239. Cor, gosto e raciocínio

Os três homens azuis. Não sei exatamente o que fazem; nunca os entendi

“Sobre cor e gosto, não se discute”, avisa o dito latino medieval. Basta nos lembrarmos da dificuldade que temos com certas nuanças de cor. De gosto então, basta recorrer ao lugar-comum: “cada um tem o seu”.

Se gosto é algo tão particular e variável, não pode ser argumento válido em uma discussão séria. Digo isso porque nós, brasileiros — e também a Latinidade como um todo —, nos valemos de nossos gostos — ou até um “gosto coletivo” — para desclassificar oponentes que também insistem em sustentar gostos como bandeiras.

Na faculdade de Letras, vi uma cena que ilustra bem o fato. Durante uma aula de Literatura Italiana, o professor perguntou o que cada um havia lido da Literatura peninsular antes da faculdade. Respondi que, desde pequeno, gostava de Dom Camilo, personagem de pelo menos três livros de Giovannino Guareschi. O professor cofiou o bigode e disse que Guareschi não era Literatura; porém, a expressão do rosto o traiu: não gostava simplesmente daquele autor porque a obra mostrava certo alinhamento com o pensamento da Democracia Cristã italiana e o professor gostava dos escritores mais à esquerda, como Italo Calvino e Cesare Pavese. Uma questão extraliterária.

De outra feita, presenciei uma discussão entre dois “filosofeiros”, cada um tomou partido pelo seu sábio incensado. Depois de raivosas réplicas e tréplicas, um deles simplesmente disse: “Não gosto de Herr Fulano”.

Não basta dizer “não gosto” a objeções. Não podemos ficar no “não gosto”. Há gente que diz “não gosto do partido X” como “não gosto de berinjela” ou “não gosto do Corinthians”. O pensamento não pode guiar-se por tanta irracionalidade.

* * *

Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 10/3/2012 e também no Araraquara.com.

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238. Fábula, parte IV

Parte I * Parte II * Parte III

IV

A investidura do rapaz como suporte-mor não foi muito interessante. A governadora o fez ler um juramento de praxe. Estavam alguns membros do gabinete (não todos), uns deputados da bancada governista e alguns membros da Juventude do partido.

Estava com uma samarra de colheres e um capelo feito de copos. A minguada assembléia deliberou que ele gastasse umas palavras. Palavras de praxe que tampouco despertaram a atenção. Apenas os membros da Juventude anotavam freneticamente o que ele dizia.

Deixou o closet e foi instalado em um escritório que ocupava meio pé direito, na torre esquerda. Também teve direito a um secretário, que escolheu entre a Juventude.

Sua primeira aparição ao lado da governadora sim foi um acontecimento. Foi a recepção de um governador de outro Estado, mas do mesmo partido. Roubou a cena. Saiu nas capas dos jornais; em todas, segurava elegantemente os copos. Pediu exemplares de todos os jornais, recortou-as e colocou-as em portas-retratos em sua mesa.

Seu cotidiano pouco se alterou. Recebia as aulas-micção do secretário da Casa Civil que, para as palestras, levava um fino urinol em estilo Luís XVI e urinava veementemente.

— A Vulgata… o Patrimônio de São Pedro… o Estado Novo.

Para dormir, havia um quarto anexo ao escritório. Um cubículo em que apenas cabia uma cama em 30 graus. Não era rara a manhã em que ele acordava aninhado no ângulo formado entre a cama e a parede.

Recebia membros das Juventudes que lhe pediam favores. Uma sinecura para um irmão aleijado, um médico para a tia maluca, dinheiro para comprimidos. Granjeava. Algumas petições eram atendidas; outras estava fora do seu alcance.

No tempo livre, jogava baralho com o secretário, que lhe ensinara escopa.

*

Bons meses assim se passaram. Recepções, almoços. Sempre com os copos à mão. Esticava os lábios para beber, estalava a língua apreciava qualquer líquido que ali estivesse, mesmo que fosse urina de bode, como uma vez efetivamente foi.

Uma noite, retirou-se morto de cansaço para seu cubículo. Quase adormecia quando percebeu um incessante raspar que ia aumentando de intensidade. Milhares de coisas raspando no chão do escritório.

Abriu a porta e viu que o chão estava coalhado de baratas. Não havia onde pôr o pé; não se via o carpete. Subiam pela mesa, pelas cadeiras.

Quando saiu do pasmo e pensou em gritar por auxílio, um grupo de baratas adiantou-se e subiu na parede. Organizaram-se. Começaram a escrever uma mensagem na parece, usando seus corpos achatados e marrom para formar letras e logo palavras.

“Somos o Comitê de Base do Partido. Ninguém governa sem nós. Hoje somos deste partido; amanhã, seremos do partido que estiver no poder. Mesmo assim, sabemos que o partido começa um período longo de domínio. Quarenta, cinquenta anos. Fazemos parte desse projeto; fazemos parte de todos os projetos de poder. Somos cérebro, somos resistentes. Somos muito mais do que você pode imaginar.”

As baratas haviam liberado uma cadeira para que o rapaz se sentasse. Ele permanecia mudo, apenas lendo as mensagens que se formavam na parede. A casa mudança de texto, um sapatear ensurdecedor.

“Viemos aqui pare selar um pacto com você. Dominamos não apenas o partido, mas também a Assembleia. Nenhum secretário faz nada sem nossa anuência. Somos a revolução que entra por baixo das portas das pessoas. Sabemos tudo, temos agentes em todas as casas do Estado; de todas as casas da república. Nós somos a república e lei, meu jovem, e, para governar, terá de compactuar conosco.”

O rapaz saiu do pasmo.

— Muito bem. Entendi o que vocês são e o que querem. E como podemos tratar tudo isso?

As patas pretas começaram a agitar-se sobre a parede novamente.

“Não nos procure. Escute bem os conselhos dos secretários da governadora. São nossos porta-vozes. Lembre-se que os impérios regem-se sempre pela tirania. Nós somos essa tirania. E não se esqueça de manter as escolas sempre abastecidas com açúcar e jornal velho; é lá que nos alimentamos e doutrinamos a população.”

Findada a última palavra, as dezenas de milhares de baratas saíram rapidamente da sala em tropel. Um cheiro seco empestava o ar. Voltou para o cubículo e tentou pegar no sono. Dormiu mal. Todo o sono estava povoado por baratas de cartola de dançavam e faziam exigências cantando. Acordou suado. O cheiro seco da sala penetrara também no cubículo.

237. Oficializando o vermelho

Bandeira desenhada por Jean-Baptiste Debret

O assunto é amplamente desconhecido, mas não é novo. Típico das benesses promovidas pelas agências de fomento de pós-graduação (Fapesp, CNPq et al.) que promovem todo tipo de maluquice “inédita” com dinheiro público.

O jornalista Ricardo Seyssel, em sua dissertação de mestrado na área de Artes, defende um redesenho da bandeira do Brasil. Entre os motivos da mudança estão:

 1) a configuração da bandeira torna difícil sua reprodução; logo, a simplificação do desenho a facilitaria, já que, segundo o Inmetro, nenhum dos fabricantes de bandeira acerta nas proporções. O famoso e já institucional “nivelar por baixo”: se é difícil, vamos simplificar. Fico pensando em países cujas bandeiras são infinitamente mais difíceis que a nossa, como as que têm algum escudo d’armas, por exemplo, ou mesmo algumas que têm reproduções da bandeira britânica no canto superior direito (notoriamente Austrália e Nova Zelândia). A questão da dificuldade é relativa; ao meu ver, não se sustenta;

2) a ilegibilidade do lema que, segundo outro “especialista” — um designer — está disposto errado. E ainda há o pecado supremo de — oh! — ser “circunspecto a uma ideologia que está no passado”, ou seja, o positivismo. Como se a bandeira tivesse de ser atualizada a cada dez anos. Perdão, mas será que os ingleses querem livrar-se do “Mon Dieu et mon Droit”? Ou os holandeses do “Je maintiendrai”?

3) Ainda segundo o designer entrevistado para o trabalho, a faixa curvada para baixo configura um erro e “transmite uma sensação negativa”. Talvez o especialista tenha em mente um “smile”.

Segundo essa análise, o problema todo está na esfera azul que substituiu o pavilhão imperial na bandeira desenhada por Jean-Baptiste Debret (1768-1848). A solução de Seyssel é substituir a esfera por outra, vermelha sólida, “que seria uma referência à cor do tronco e da florada do pau-brasil”.

Ainda no texto de Tânia Ribeiro — no qual me baseei para escrever o presente texto —, “Analisando a influência da concepção visual sobre quem capta um determinado signo, o pesquisador conclui que, quanto mais representativa do lugar do qual se faz símbolo, mais reconhecida e respeitada é uma bandeira”.

Não seria o contrário? Um símbolo nacional passa a fazer parte do imaginário de uma nacionalidade. Não é simplesmente tão natural quanto um trevo que brota do chão. E representativo por representativo, algo poder ser representativo para um e para outra pessoa, não.

Tenho minhas dúvidas se a bandeira nacional deva ser objeto de alterações. Está muito presente no imaginário; verde e amarelo — Bragança e Habsburgo — são notoriamente as cores nacionais.

O trabalho de Seyssel é de 2006. A inclusão do vermelho, além de dar um ar “nipônico” à bandeira — lembraria muito aquelas horrendas fusões de bandeiras — é uma cor que tem um forte apelo partidístico. Acredito que, apesar dos “especialistas”, a maioria da população opor-se-ia a tais mudanças.

Logo no início da República, no afã de querer livrar-se das cores dinásticas, houve vários projetos — alguns realmente pavorosos — e nenhum vingou.

* * *

Texto original acerca do tema.

236. Quixotismo institucional

Dom Quixote em seus delírios pela pena mestra de Gustave Doré

A polêmica criada pelo Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) com a publicidade do azeite Gallo é, no mínimo, ridícula e despropositada. A leitura nas entrelinhas feita pela ONG ultrapassa o bom senso e, das leituras possíveis, escolhe apenas uma. É tão ridícula que o coordenador nacional da União de Negros pela Igualdade (Unegro), Jerônimo Silva Júnior, em declaração ao Jornal do Brasil, identificou apenas humor e viu ali o mais acertado: no slogan, lê-se “O nosso azeite é rico, o vidro escuro é o segurança”; basta lembrar do fato que os seguranças sempre estão em trajes escuros.

Outra estupidez crassa fica por conta do Ministério Público Federal em Uberlândia/MG, que quer tirar de circulação do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa por conta das acepções no campo semântico de cigano (cigano, ciganaria, ciganagem). Cabe afirmar duas coisas: primeiro, que não se muda o idioma a canetadas. Se existe o registro no dicionário é porque há — ou houve — o uso daquela palavra naquela chave de leitura. Qualquer alteração nesse sentido não passa de censura branca do politicamente correto ou criação de novilíngua (lembrem-se de “1984”).  Segundo, o dicionário registra as acepções “ofensivas” com a rubrica pejorativo. Ao que parece, no MPF ignora-se a função dos dicionários, pois veem monstros onde apenas há moinhos de vento.

Parece que os verbetes ‘condenados’ estão indisponíveis na versão on-line do dicionário. Espero que nenhum funcionário do MPF apareça-me em casa com uma liminar para levar a página do dicionário em que consta ‘cigano’.

Em suma, falsas polêmicas.

* * *

Artigo publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 8/3/2012. Também no Araraquara.com.

235. Fábula, parte III

Parte I * Parte II

* * *

III

Ele apenas lia no closet e não ouvia um único rumor do gabinete. Leu durante dias seguidos. Sua mãe não o viera ver. Tampouco apareceu o secretário da Casa Civil. Achou que o tinham largado ali. Quando pensou em sair, a porta do closet abriu-se sozinha: um velhinho de fraque estava na soleira.

— Perdão, quem é o senhor?

— Giacomo di Momparnaso, ao seu dispor, sire.

Demorou alguns instantes para reconhecer o nome. Sem esperar resposta, o ancião fez sinal para que o rapaz o seguisse.

Foram os dois, o rapaz logo atrás do velho, passando por corredores escuros, em direções ainda desconhecidas. A escuridão era quebrada intermitentemente por frestas luminosas de portas e pela voz cansada e pausada, que narrava uma história truncada.

— Nasci em algum ponto da Calábria… Desconheço qual seja. Ou talvez na Dalmácia, em Ragusa. Não conheci meus pais. Não há saudades. Cresci em Florença, pescando no Arno e nadando nas enchentes. Vivíamos sujos e piolhentos; comíamos restos do lixo. A coisa toda mudou quando conheci um homem que era vidraceiro. Vidro artesanal. Fazia copos, copos maravilhosos, coloridos. Soprava o vidro quente e, ecco!, uma jarra, um ovo, um elefante, um copo… aprendi o mister, tornei-me vidraceiro também, mas comecei a me indignar da maneira como as pessoas tratavam os copos.

O rapaz sentiu que Giacomo o pegara pelo colarinho do paletó e falou-lhe quase ao pé do ouvido, com voz rouca:

— Toda vez que vidro se quebra, um anjo do Senhor chora. Entende?

Largou-o.

— Durante a guerra, tive de ficar escondido num porão. Não havia um copo de vidro. Tinha de tomar água num vaso de barro. Sempre escondido. Emigrando em 1944.

Continuavam andando por corredores. Agora, eram escadas; desceram muitos lances e pararam diante de uma porta de madeira. Um cheiro forte de umidade. A luz se fez e o rapaz pôde ver a porta e Giacomo, com a mão o interruptor. As paredes eram de pedra.

— Estamos nos porões do palácio. Há 200 anos, aqui ficavam os prisioneiros. Hoje, são usados como adegas e uma das caves é o meu escritório.

Entraram no escritório. Cinco metros de pé direito com prateleiras cheias de copos dos mais variados tipos e feitios. Giacomo deteve-se a mostrar os principais; o rapaz ficou sabendo que há copos para os mais variados usos. Descobriu ainda que o suporte-mor era o encarregado de escolher e segurar copos ao lado da governadora.

— Segurar copos? Como um garçom?

— Não, tonto! Para si mesmo, mas para valorizar o copo e o vidro. É uma função muito estimada pelo governo do Estado desde muito tempo.

Na parede, além das prateleiras, retratos a óleo descascados mostravam os que haviam sido guarda-copos.

— O guarda-copo é o responsável pela guarda deste tesouro pelo uso dele.

— E eu vou segurá-los?

— Não apenas. Você tratará esses copos como deuses que permitem a ingestão de líquidos. Sem eles, você morreria de sede…

— Mas posso tomar água com as mãos em concha e…

Foi interrompido por um sonoro tapa.

— Sem filosofias, herege! Que tipo de animal é você?! Respeito! Há copos aqui que tem três vezes a idade desta repugnante América! Vasos que têm a marca dos lábios dos doges. E você, de que buraco saiu para dizer tal blasfêmia? Respeite-os, pois sua presença os envilece! Estes copos são as joias da coroa onde não há monarquia!

Pôs a mão no rosto enquanto Giacomo ia para o fundo da sala e voltava com um livro.

— Aqui tem o catálogo. As peças são todas numeradas. Sua função, a partir de agora, é estudá-lo e aprender a escolher os copos certos para cada ocasião. Sempre dois: um para você e um para a governadora. Aqui estão as chaves da porta. Pode dormir aqui se quiser, mas não recomendo por conta da umidade. Se precisar de mim, fico no último andar da torre direita, com os pombos.

E Giacomo afastou-se.

O rapaz ficou lá, lendo o catálogo. Além do código e da descrição, havia eventuais desenhos a nanquim com detalhes. Alguns copos eram romanos; outros, egípcios, gregos, venezianos, espanhóis da corte de Carlos V, alemães do uso pessoal de Bismarck.

Muita coisa. Realmente muita coisa.

234. A república naufragada

'Alegoria da República' (1896), de Manoel Lopes Rodrigues

Fala-se muito que as instituições estão falidas. Falência moral, não obstante a financeira. Escola, polícia, Congresso, assembleias legislativas, ministérios, prefeituras, tribunais; instituições que estavam falidas em 1930, em 1964, em 2002. Hoje, estão naufragadas. As pessoas perderam a noção das reais funções de tais organismos. Além de não representarem mais nada para a população, são vistos e tratados como “clubinhos”, principalmente os três níveis do legislativo. Um clubinho em que o corporativismo é lei suprema.

O caso Grecco é espelho dessa situação. Primeiro, optou-se manter o vereador na Câmara — certo que com uma votação apertada, mas ficou. Agora, com sua condenação em primeira instância, tentam um “acordo de cavalheiros” para que o vereador saia à francesa. Primeiro, o corporativismo de defendê-lo; agora, o corporativismo de defender o todo do “corpo estranho”.

Rejeitamos tais comportamentos. Indignamo-nos. Rangemos dentes. Porém, é bom lembrar: os políticos são do mesmo estofo que nós. E não apenas as mesmas tripas, mas o mesmo estofo ideológico: são um retrato inclemente da nossa insensatez, do nosso “jeitinho”. A culpa é nossa também, os vícios vêm de nós, pois aqueles que ocupam funções públicas vêm do povo e são lá postos pelo povo.

Muitos de nós já subornamos o guarda para não levar multa. Ou tentamos transpor algum obstáculo burocrático com a ajuda de “pistolão”. Burlar uma norma de trânsito, uma regra institucional ou a prática do peculato e do crime eleitoral têm, em última análise, a mesma semente, a mesma amoralidade, a mesma natureza delituosa, independentemente da abrangência do ato.

* * *

Texto publicado na Tribuna Impressa de Araraquara de 6/3/2012. Também no Araraquara.com.

233. Fábula, parte II

Parte I aqui.

* * *

II

Acordava e ficava no banheiro do gabinete do secretário da Casa Civil, transformado em sala de estudos. Sempre que ia urinar, o secretário perguntava como estavam os estudos. O rapaz estava sempre às voltas com grandes filósofos e grandes teóricos da economia. O banheiro de estudos não tinha janela e o secretário, por conta da idade, tinha uma péssima mira, o que enchia o chão de poças de urina, quando não respingavam sobre o rapaz.

A cada micção, o secretário palestrava sobre um tema:

— A invasão holandesa…! Grande Maurício de Nassau!

Vários temas.

— O fuzilamento do imperador Maximiliano… Salazar… o plebiscito de 1946… a fundação da União Sul-Africana… Vida e obra de Johann Sebastian Bach… Mem de Sá… a proclamação da República.

O rapaz ficou meses lendo dentro do banheiro. Leu de tudo. Do pouco utilizado código do partido a Marx. Gramsci. Aprendeu rudimentos de inglês. Conhecimentos necessários para construir seu novo passado. No meio de uma de suas leituras, teve a impressão que jamais saíra daquele banheiro. Toda sua vida pregressa, a miséria, o porre de dias pelo meio do mato e sua companheira desdentada pareciam estórias, contos perversos. Sentia-se um novo homem; estava pronto ao papel que a vida lhe destinara. Sentia a mão de Deus.

Em uma agradável tertúlia filosófica no balcão do gabinete — era a primeira vez que o secretário concedia-lhe tal honraria — comunicou suas impressões ao tutor, que ficou radiante de contentamento.

— Ah, mas que rapaz! Fantástico! Tão logo possível, o inscreveremos para receber uma comenda.

Providenciou-se sua ida a um meeting do partido. Na sala abafada da sede da agremiação, cerca de cem jovens falavam de moral, de tradição, de justiça social. Após algumas deliberações da mesa, o rapaz pediu a palavra. Os membros da mesa já estavam devidamente azeitados por verbas vindas do estado e permitiram a alocução do novato.

— Amigos. Camaradas. Companheiros. Nós, da juventude do partido, não podemos permitir que a oposição nos ultraje como tem feito não apenas na assembleia do Estado, mas também no parlamento federal. Urge que tomemos providências. Eles ficaram oito anos no governo e não fizeram nada pelo povo. Nós, em quatro, quanto não fizemos? Nossos programas de transferência de renda… idealizados pela nossa governadora, luminar da ciência política. Eles querem desmontá-los para, novamente, ter a população amedrontada, qual malta de famintos e esfarrapados. Precisamos fazer com que eles entendam o recado, que nos deixem trabalhar! Precisamos de maiores prerrogativas legais que nos permitam ampliar nosso auxilio aos desvalidos. É obrigação do poder público garantir as condições de subsistência da população… nem que para isso tenhamos de revolucionar a sociedade, fazê-la entender que o direito dos povos não pode ser limitado por meros garranchos no papel, traçados por legisladores elitistas e opressores. O poder emana do povo, por isso, temos de assim fazê-lo, sem que seja a ferro e fogo! Devemos torná-lo efetivo… verdade efetiva!

Não conseguiu prosseguir por conta da violenta ovação que se seguiu. Rapidamente o convidaram para a mesa e, ao fim de três reuniões e outras tantas falas vigorosas, foi eleito secretário-geral das Juventudes do Partido.

No mesmo compasso da sua primeira eleição, foi transferido do banheiro do secretário da Casa Civil para o closet da governadora, onde podia manter uma pequena estante com obras de sua predileção, devidamente autorizadas e editadas ad usum Delphini por seu tutor. Também lhe fora conferida liberdade para circular pela sala quando não havia visitas, audiência ou reuniões.

— Estou orgulhosa de você, meu filho.

— Obrigado, Excelência.

— Tenho ainda dois anos de governo. Você começará a aparecer mais comigo, em funções públicas.

Não pôde deixar de estremecer um pouco. Uma coisa eram as Juventudes, ânimos moles como manteiga, moldáveis, açucarados; nos quais era fácil infundir explosões controladas. Outra era pôr-se diante dos vingativos deuses políticos, das raposas velhas da oposição, dos monstros dos subterrâneos do parlamento, que organizavam a política estadual sem pôr o nariz para fora de suas salas, apenas com o poder do nome e um arquejar de sobrancelhas.

A governadora sentiu o receio no silêncio.

— Não se preocupe. É uma função meramente decorativa e você sempre estará assessorado. Ou por mim mesma, ou pelo secretário da Casa Civil. Você será suporte-geral. Estará ao meu lado nas reuniões, coletivas, meetings, comícios…

— Mas, Excelência… o que suporta exatamente o suporte-geral…?

— Não se preocupe. Antes da sua nomeação você fará um estágio com o Giacomo, do Cerimonial. Ele vai lhe ensinar todo o necessário.

— Certo. E onde eu o encontro?

— Em lugar algum.

A conversa acabou ali. A governadora retirou-se e o rapaz foi dormir no closet. Além da história do tal Giacomo, atrapalhava-lhe o sono um estranho e tênue brilho que ele percebeu sair de um dos livros na estante. Pegou-o no escuro e conseguiu identificar que era “O Príncipe”, o tratado político de Nicolau Maquiavel.

232. Fábula, parte I

I

Foi numa tarde quente em que o ar-condicionado estava quebrado que a governadora solteirona teve uma ideia para sua sucessão. Saiu do gabinete e pediu que o motorista a levasse a uma favela na borda da capital, Vila Maquiavel.

Desceu do carro sozinha e caminhou até a frente da última casa da rua. Bateu no portão feito de latas de óleo abertas e amarradas umas às outras. Um rapaz macilento e com olheiras abriu o portão, espantado em ver aquela mulher de tailleur. Não devia ter mais de 20 anos.

— Filho!

— Eu não tenho mãe.

— Tem sim, sou eu.

— Não, a senhora não pode ser a minha mãe. Minha mãe não me deixaria na penúria em que estou ou, pelo menos, estaria aqui comigo… ou estaríamos em outro lugar.

— Eu sou sua mãe. Posso provar.

O rapaz olhou para a mulher não sem certa ressalva.

— Vamos lá.

— Quando eu era jovem, fiz muitas burradas antes de me tornar uma mulher com um pouco mais de cérebro. Uma delas foi ter deitado com um porco…

— Verdade, tem cada homem que é…

— Não, não. Um porco efetivamente.

— A senhora só pode estar brincando! Vamos, deixe-me curtir a miséria em paz! — e tentou fechar o portão. A governadora pôs o pé e impediu.

— Deixe-me acabar, dizer o que vim lhe dizer e, depois, você tire suas conclusões.

O rapaz aquiesceu com um gesto e um ruído.

— Muito bem. Deitei-me com o porco… por conta de uma aposta. Perdi. Apostei com amigas que conseguia beber mais doses de tequila que elas sem vomitar. Perdi. Mas uma delas perdeu o fígado aos poucos, com uma cirrose, ao longo de dolorosos anos.

— Sim… e onde eu entro?

— O pior aconteceu. Fora as escoriações de ter sido montada pelo cachaço a mão esquerda perfurada por um casco, engravidei do porco.

O rapaz tinha os olhos incrédulos e indignados. A governadora continuou.

— Escondi a gravidez até o terceiro mês, mas logo ficou óbvia. Meu pai, pastor de um ramo muito conservador do protestantismo, me fez tirar o feto. Mas tive ajuda de uma turma do laboratório da universidade onde eu estudava. Eles tinham um projeto que consistia em desenvolver os fetos em grandes potes de vidro, alimentando-os por sondas que atravessavam as tampas e faziam as vezes de cordão umbilical. Fui operada e, em vez de abortar, doei o feto àquele grupo de pesquisa. O meu filho, depois de se desenvolver no pote por seis meses, foi criado na creche de funcionários da universidade. De dia, brincava com as outras crianças e, à noite, ia dormir no laboratório, dentro do armário em que guardavam os animais em formol.

“Tempos depois, quando meu pai morreu e meu filho estava com quatro anos, fui resgatá-lo da creche e que surpresa quando descobri que há uma semana ele não aparecia para brincar. Procuramos por toda parte eu e a turma do laboratório. Interditamos o campus, procuramos no diretório dos estudantes entre os hippies que fumavam maconha, nas cátedras das múmias falantes e nada. Meu filho havia desaparecido.

— Muito bem — disse o rapaz após prestar atenção à história toda —, e onde eu entro nisso? Moro na rua desde que me entendo por gente e nunca tive mãe.

— Olhe para mim, rapaz. Não pareço familiar?

— A senhora me é familiar… mas não consigo lembrar de onde.

— Sou governadora do estado.

— Ah! É por culpa sua que estamos nessa situação então. Obras incompletas, desemprego galopante. Sabe quanto tempo estou desempregado? Desde que tenho idade para trabalhar! Vivo recolhendo pedaços e lata e esperando que caminhões com comida tombem na rodovia. Da última vez, foi um caminhão de cerveja. Bebi feito um louco e vaguei bêbado por três dias no meio da mata… acordei num riacho, todo lanhado e com feridas…

— Pois bem. Isso vai acabar. Venha comigo, quero fazer de você meu sucessor…

— Mas eu tenho a minha mulher aqui…

— Deixe-a aí, não vai mais precisar dela.

Pensou um pouco. A moça havia aparecido após o episódio da cerveja e disse estar grávida dele. No final, viu-se que era apenas um caso agudo de obstrução intestinal. Não a punha para fora de casa por dó. A ela, faltavam-lhe dois dentes da frente e tampouco era muito de banho.

— Prefeito. Eu vou.

Entrou no carro com a mãe e foram embora. O filho ainda teve tempo de ver a moça sair pelo portão e gesticular loucamente, em sinal de graves imprecações.

— Não se preocupe. — Limitou-se a dizer a governadora.

Chegaram ao palácio e a mandatária colocou o filho na mão das empregadas:

— Deem um banho nele e ponham-lhe roupas boas. No armário do secretário da Casa Civil tem uns ternos italianos que o secretário não usa mais.

As empregadas, sete, levaram o filho para o porão onde, numa tina, prepararam-lhe um banho. Ficaram intrigadas com duas coisas: os pelos do peito, axilas, pernas e púbis eram rígidos e, em algumas áreas, mudavam de cor entre o branco e o castanho. Também se impressionaram com o tamanho do pênis do rapaz.

— Tonha, você viu aquilo? Deve ter uns 35 centímetros duro…

— Eu vi. Fique quieta. Talvez ele fique aqui conosco. Sabe Deus porque a governadora o trouxe para cá. Se ficar conosco, pedimos um decreto de tombamento e ele será nosso…

Deram-lhe banho e vestiram-lhe. Parecia menos macilento já. Deram-lhe de comer coisas que ele nunca vira: lagostas, canapés, caviar e vinho do Porto. Tomou três garrafas e foi dormir no sofá da famulagem. Acordou acossado por empurrões, era a governadora-mãe.

— Está pronto, meu filho?

Levantou-se e seguiu a mãe por vários corredores escuros e abafados.

— As luzes estão apagadas porque corremos riscos de apagão. Venderam muitos eletrodomésticos para os pobres. Não podem ter dinheiro ou algo que pareça dinheiro nas mãos que se entopem de eletrodomésticos. Até mesmo ar-condicionado!

Batentes de madeira escura. Tapetes vermelhos com detalhes em amarelo. Pequenos aparadores com flores frescas. E os corredores não acabavam.

Finalmente um longo fio de luz. Entraram numa sala: uma grande mesa oval à beira da qual havia vários senhores em bons ternos. À entrada da governadora, levantaram-se. O mais velho da mesa, com ares de burocrata alçou a voz:

— E esse, Excelência, quem é?

— Meu filho e sucessor, senhor Rodrigues.

— Mas como se a senhora sequer é casada. Que filho?

Sem um pingo de constrangimento, a governadora contou a história de ter deitado com um porco na juventude. Todos aqueles senhores, agora sentados, ficaram lívidos. Ao fim do pronunciamento, o Sr. Rodrigues atalhou.

— Todos fazemos das nossas. Quando jovem, na faculdade de Veterinária, deixei-me sodomizar por uma iguana. Ela entrou inteira; o ruim foi que ela morreu lá dentro. Até hoje tenho escamas cravadas na parede do intestino.

— No sítio em que nasci — emendou o secretário de Obras Públicas — enrabávamos as cabras.

E a reunião prosseguiu num tom cordial e amigável, promovido pelo uísque, em que aqueles homens públicos fizeram público seu passado bestial.

— Deitei com todas as minhas primas! — disse o secretário de Recursos Hídricos — Até com a mais feia, que parecia uma fuinha assustada.

Até que foram cortados pela governadora.

— Mas eu quero apresentar meu filho e sucessor: ele.

Fez com que o filho andasse pela sala. Ele estava um pouco vacilante. Estava calor e as costuras do terno pinicavam. O ar-condicionado estava quebrado. Deu umas voltas. Ensaiou um sorriso tímido e, quando a mãe fez sinal, sentou na cabeceira oposta da mesa.

— O partido jamais o aceitará. — Sentenciou o secretário de Transportes.

— Ele não tem o porte adequado. — Disse o secretário de Finanças.

— Calma, senhores. — Pediu a governadora. — É uma questão de tempo. Óbvio que se eu chego agora e o mostro como sucessor, seria uma sandice. Primeiro, filiei-o ao partido. Já fiz isso enquanto ele dormia. Depois, ele vai militar um pouco, galgar alguns degraus com a nossa ajuda e, para tal, fica nomeado o secretário da Casa Civil como tutor do meu filho.

— É com muito prazer que aceito, Excelência.

Assim, o rapaz dormia num quartinho, nos anexos do palácio destinados à famulagem. Dividia o sono como esfregões e baldes. Não raramente, a parte feminina da criadagem ia vê-lo dormir e observar o volume sob as calças do pijama.