Como é o seu caso. Não apenas as bases do partido você representará quando chegar ao poder — creio que elas já o visitaram — mas também nós. Este lugar é como uma clínica de drogados; nosso vício é o poder. Aqui, exercemo-lo de maneira precária. Temos um presidente, uma simulação de parlamento, intrigas artificiais e até mesmo assassinatos políticos. Mas é tudo fictício, como um placebo. Você, meu jovem, será nós lá fora. Mandará por nós, guiado pelos nossos sábios conselhos; compartilharemos do poder com você. A governadora nem sonha com isso.

— …

— E tampouco pode saber. O que existe aqui é pior que um desastre nuclear que nunca existiu: é uma explosão atômica da cobiça, esse santo motor.

— E o senhor, afinal de contas, quem é?

— Não se importe. Estou tecnicamente morto há três anos. Não posso deixar o complexo.

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1 comentário

  1. oh my god

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