246. Fábula, parte VI

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VI

Quanto às indagações que a imprensa fazia sobre a biografia do novo secretário da Casa Civil, o setor de inteligência da Polícia — devidamente aparelhada com membros do partido — produziu um documento de alto sigilo. Na verdade, foram histórias aleatórias escritas por dezenas de funcionários sem que soubessem do que se tratava. Depois, de duas em duas, foram mescladas por terceiros, que não sabiam quem eram os primeiros. Depois, uma nova mescla por outras pessoas e, finalmente, três documentos foram fundidos por um computador automático. O secretário da Casa Civil recebeu das mãos da governadora um documento lacrado e explicou-lhe as condições de produção.

— Leia-o e decore. Mantenha-o no cofre do seu gabinete, o que existe no assoalho, debaixo as sua cadeira. Assim que o ler, queime-o na lareira, recolha as cinzas, macere-as e espalhe-as cada punhado em lugares diferentes.

— Perfeito…

— Argh! Que cheiro estranho que está nessa sua sala. Não me diga que as baratas vieram visitá-lo já?

Explicou à mãe a invasão da sala pelas bases do partido.

— Elas são assim. Nojentas (nem se importam com esse insulto; consideram-no, antes, um elogio). Mas ninguém governa sem elas. Basta manter as escolas com os estoques de açúcar e jornal velho e elas não incomodam. Não têm sede de poder, apenas usam de suas prerrogativas para viver em paz.

E saiu da sala.

Agora instalado no gabinete que foi de seu tutor, trancou a porta e abriu o envelope. Poucas folhas, cerca de 20. Ia começar a leitura quando sentiu baterem à porta. Enfiou rapidamente a papelada na gaveta e destravou a maçaneta.

— Pois não?

— Perdão, senhor secretário. Entrega para o senhor. É de uns amigos.

Agradeceu e pegou o pacote. Fino, chato e retangular.

— Será um livro?

Rasgou o papel e u’a moldura continua os seguintes dizeres entalhados:

“Ler o que aparecer, ver o que apetece e assinar o que convier.”

Ergueu os olhos e nos entalhes de madeira do teto, viu uma espécie de nicho que apenas era visível por quem se sentasse na cadeira ou olhasse desde a janela para aquele ponto. Pediu uma escada e ele mesmo encaixou a moldura ali, e parecia que ela fora feira exatamente para ficar ali. Ele a empurrou com as mãos até que ouviu um clique. A madeira da moldura era do mesmo tipo da do forro.

Feito aquele trabalhinho, sentou-se na cadeira e, olhando para o teto, a moldura parecia mostrar algum trecho das Escrituras no teto das igrejas. Pegou novamente a sua biografia para ler.

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