254. Fábula VIII

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* * *

VIII

Não precisou de muito tempo. Logo o rapaz ouviu batidinhas na porta.

— Entre.

Um senhor. Lembrava vagamente o Giacomo dos copos.

— Sou o secretário de finanças. Muito prazer.

— Curioso, o senhor me lembra outra pessoa e não me lembro de tê-lo visto nas reuniões do gabinete.

— A secretaria de Finanças, meu jovem, é mera decoração. Sinecura para velhos como eu; ou você realmente acha que o calhamaço do Orçamento do Estado é seguido? Não fazemos ideia de quanto é arrecadado, de quanto é gasto; se há déficit ou superávit é uma questão de manipulação de índices para certos interesses.

O rapaz observava.

— Dedico meu tempo livre à marchetaria; faço lindas caixas para guardar o dinheiro que não existe. Sabe, rapaz, dinheiro também é algo que não existe. Não importa quanto dele você tenha no bolso agora: ele não existe. O que você tem é tão significativo quanto figurinhas de chiclete. Logo, para que controlá-lo? Ainda existe uma certa paranoia por parte do Fundo Monetário, mas os setores mais jovens sabem que é pura besteira. Basta imprimir papel; mas ele deve ser considerado sagrado, depositário de real valor. Incrível como o homem, que se diz moderno, se deixa mesmerizar por pedaços de papel ou por algarismos na tela do computador. Incrível.

Sentou-se em uma poltrona, próximo à lareira.

— Vejo que você é diligente. Mas não se esqueça de recolher as cinzas. Sairemos eu e você para espalhá-las… incomoda-se se eu fumar? São cubanos, pegue um. Vamos ao que interessa: precisamos do seu inimigo particular e, ah, meu amigo, vai ter de ser grande. O partido está desgastado… assim como o engenho pôs em minhas mãos a arte de trabalhar em madeira, em finíssimas pranchas de madeira, também me deu o engenho necessário para criar monstros com toda verossimilhança. Faço isso há anos. Estou no partido faz tempo, mas já o fiz também para a oposição e até mesmo para partidos que não existem mais. Vamos, as cinzas já estão frias. Ponha-as nesta caixa de charutos e vamos. Temos uma longa jornada.

*

Saíram de carro. Não oficial, mas um carro particular comum. O secretário de Finanças dirigia. Logo deixaram o perímetro urbano da Capital, a última coisa que o secretário da Casa Civil viu foi a placa indicando a Vila Maquiavel.

— Um antro fétido de pobretões.

Percorreram algumas dezenas de quilômetros e pararam num portão vigiado por guardas.

— Governo Estadual. Secretários de Fazenda e Casa Civil.

Os guardas levantaram a cancela.

O carro andou por mais alguns quilômetros por uma estrada estreita, ladeada de exuberante vegetação. Os mandatários chegaram a uma clareira onde se erguia um complexo ruinoso. Parecia a torre de refrigeração de uma central nuclear.

— Aqui funcionava a única central nuclear do Estado, desativada há uns vinte anos por pressão do nosso partido. Simulamos um acidente e hoje todo o perímetro de 15 quilômetros é isolado do mundo. Quase ninguém se lembra da central. Como nos aparelhamos do Estado todo, a transformamos numa espécie de quartel-general, o pessoal que trabalha aqui é do submundo político. Pegos em alguma falha, dizemos que fugiram do país, mas, na verdade, ficam aqui e continuam trabalhando sem o menor incômodo. Nem os guardas da portaria sabem do complexo, pois não têm autorização para entrar.

Desceram do carro e entraram no prédio principal; muitos lances de escada. Chegaram diante de uma porta de aço, como aquelas de submarinos.

O secretário de Finanças pigarreou e disse:

— Vae victis, Teteia!

Rapidamente a porta estalou e começou a abrir-se!

— Ora como vai? Vejo que trouxe alguém consigo.

— É o sucessor.

— Um pouco novo demais, não?

— Mas arguto o suficiente. Está sendo lentamente iniciado.

— Entrem, entrem.

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