247. “Veredicto em Canudos”, Sándor Márai

Sándor Márai (1900-1989), escritor húngaro

“Um dia comecei a escrever sobre o que acreditava ter ficado ‘de fora’ do livro de Euclides da Cunha — ficara de fora, mas ‘poderia ter sido assim’.” Dessa maneira, com palavras do próprio autor, podemos definir o romance húngaro “Veredicto em Canudos” (Ítélet Canudosban, no original magiar).

Sándor Márai, alicerçando a narrativa a partir de uma tradução americana de “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, recria um instante: o estertor do povoado erguido na poeira do Sertão pela fé — loucura? — de Antônio Conselheiro, sem nunca sequer ter pisado no Brasil. O tempo da ação é preciso: “entre as cinco da tarde e as nove horas da noite” de 5 de outubro de 1897, dia anterior à erradicação do povoado.

Narrado em primeira pessoa pelo protagonista — um veterano da guerra que trabalha na Biblioteca Mário de Andrade em São Paulo e possuidor traços singulares —, o romance é uma grande metáfora entre a pretensa sanidade e a aparente loucura, encarnadas respectivamente pelo então Ministro da Guerra — personagem real — e uma estranha mulher emergida da cidadela, como tantas outras almas, mas que, surpreendentemente, conversa em inglês com a autoridade.

Traduzido do húngaro por Paulo Schiller, a obra mostra-se importante adendo ao monumento euclideano, principalmente em seu fator mais humano e por sua universalidade.

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Publicado no Painel Cultural da Tribuna Impressa de Araraquara (18/3/2012).

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