238. Fábula, parte IV

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IV

A investidura do rapaz como suporte-mor não foi muito interessante. A governadora o fez ler um juramento de praxe. Estavam alguns membros do gabinete (não todos), uns deputados da bancada governista e alguns membros da Juventude do partido.

Estava com uma samarra de colheres e um capelo feito de copos. A minguada assembléia deliberou que ele gastasse umas palavras. Palavras de praxe que tampouco despertaram a atenção. Apenas os membros da Juventude anotavam freneticamente o que ele dizia.

Deixou o closet e foi instalado em um escritório que ocupava meio pé direito, na torre esquerda. Também teve direito a um secretário, que escolheu entre a Juventude.

Sua primeira aparição ao lado da governadora sim foi um acontecimento. Foi a recepção de um governador de outro Estado, mas do mesmo partido. Roubou a cena. Saiu nas capas dos jornais; em todas, segurava elegantemente os copos. Pediu exemplares de todos os jornais, recortou-as e colocou-as em portas-retratos em sua mesa.

Seu cotidiano pouco se alterou. Recebia as aulas-micção do secretário da Casa Civil que, para as palestras, levava um fino urinol em estilo Luís XVI e urinava veementemente.

— A Vulgata… o Patrimônio de São Pedro… o Estado Novo.

Para dormir, havia um quarto anexo ao escritório. Um cubículo em que apenas cabia uma cama em 30 graus. Não era rara a manhã em que ele acordava aninhado no ângulo formado entre a cama e a parede.

Recebia membros das Juventudes que lhe pediam favores. Uma sinecura para um irmão aleijado, um médico para a tia maluca, dinheiro para comprimidos. Granjeava. Algumas petições eram atendidas; outras estava fora do seu alcance.

No tempo livre, jogava baralho com o secretário, que lhe ensinara escopa.

*

Bons meses assim se passaram. Recepções, almoços. Sempre com os copos à mão. Esticava os lábios para beber, estalava a língua apreciava qualquer líquido que ali estivesse, mesmo que fosse urina de bode, como uma vez efetivamente foi.

Uma noite, retirou-se morto de cansaço para seu cubículo. Quase adormecia quando percebeu um incessante raspar que ia aumentando de intensidade. Milhares de coisas raspando no chão do escritório.

Abriu a porta e viu que o chão estava coalhado de baratas. Não havia onde pôr o pé; não se via o carpete. Subiam pela mesa, pelas cadeiras.

Quando saiu do pasmo e pensou em gritar por auxílio, um grupo de baratas adiantou-se e subiu na parede. Organizaram-se. Começaram a escrever uma mensagem na parece, usando seus corpos achatados e marrom para formar letras e logo palavras.

“Somos o Comitê de Base do Partido. Ninguém governa sem nós. Hoje somos deste partido; amanhã, seremos do partido que estiver no poder. Mesmo assim, sabemos que o partido começa um período longo de domínio. Quarenta, cinquenta anos. Fazemos parte desse projeto; fazemos parte de todos os projetos de poder. Somos cérebro, somos resistentes. Somos muito mais do que você pode imaginar.”

As baratas haviam liberado uma cadeira para que o rapaz se sentasse. Ele permanecia mudo, apenas lendo as mensagens que se formavam na parede. A casa mudança de texto, um sapatear ensurdecedor.

“Viemos aqui pare selar um pacto com você. Dominamos não apenas o partido, mas também a Assembleia. Nenhum secretário faz nada sem nossa anuência. Somos a revolução que entra por baixo das portas das pessoas. Sabemos tudo, temos agentes em todas as casas do Estado; de todas as casas da república. Nós somos a república e lei, meu jovem, e, para governar, terá de compactuar conosco.”

O rapaz saiu do pasmo.

— Muito bem. Entendi o que vocês são e o que querem. E como podemos tratar tudo isso?

As patas pretas começaram a agitar-se sobre a parede novamente.

“Não nos procure. Escute bem os conselhos dos secretários da governadora. São nossos porta-vozes. Lembre-se que os impérios regem-se sempre pela tirania. Nós somos essa tirania. E não se esqueça de manter as escolas sempre abastecidas com açúcar e jornal velho; é lá que nos alimentamos e doutrinamos a população.”

Findada a última palavra, as dezenas de milhares de baratas saíram rapidamente da sala em tropel. Um cheiro seco empestava o ar. Voltou para o cubículo e tentou pegar no sono. Dormiu mal. Todo o sono estava povoado por baratas de cartola de dançavam e faziam exigências cantando. Acordou suado. O cheiro seco da sala penetrara também no cubículo.

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