235. Fábula, parte III

Parte I * Parte II

* * *

III

Ele apenas lia no closet e não ouvia um único rumor do gabinete. Leu durante dias seguidos. Sua mãe não o viera ver. Tampouco apareceu o secretário da Casa Civil. Achou que o tinham largado ali. Quando pensou em sair, a porta do closet abriu-se sozinha: um velhinho de fraque estava na soleira.

— Perdão, quem é o senhor?

— Giacomo di Momparnaso, ao seu dispor, sire.

Demorou alguns instantes para reconhecer o nome. Sem esperar resposta, o ancião fez sinal para que o rapaz o seguisse.

Foram os dois, o rapaz logo atrás do velho, passando por corredores escuros, em direções ainda desconhecidas. A escuridão era quebrada intermitentemente por frestas luminosas de portas e pela voz cansada e pausada, que narrava uma história truncada.

— Nasci em algum ponto da Calábria… Desconheço qual seja. Ou talvez na Dalmácia, em Ragusa. Não conheci meus pais. Não há saudades. Cresci em Florença, pescando no Arno e nadando nas enchentes. Vivíamos sujos e piolhentos; comíamos restos do lixo. A coisa toda mudou quando conheci um homem que era vidraceiro. Vidro artesanal. Fazia copos, copos maravilhosos, coloridos. Soprava o vidro quente e, ecco!, uma jarra, um ovo, um elefante, um copo… aprendi o mister, tornei-me vidraceiro também, mas comecei a me indignar da maneira como as pessoas tratavam os copos.

O rapaz sentiu que Giacomo o pegara pelo colarinho do paletó e falou-lhe quase ao pé do ouvido, com voz rouca:

— Toda vez que vidro se quebra, um anjo do Senhor chora. Entende?

Largou-o.

— Durante a guerra, tive de ficar escondido num porão. Não havia um copo de vidro. Tinha de tomar água num vaso de barro. Sempre escondido. Emigrando em 1944.

Continuavam andando por corredores. Agora, eram escadas; desceram muitos lances e pararam diante de uma porta de madeira. Um cheiro forte de umidade. A luz se fez e o rapaz pôde ver a porta e Giacomo, com a mão o interruptor. As paredes eram de pedra.

— Estamos nos porões do palácio. Há 200 anos, aqui ficavam os prisioneiros. Hoje, são usados como adegas e uma das caves é o meu escritório.

Entraram no escritório. Cinco metros de pé direito com prateleiras cheias de copos dos mais variados tipos e feitios. Giacomo deteve-se a mostrar os principais; o rapaz ficou sabendo que há copos para os mais variados usos. Descobriu ainda que o suporte-mor era o encarregado de escolher e segurar copos ao lado da governadora.

— Segurar copos? Como um garçom?

— Não, tonto! Para si mesmo, mas para valorizar o copo e o vidro. É uma função muito estimada pelo governo do Estado desde muito tempo.

Na parede, além das prateleiras, retratos a óleo descascados mostravam os que haviam sido guarda-copos.

— O guarda-copo é o responsável pela guarda deste tesouro pelo uso dele.

— E eu vou segurá-los?

— Não apenas. Você tratará esses copos como deuses que permitem a ingestão de líquidos. Sem eles, você morreria de sede…

— Mas posso tomar água com as mãos em concha e…

Foi interrompido por um sonoro tapa.

— Sem filosofias, herege! Que tipo de animal é você?! Respeito! Há copos aqui que tem três vezes a idade desta repugnante América! Vasos que têm a marca dos lábios dos doges. E você, de que buraco saiu para dizer tal blasfêmia? Respeite-os, pois sua presença os envilece! Estes copos são as joias da coroa onde não há monarquia!

Pôs a mão no rosto enquanto Giacomo ia para o fundo da sala e voltava com um livro.

— Aqui tem o catálogo. As peças são todas numeradas. Sua função, a partir de agora, é estudá-lo e aprender a escolher os copos certos para cada ocasião. Sempre dois: um para você e um para a governadora. Aqui estão as chaves da porta. Pode dormir aqui se quiser, mas não recomendo por conta da umidade. Se precisar de mim, fico no último andar da torre direita, com os pombos.

E Giacomo afastou-se.

O rapaz ficou lá, lendo o catálogo. Além do código e da descrição, havia eventuais desenhos a nanquim com detalhes. Alguns copos eram romanos; outros, egípcios, gregos, venezianos, espanhóis da corte de Carlos V, alemães do uso pessoal de Bismarck.

Muita coisa. Realmente muita coisa.

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