239. Cor, gosto e raciocínio

Os três homens azuis. Não sei exatamente o que fazem; nunca os entendi

“Sobre cor e gosto, não se discute”, avisa o dito latino medieval. Basta nos lembrarmos da dificuldade que temos com certas nuanças de cor. De gosto então, basta recorrer ao lugar-comum: “cada um tem o seu”.

Se gosto é algo tão particular e variável, não pode ser argumento válido em uma discussão séria. Digo isso porque nós, brasileiros — e também a Latinidade como um todo —, nos valemos de nossos gostos — ou até um “gosto coletivo” — para desclassificar oponentes que também insistem em sustentar gostos como bandeiras.

Na faculdade de Letras, vi uma cena que ilustra bem o fato. Durante uma aula de Literatura Italiana, o professor perguntou o que cada um havia lido da Literatura peninsular antes da faculdade. Respondi que, desde pequeno, gostava de Dom Camilo, personagem de pelo menos três livros de Giovannino Guareschi. O professor cofiou o bigode e disse que Guareschi não era Literatura; porém, a expressão do rosto o traiu: não gostava simplesmente daquele autor porque a obra mostrava certo alinhamento com o pensamento da Democracia Cristã italiana e o professor gostava dos escritores mais à esquerda, como Italo Calvino e Cesare Pavese. Uma questão extraliterária.

De outra feita, presenciei uma discussão entre dois “filosofeiros”, cada um tomou partido pelo seu sábio incensado. Depois de raivosas réplicas e tréplicas, um deles simplesmente disse: “Não gosto de Herr Fulano”.

Não basta dizer “não gosto” a objeções. Não podemos ficar no “não gosto”. Há gente que diz “não gosto do partido X” como “não gosto de berinjela” ou “não gosto do Corinthians”. O pensamento não pode guiar-se por tanta irracionalidade.

* * *

Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 10/3/2012 e também no Araraquara.com.

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2 Comentários

  1. Roberto Perez

     /  10/03/2012

    O que poderíamos chamar de “elemento antipatizador” é essencial. Pode ser uma oração subordinada (porque) ou uma expressão facial ou qualquer outra coisa. Quando não se gosta, há necessidade de se explicar. Já quando se gosta, não.
    Por exemplo: eu gostei do texto, mas não sei por quê.

    Responder
  2. Sérgio F. Mendes

     /  10/03/2012

    Verdade. Mas, em alguns aspectos, também o “gostar” precisa ser explicado. Claro que na esfera doméstica é absolutamente desnecessário, mas em algumas ocasiões o “gosto”/”não gosto”, mesmo que camuflado, não pode ser argumento.

    Responder

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