265. De sonetos, emendas e poesia ruim

Ruim mesmo

Já diz o adágio popular que, às vezes, a emenda fica pior que o soneto. Logo, creio que o soneto de gosto duvidoso intitulado “Aumento para a vereança” precise ser detalhado na sua concepção e construção.

Feito a 26 mãos, trata-se de um amontoado de justificativas injustificáveis e versos que não dizem nada; apenas fazem barulho desnecessário com suas aliterações ruins. A primeira versão do soneto foi renegada pelo leitor: tema ruim e dispendioso. Rimas péssimas, como, por exemplo: “75% do salário do deputado estadual” com “subsídio ao parlamentar municipal”. Há neles o som de latas tombando por uma escada. Fora o mau gosto.

Em ano bissexto, algumas rimas deveriam ser evitadas porque atraem outras. “Eleição” pode casar-se perfeitamente com “rejeição”. As rimas em “ão” são chamadas rimas pobres, mas, neste caso, têm a força de um estouro de canhão.

Um soneto convencional tem 14 versos: dois quartetos e dois tercetos. O nosso “Aumento” tem 13 por questão de quórum. Além do mais, contém várias temáticas díspares: o júbilo discreto, o pouco caso e até mesmo uma saída à Pôncio Pilatos. Ensaiou-se uma emenda, mas a distração fez com que a tinta maculasse irremediavelmente o papel.

São 13 versos, mas, para o décimo quarto, milhares de canetas se levantam. Tem um caráter imperativo, um chamamento embutido. Um grito que una a sociedade e faça com que os poetas entendam que o senso comum que deve prevalecer. Certamente haverá uma evocação coletiva; um verso de sete sílabas — a popularíssima redondilha menor — que fugirá à babosa retórica dodecassílaba do restante: “Reage, Araraquara!¹”.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 24/4/2012.

1) “Reage Araraquara” é o nome do movimento popular que surgiu em resposta ao aumento abusivo dos salários dos vereadores araraquarenses.

264. “99 poemas – Brossa”, Joan Brossa

O poeta catalão em uma de suas performances artísticas

Poesia catalã moderna

Embora haja manuais de metrificação e regras mil, a poesia pode (e talvez deva) ser uma atividade de escrita livre. Temos vários exemplos de ótimos poetas brasileiros, mestres do verso livre, como Drummond e Bandeira. E que tal algo com um saborzinho exótico? Digamos, um pouco mediterrâneo?

Joan Brossa foi um poeta catalão que começou sua trajetória e metrificando, mas logo transcendeu as regras e as réguas, fazendo a sua poesia a iluminação do cotidiano, chispas onde geralmente só há o cinza-tédio. A recomendação de hoje fica por conta de “99 poemas – Brossa”, coletânea organizada por Ronald Polito e Victor Rosa e que traz, como diz o título, 99 poemas de vários livros de Brossa. Um mosaico para quem quiser conhecê-lo.

A edição é bilíngue e permite ao leitor também um passeio pela sonoridade única do idioma catalão que, eu diria – e sou suspeito para fazê-lo -, é a língua feita para a poesia, irmã do provençal dos trovadores. Ao lado dos originais catalães, a tradução destra de Ronald Polito.

Apenas um conselho: poesia tem de ser lida algumas vezes e não como se faz com um romance. Um livro de poemas é um livro para acompanhar o leitor durante meses.

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Crítica publicada na Tribuna Impressa  de Araraquara, em 22/4/2012.

263. Pátria presa

O chuvoso sol norte-coreano, Kim il-Sung

Na última sexta-feira 13, o foguete norte-coreano Unha-3 (lê-se “un-ha”) caiu no mar dois minutos após decolar. Ao que parece, o que alarma as potências ocidentais não passa de impotência.

Trocadilhos a parte, o foguete é a metáfora da própria Coreia do Norte, submetida à monarquia socialista da família Kim, à repressão a qualquer coisa que não se alinhe às políticas de Estado, à fome. Há outros países em situação similar: Bielorrússia, Cuba, Irã, Síria. Antes havia também a Líbia.

O que é mais dolorido é que, entre nós, há gente que corrobora com esse tipo de terrorismo de Estado. A matéria “Brasileiras participam de homenagem a Kim Il-sung”, publicada no site do jornal O Estado de São Paulo em 13/4, informa-nos que três brasileiras — incluindo a vice-presidente de um certo Partido Pátria Livre (nanico, imagino), Rosanita Campos — foram participar da celebração do centenário de Kim Il-sung, o patriarca norte-coreano.

Outro membro do trio — uma tal Dilma que não revelou o sobrenome — participa de um certo Comitê de Solidariedade à República Democrática da Coreia e é engajada na defesa da Síria de Bashar Assad, à Líbia de Muammar Gaddafi e tem ligações com o Círculo Bolivariano. Ou seja, esse trio defende e admira ditaduras assassinas, que esmagam liberdades individuais em nome de bustos de Lênin e arranjos de cravos vermelhos nas reuniões do partido. Bonito, mas sanguinário.

Já disse o grande Winston Churchill, em discurso à Câmara dos Comuns, em 1947: “A democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 20/4/2012.

262. O furo da placa

Placa de Mombuca/SP

A reportagem sobre a escassez de placas em Araraquara, de autoria da jornalista Luiza Pellicani, saiu nesta Tribuna no último sábado (14/4, p. A7). O tema, para alguns, pode parecer desnecessário, porque grande parte das pessoas conhece as entranhas de seus bairros. Mas uma cidade que tem vocação de centro regional atrai muita gente de fora; logo, precisa ser um pouco menos áspera, principalmente no que se refere à localização eficiente.

Imagino que o tema seja também antigo. Lembro-me da minha primeira visita à cidade e que, andando pelo Centro, percebi a falta da sinalização em vários pontos. Talvez seja besteira, mas parece que as placas dos nomes das ruas, além de informarem o nome, trazem certo conforto — principalmente quando se trata de nomes comuns a ruas de quase todas as cidades paulistas: Nove de Julho, Quinze de Novembro, Sete de Setembro, Bandeirantes.

Uma semana antes de a reportagem ter saído, ou seja, em 7/4, durante almoço na casa do meu sogro, meu anfitrião trouxe novamente o assunto das placas e indagou-me se esse não seria um bom tema para um texto de opinião. Fiquei de pensar e, para o artigo de terça seguinte (10/4), acabei trazendo um motivo mais político. Como se diz nas redações, acabei “tomando furo” da colega Luiza.

O que indica também que a preocupação não é apenas minha ou do meu sogro: é ampla a ponto de ter suscitado uma reportagem. O mais curioso é que, no dia em que a matéria foi publicada, consegui perder-me no espaço entre a São Bento (Três) e a Itália (Sete). Precisava ir à Carlos Gomes (Seis), mas não contava com a existência de uma tal “Cinco e Meio”. Senti na pele que as placas são mais do que raras naquele trecho.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara me 17/4/2012.

261. “Pai patrão”, Gavino Ledda

Gavino Ledda

Vida dura

Hoje, o trabalho infantil é considerado um mau hábito dos povos e feramente combatido por autoridades, Governos, secretarias especiais, conselhos tutelares. Há não muito tempo atrás, a vida laboral (profissional é um termo anacrônico neste caso) começava bem cedo: as meninas para as fainas domésticas e os rapazes seguiam o pai para ajudar na profissão e, não raramente, herdá-la.

O romance autobiográfico de Gavino Ledda trata exatamente desta questão. “Pai patrão” é o relato da infância de Ledda, passada nos anos 1940 nas montanhas da Sardenha, pastoreando ovelhas. O pai o tira da escola aos seis anos e põe para cuidar do rebanho familiar; daí em diante seguem-se vários episódios da popularmente chamada “escola da vida”, nas secas e duras montanhas do interior desta rústica ilha italiana.

Incluída na coletânea Letras Italianas da Berlendis & Vertecchia, a edição ainda nos presta um grande favor. Por se tratar de autor pouco conhecido no Brasil (não obstante o fato de haver uma versão cinematográfica de “Pai Patrão”, de 1977), o livro ainda traz o conto “Recanto” e mais alguns escritos. “Recanto” é apresentado em versão bilíngue: a tradução brasileira e o original em sardo.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 15/4/2012.

260. Chave inglesa

"Pega o 'to be' aí na caixa pra mim..."

Se você, leitor, tenta aprender um idioma estrangeiro como se fosse matemática, tenha a certeza de que está no caminho errado. Digo isso com base nas tantas pessoas que vejo que “fizeram inglês” há dois, três anos e não conseguem juntar duas frases.

Sim, eu sei que vivemos em um mundo onde conhecimento é poder, é oportunidade. Mas conhecimento sem lastro cultural é apenas informação: hoje você lembra; amanhã não.

Aprender um idioma estrangeiro não é apenas decorar gramática, conjugar verbo e pôr os pronomes no seu devido lugar. O processo de adquirir — sim, o termo é esse — um idioma estrangeiro vai além de pôr etiquetas sobre as palavras da nossa língua materna. O idioma estrangeiro — por mais globalizado que seja, como o inglês — carrega consigo uma cultura. E língua e cultura são indissociáveis.

A língua é espelho e mesa de uma sociedade. Quantos termos de outros idiomas que são simplesmente intraduzíveis por apenas uma palavra, e que temos de recorrer a longas perífrases para explicá-los? Um sem número.

Logo, não adianta você tratar o idioma estrangeiro como “ferramenta”, ele se nega a tal papel. Fugirá de você como uma barata pelas frestas dos móveis da memória. É necessário alimentar o idioma, como um animal de estimação. Leituras, audição de rádio, televisão. Hoje a internet nos permite esses instrumentos imprescindíveis para simular a vivência que a distância nos cerceava.

Se você, leitor, pensa em um mero utilitarismo dessa “ferramenta”, desista. Vá aprender matemática financeira.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 14/4/2012.

259. Fábula IX

Parte I * Parte II * Parte III * Parte IV * Parte V * Parte VI * Parte VII * Parte VIII

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IX

Parecia um salão de chá. Nas mesas, discutindo, fumando e bebendo, várias caras ligeiramente conhecidas. O secretário de Finanças e o sucessor iam de mesa em mesa.

— Ora, como vai? Esse é o menino? Um pouco esquálido, não?

— Precisamos marcar uma pescaria. E esse é o rapaz? Tem o rosto de doninha! Marca de quem tem o intelecto rápido e afiado.

E assim, de mesa em mesa.

Tomaram lugar em uma mesa vazia. Um garçom. Anotou os pedidos dos dois homens e saiu. Logo se juntaram aos dois secretários outros dois homens.

— Este é Boegels, ex-secretário de Comunicação. Hábil em manipulação mediática. Este outro é Joaquim Loventroppo, ex-secretário da Educação.

— Prazer.

— Prazer.

Os dois cavalheiros pedem também suas bebidas. Somente agora o rapaz percebeu que um tango invade o local e abafa a conversa das mesas ao redor. Quando olhava para uma mesa mais ao fundo, dela levantou-se outro distinto senhor, que estava de fraque e veio caminhando em direção à mesa dos recém-chegados. Parou e cumprimentou coletivamente com uma sutil mesura. Olhou para o jovem secretário da Casa Civil.

— Me concede?

O jovem estranhou.

—Conceder o quê?

— A dança! Ou não escuta a música?

Pasmo, foi encorajado pelos seus colegas de mesa.

— Sim, sim! Dance um pouco. Faz bem para as articulações. Esperamos você aqui mesmo.

A contragosto, o rapaz levantou-se e enganchou-se ao braço que lhe era oferecido pelo elegante senhor de fraque, que o conduziu a um salão de dança anexo. Ali era a origem da música e com qual pasmo percebeu que havia vários dançarinos, todos homens.

— Entenda, meu filho. Não há mulheres por aqui. Dançamos o tango como nos velhos tempos, quando apenas os compadritos o dançavam.

Arrastaram vários passos pelo salão. O rapaz não era de dança e tropeçava com frequência.

— Permita-me que eu conduza.

Enquanto dançavam, conversavam.

— Lugar curioso este, não? Todos os políticos que caem no ostracismo são mandados para cá, numa espécie de exílio dentro da própria terra. Não pense que há aqui apenas gente do Partido. Não senhor. Há uns dois quilômetros daqui, existe outro complexo de prédios, ocupados por políticos da oposição. As áreas são divididas com cercas de arame farpado e barreiras. Mas há túneis escavados no solo e escorados por vigas de madeira. Lá nos juntamos, em certas noites e fumamos e bebemos. Como as confraternizações dos soldados inimigos na Primeira Guerra.

— Então… é tudo a mesma coisa?

— Sim e não. Opomo-nos pelo poder; é a única coisa que nos opõe.

— E o partido, o que acha?

— Acha natural. É assim.

— E a governadora?

— Ela nem sonha com a existência do asilo.

— Não?!

— Não. Somente quem vem para cá ou, por algum motivo, é escolhido por nós para ter o conhecimento de sua existência. Como é o seu caso. Não apenas as bases do partido você representará quando chegar ao poder — creio que elas já o visitaram — mas também nós. Este lugar é como uma clínica de drogados; nosso vício é o poder. Aqui, exercemo-lo de maneira precária. Temos um presidente, uma simulação de parlamento, intrigas artificiais e até mesmo assassinatos políticos. Mas é tudo fictício, como um placebo. Você, meu jovem, será nós lá fora. Mandará por nós, guiado pelos nossos sábios conselhos; compartilharemos do poder com você. A governadora nem sonha com isso.

— …

— E tampouco pode saber. O que existe aqui é pior que um desastre nuclear que nunca existiu: é uma explosão atômica da cobiça, esse santo motor.

— E o senhor, afinal de contas, quem é?

— Não se importe. Estou tecnicamente morto há três anos. Não posso deixar o complexo.

258. A República incompreensível

500 cruzeiros com o Marechal Deodoro. A psicodélica série de cédulas dos anos 80 representa bem os cambalachos republicanos

Na edição de domingo (8/4), esta Tribuna trouxe reportagem sobre os gastos dos nossos (?) deputados, cujas verbas de gabinete somadas alcançam R$ 586 mil. Porém não é sobre os gastos dos deputados que venho aqui falar; o assunto da representação legislativa traz consigo temas pouco tratados, mas que são base de muitos males.

Quando se trata dos legislativos estadual e federal, um conceito me parece de suma importância: voto distrital.

É curioso que numa república que se quer “federativa”, haja mecanismos tão “unitários” quanto a representação na Câmara dos Deputados. A Câmara, como se sabe, é a representação da população; mas o que incomoda é que o conceito territorial seja tão diluído. Um deputado “por São Paulo”, por exemplo, pode ser eleito com votos de qualquer ponto do Estado, embora haja uma tendência extraoficial de ele ser eleito por uma determinada cidade ou região.

A reforma política — uma miragem em terras calcinadas pelo sol do populismo — poderia e deveria incluir o conceito de voto distrital, sistema pelo qual cada distrito eleitoral elegesse um deputado que nominalmente representasse aquela população.

A situação atual mostra-se ainda mais gritante no caso do legislativo estadual. Não são raras as eleições em que alguma região administrativa simplesmente fica sem representação alguma no parlamento do Estado.

O voto distrital seria a base para um real federalismo, de municípios, regiões, estados e União. Do jeito como está configurado, o Brasil não passa de uma república unitária “maquiada”, na qual “pacto federativo” — conceito tão violentado pela classe política — somente diz respeito à divisão de impostos.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 10/4/2012.

257. “O Livro dos Hereges”, Aydano Roriz

Às vezes, a História — principalmente como disciplina escolar — parece-nos intragável. Morta, coberta de poeira. Porém das folhas carcomidas e caligrafadas do passado também pode emergir matéria viva, que num átimo, um rebrilho, nos leva novamente a viver aquilo. Um gênero literário que busca esse rebrilho é o romance histórico.

Atualmente pouco usado ou lembrado, o gênero tem novo alento com o Aydano Roriz, que com “O Livro dos Hereges” mostra todo o esplendor da literatura de fundo histórico. Para quem leu o interessante “O Brasil Holandês”, organizado por Evaldo Cabral de Mello, os personagens históricos envolvidos ganham carnação nas linhas do romance: o governador Diogo de Mendonça, deposto pelos holandeses, Van Dorth, o fidalgo holandês escolhido para governar a cidade de Salvador ocupada pelas tropas batavas e outros menos destacados.

O trabalho de pesquisa para o livro levado a cabo por Roriz é irreprochável e riquíssimo em detalhes. O que pode enjoar um pouco o leitor não acostumado com o gênero são as notas de rodapé — muito comuns no gênero —, as várias palavras em holandês — uma verossimilhança que soa um pouco artificial —, e o estilo excessivamente lusitano na fala dos personagens portugueses.

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 9/4/2012.

256. Trinta anos de uma guerra populista

Tropas britânicas na ilha à época da Guerra

Ontem, completaram-se 30 anos da malfadada Guerra das Malvinas. Em 2 de abril de 1982, os argentinos desembarcaram naquelas ilhas do Atlântico Sul, retirando o Union Jack dos britânicos e instalando em seu lugar o Sol de Mayo entre barras celestes.

As Malvinas — ou Falklands, como as chamam seus habitantes — são o centro de uma questão central do imaginário argentino. Nossos hermanos falam de anexação por parte do Reino Unido; britânicos, em reocupação, pois consideram que as ilhas já eram nominalmente suas antes de 1833, ano em que se instalaram ali com colonos. Considera-se que a autoridade argentina sobre as ilhas tenha sido apenas entre 1820 e 1833. Treze anos.

Governos argentinos que se sucederam sempre consideraram as ilhas suas, mas o conturbado século 19 no continente impediu qualquer movimento para a retomada, o que não atenuou o sentimento de perda e remorso.

Em 1982, uma junta militar com baixa popularidade guiada pelo General Leopoldo Galtieri concebeu o ‘Plano Rosario’, que culminou com a tomada das ilhas. A Argentina vislumbrava três pontos favoráveis: 1) ambiente positivo por conta de uma resolução da ONU sobre descolonização; 2) o desinteresse britânico em ilhotas perdidas e; 3) apoio americano àquelas pretensões territoriais. Como sabemos, saiu tudo às avessas.

Agora, temos um governo argentino populista que anda também com baixa popularidade. Inflação, desemprego, insatisfação reinam no país da dinastia Kirchner. E é claro que invocar o fantasma das Malvinas é cômodo: questões sentimentais angariam votos e carisma.

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Texto publicado na Tribuna Impressa de Araraquara de 3/4/2012.

255. “A jangada de pedra”, José Saramago

Península Ibérica à noite

Flutuação ibérica

Portugal e Espanha sempre tiveram um problema de identificação com a Europa: eram ricos e tinham colônias quando o continente trincava-se em guerras; decadentes no período de grande pujança econômica europeia; com regimes ditatoriais enquanto a Europa consolidava a democracia. Os olhares europeus para a Península Ibérica também nunca foram os melhores. “A Europa termina nos Pirineus”, disse certa vez Talleyrand.

É com essa ideia que José Saramago escreveu “A Jangada de Pedra”, de 1986. Iberista convicto, melancolicamente acolhe a separação entre o continente e a “ilha” ibérica. Em uma metáfora surpreendente, a península descola-se da Europa e começa a navegar pelo Atlântico, para desespero de seus habitantes.

Como centro da narrativa, um grupo que se une por acaso e percorre os dois países da agora ilha, registrando suas impressões enquanto a massa de terra navega rumo à América do Norte.

A alegoria pode ser mesmo lida com uma chave bem atual: a crise econômica que assola as duas nações e o papel que elas representam hoje na Europa.

Prêmio Nobel de Literatura, Saramago é conhecido pela obra e pela. Seu inovador modo de colocar diálogos no texto em parágrafos compactos é curioso à leitura da primeira obra, depois, a coisa se torna um pouco cansativa.

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Uma versão ligeiramente alterada saiu na Tribuna Impressa de Araraquara em 1º/4/2012.