250. Fábula VII

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VII

“Nasceu em 20 de maio de 1984 em Vilafranca de Taquarembó, no seio de uma família de agricultores. Começou cedo nas lidas do campo, ajudando os pais e os seis irmãos. Logo tomou consciência de sua condição injusta e buscou seus direitos políticos, ingressando, aos 12 anos, nas Juventudes do Partido. Militou por várias causas justas e nobres como a defesa do uso da maconha, contra os abusivos aumentos da passagem de ônibus e contra a crescente elitização do nosso ensino superior, que antes da assunção do Partido ao poder, somente era franqueado aos filhos da elite dominante.

De todas essas glórias, foi aclamado presidente das Juventudes do Partido, segurador-mor do Cerimonial do Governo do Estado e, agora, Secretário da Casa Civil, posto de suma importância dentro da administração estadual.

O secretário, por conta de suas origens, é pessoa humilde, mas não simplória. É amigo cordial e objetivo, características que não impediram seu desenvolvimento intelectual e seu agudo raciocínio, sendo leitor ávido dos grandes teóricos do socialismo.

[…]

Certa vez, em uma festa do grêmio estudantil, vestiu-se de Karl Marx, quase enganando os colegas de curso […]”

O resto tratava de detalhes inúteis como datas, nomes de escolas e colegas de infância. Era ler e decorar.

*

Em cerca de 20 dias de estudo profundo do documento, sentiu-se em condições de livrar-se dele. Lera-o com tanto afinco que personificara o escrito. Era como se fosse sua história real; frente a algo tão bem alinhavado, a outra perdia viço e cor. Não acreditava que bebera tanto a ponto de correr pelado pelo meio do mato. Balançava a cabeça em sutil sinal de reprovação.

Acendeu a lareira e jogou o documento às chamas.

Nesse instante, chegou a secretária particular:

— Senhor secretário: correspondência.

E depositou sobre a mesa um envelope sem remetente. Abriu-o. Uma folha datilografada.

“Caro colega,

É uma honra tê-lo entre nossas hostes da verdade e da justiça. É com prazer que me vejo seu colega e seu tutor — missão confiada pela nossa excelsa governadora.

Gostaria de dizer, em primeiro lugar que, para o exercício efetivo do poder no nosso País não bastam as instituições, o parlamento, as assembleias. São meros aparatos superficiais. Joguetes de criança. O que realmente governa é um hábil jogo de tensões feito pelas pessoas certas, sem vínculos aparentes. Veja: não precisamos gente dentro das redações de jornal, mas temos meios de fazer com que rezem pelo nosso catecismo.

Algo importante é a necessidade de um inimigo à mão. Povo seguro de si não cai em qualquer conversa; por isso, precisamos de inimigos reais ou imaginários. Os mais facilmente demonizados são a oposição e a imprensa — basta que não rezem pelo nosso catecismo. Há outros mais complicados. Vizinhos, disputas territoriais; mas esses ficam para os casos extremos.

Espero vê-lo em breve.

Um grande abraço,

O secretário de Finanças.

P.S.: queime a carta após a leitura.”

A carta foi juntar-se à biografia que ardia na lareira. Inimigos, uma conveniência, quem diria!

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