233. Fábula, parte II

Parte I aqui.

* * *

II

Acordava e ficava no banheiro do gabinete do secretário da Casa Civil, transformado em sala de estudos. Sempre que ia urinar, o secretário perguntava como estavam os estudos. O rapaz estava sempre às voltas com grandes filósofos e grandes teóricos da economia. O banheiro de estudos não tinha janela e o secretário, por conta da idade, tinha uma péssima mira, o que enchia o chão de poças de urina, quando não respingavam sobre o rapaz.

A cada micção, o secretário palestrava sobre um tema:

— A invasão holandesa…! Grande Maurício de Nassau!

Vários temas.

— O fuzilamento do imperador Maximiliano… Salazar… o plebiscito de 1946… a fundação da União Sul-Africana… Vida e obra de Johann Sebastian Bach… Mem de Sá… a proclamação da República.

O rapaz ficou meses lendo dentro do banheiro. Leu de tudo. Do pouco utilizado código do partido a Marx. Gramsci. Aprendeu rudimentos de inglês. Conhecimentos necessários para construir seu novo passado. No meio de uma de suas leituras, teve a impressão que jamais saíra daquele banheiro. Toda sua vida pregressa, a miséria, o porre de dias pelo meio do mato e sua companheira desdentada pareciam estórias, contos perversos. Sentia-se um novo homem; estava pronto ao papel que a vida lhe destinara. Sentia a mão de Deus.

Em uma agradável tertúlia filosófica no balcão do gabinete — era a primeira vez que o secretário concedia-lhe tal honraria — comunicou suas impressões ao tutor, que ficou radiante de contentamento.

— Ah, mas que rapaz! Fantástico! Tão logo possível, o inscreveremos para receber uma comenda.

Providenciou-se sua ida a um meeting do partido. Na sala abafada da sede da agremiação, cerca de cem jovens falavam de moral, de tradição, de justiça social. Após algumas deliberações da mesa, o rapaz pediu a palavra. Os membros da mesa já estavam devidamente azeitados por verbas vindas do estado e permitiram a alocução do novato.

— Amigos. Camaradas. Companheiros. Nós, da juventude do partido, não podemos permitir que a oposição nos ultraje como tem feito não apenas na assembleia do Estado, mas também no parlamento federal. Urge que tomemos providências. Eles ficaram oito anos no governo e não fizeram nada pelo povo. Nós, em quatro, quanto não fizemos? Nossos programas de transferência de renda… idealizados pela nossa governadora, luminar da ciência política. Eles querem desmontá-los para, novamente, ter a população amedrontada, qual malta de famintos e esfarrapados. Precisamos fazer com que eles entendam o recado, que nos deixem trabalhar! Precisamos de maiores prerrogativas legais que nos permitam ampliar nosso auxilio aos desvalidos. É obrigação do poder público garantir as condições de subsistência da população… nem que para isso tenhamos de revolucionar a sociedade, fazê-la entender que o direito dos povos não pode ser limitado por meros garranchos no papel, traçados por legisladores elitistas e opressores. O poder emana do povo, por isso, temos de assim fazê-lo, sem que seja a ferro e fogo! Devemos torná-lo efetivo… verdade efetiva!

Não conseguiu prosseguir por conta da violenta ovação que se seguiu. Rapidamente o convidaram para a mesa e, ao fim de três reuniões e outras tantas falas vigorosas, foi eleito secretário-geral das Juventudes do Partido.

No mesmo compasso da sua primeira eleição, foi transferido do banheiro do secretário da Casa Civil para o closet da governadora, onde podia manter uma pequena estante com obras de sua predileção, devidamente autorizadas e editadas ad usum Delphini por seu tutor. Também lhe fora conferida liberdade para circular pela sala quando não havia visitas, audiência ou reuniões.

— Estou orgulhosa de você, meu filho.

— Obrigado, Excelência.

— Tenho ainda dois anos de governo. Você começará a aparecer mais comigo, em funções públicas.

Não pôde deixar de estremecer um pouco. Uma coisa eram as Juventudes, ânimos moles como manteiga, moldáveis, açucarados; nos quais era fácil infundir explosões controladas. Outra era pôr-se diante dos vingativos deuses políticos, das raposas velhas da oposição, dos monstros dos subterrâneos do parlamento, que organizavam a política estadual sem pôr o nariz para fora de suas salas, apenas com o poder do nome e um arquejar de sobrancelhas.

A governadora sentiu o receio no silêncio.

— Não se preocupe. É uma função meramente decorativa e você sempre estará assessorado. Ou por mim mesma, ou pelo secretário da Casa Civil. Você será suporte-geral. Estará ao meu lado nas reuniões, coletivas, meetings, comícios…

— Mas, Excelência… o que suporta exatamente o suporte-geral…?

— Não se preocupe. Antes da sua nomeação você fará um estágio com o Giacomo, do Cerimonial. Ele vai lhe ensinar todo o necessário.

— Certo. E onde eu o encontro?

— Em lugar algum.

A conversa acabou ali. A governadora retirou-se e o rapaz foi dormir no closet. Além da história do tal Giacomo, atrapalhava-lhe o sono um estranho e tênue brilho que ele percebeu sair de um dos livros na estante. Pegou-o no escuro e conseguiu identificar que era “O Príncipe”, o tratado político de Nicolau Maquiavel.

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