232. Fábula, parte I

I

Foi numa tarde quente em que o ar-condicionado estava quebrado que a governadora solteirona teve uma ideia para sua sucessão. Saiu do gabinete e pediu que o motorista a levasse a uma favela na borda da capital, Vila Maquiavel.

Desceu do carro sozinha e caminhou até a frente da última casa da rua. Bateu no portão feito de latas de óleo abertas e amarradas umas às outras. Um rapaz macilento e com olheiras abriu o portão, espantado em ver aquela mulher de tailleur. Não devia ter mais de 20 anos.

— Filho!

— Eu não tenho mãe.

— Tem sim, sou eu.

— Não, a senhora não pode ser a minha mãe. Minha mãe não me deixaria na penúria em que estou ou, pelo menos, estaria aqui comigo… ou estaríamos em outro lugar.

— Eu sou sua mãe. Posso provar.

O rapaz olhou para a mulher não sem certa ressalva.

— Vamos lá.

— Quando eu era jovem, fiz muitas burradas antes de me tornar uma mulher com um pouco mais de cérebro. Uma delas foi ter deitado com um porco…

— Verdade, tem cada homem que é…

— Não, não. Um porco efetivamente.

— A senhora só pode estar brincando! Vamos, deixe-me curtir a miséria em paz! — e tentou fechar o portão. A governadora pôs o pé e impediu.

— Deixe-me acabar, dizer o que vim lhe dizer e, depois, você tire suas conclusões.

O rapaz aquiesceu com um gesto e um ruído.

— Muito bem. Deitei-me com o porco… por conta de uma aposta. Perdi. Apostei com amigas que conseguia beber mais doses de tequila que elas sem vomitar. Perdi. Mas uma delas perdeu o fígado aos poucos, com uma cirrose, ao longo de dolorosos anos.

— Sim… e onde eu entro?

— O pior aconteceu. Fora as escoriações de ter sido montada pelo cachaço a mão esquerda perfurada por um casco, engravidei do porco.

O rapaz tinha os olhos incrédulos e indignados. A governadora continuou.

— Escondi a gravidez até o terceiro mês, mas logo ficou óbvia. Meu pai, pastor de um ramo muito conservador do protestantismo, me fez tirar o feto. Mas tive ajuda de uma turma do laboratório da universidade onde eu estudava. Eles tinham um projeto que consistia em desenvolver os fetos em grandes potes de vidro, alimentando-os por sondas que atravessavam as tampas e faziam as vezes de cordão umbilical. Fui operada e, em vez de abortar, doei o feto àquele grupo de pesquisa. O meu filho, depois de se desenvolver no pote por seis meses, foi criado na creche de funcionários da universidade. De dia, brincava com as outras crianças e, à noite, ia dormir no laboratório, dentro do armário em que guardavam os animais em formol.

“Tempos depois, quando meu pai morreu e meu filho estava com quatro anos, fui resgatá-lo da creche e que surpresa quando descobri que há uma semana ele não aparecia para brincar. Procuramos por toda parte eu e a turma do laboratório. Interditamos o campus, procuramos no diretório dos estudantes entre os hippies que fumavam maconha, nas cátedras das múmias falantes e nada. Meu filho havia desaparecido.

— Muito bem — disse o rapaz após prestar atenção à história toda —, e onde eu entro nisso? Moro na rua desde que me entendo por gente e nunca tive mãe.

— Olhe para mim, rapaz. Não pareço familiar?

— A senhora me é familiar… mas não consigo lembrar de onde.

— Sou governadora do estado.

— Ah! É por culpa sua que estamos nessa situação então. Obras incompletas, desemprego galopante. Sabe quanto tempo estou desempregado? Desde que tenho idade para trabalhar! Vivo recolhendo pedaços e lata e esperando que caminhões com comida tombem na rodovia. Da última vez, foi um caminhão de cerveja. Bebi feito um louco e vaguei bêbado por três dias no meio da mata… acordei num riacho, todo lanhado e com feridas…

— Pois bem. Isso vai acabar. Venha comigo, quero fazer de você meu sucessor…

— Mas eu tenho a minha mulher aqui…

— Deixe-a aí, não vai mais precisar dela.

Pensou um pouco. A moça havia aparecido após o episódio da cerveja e disse estar grávida dele. No final, viu-se que era apenas um caso agudo de obstrução intestinal. Não a punha para fora de casa por dó. A ela, faltavam-lhe dois dentes da frente e tampouco era muito de banho.

— Prefeito. Eu vou.

Entrou no carro com a mãe e foram embora. O filho ainda teve tempo de ver a moça sair pelo portão e gesticular loucamente, em sinal de graves imprecações.

— Não se preocupe. — Limitou-se a dizer a governadora.

Chegaram ao palácio e a mandatária colocou o filho na mão das empregadas:

— Deem um banho nele e ponham-lhe roupas boas. No armário do secretário da Casa Civil tem uns ternos italianos que o secretário não usa mais.

As empregadas, sete, levaram o filho para o porão onde, numa tina, prepararam-lhe um banho. Ficaram intrigadas com duas coisas: os pelos do peito, axilas, pernas e púbis eram rígidos e, em algumas áreas, mudavam de cor entre o branco e o castanho. Também se impressionaram com o tamanho do pênis do rapaz.

— Tonha, você viu aquilo? Deve ter uns 35 centímetros duro…

— Eu vi. Fique quieta. Talvez ele fique aqui conosco. Sabe Deus porque a governadora o trouxe para cá. Se ficar conosco, pedimos um decreto de tombamento e ele será nosso…

Deram-lhe banho e vestiram-lhe. Parecia menos macilento já. Deram-lhe de comer coisas que ele nunca vira: lagostas, canapés, caviar e vinho do Porto. Tomou três garrafas e foi dormir no sofá da famulagem. Acordou acossado por empurrões, era a governadora-mãe.

— Está pronto, meu filho?

Levantou-se e seguiu a mãe por vários corredores escuros e abafados.

— As luzes estão apagadas porque corremos riscos de apagão. Venderam muitos eletrodomésticos para os pobres. Não podem ter dinheiro ou algo que pareça dinheiro nas mãos que se entopem de eletrodomésticos. Até mesmo ar-condicionado!

Batentes de madeira escura. Tapetes vermelhos com detalhes em amarelo. Pequenos aparadores com flores frescas. E os corredores não acabavam.

Finalmente um longo fio de luz. Entraram numa sala: uma grande mesa oval à beira da qual havia vários senhores em bons ternos. À entrada da governadora, levantaram-se. O mais velho da mesa, com ares de burocrata alçou a voz:

— E esse, Excelência, quem é?

— Meu filho e sucessor, senhor Rodrigues.

— Mas como se a senhora sequer é casada. Que filho?

Sem um pingo de constrangimento, a governadora contou a história de ter deitado com um porco na juventude. Todos aqueles senhores, agora sentados, ficaram lívidos. Ao fim do pronunciamento, o Sr. Rodrigues atalhou.

— Todos fazemos das nossas. Quando jovem, na faculdade de Veterinária, deixei-me sodomizar por uma iguana. Ela entrou inteira; o ruim foi que ela morreu lá dentro. Até hoje tenho escamas cravadas na parede do intestino.

— No sítio em que nasci — emendou o secretário de Obras Públicas — enrabávamos as cabras.

E a reunião prosseguiu num tom cordial e amigável, promovido pelo uísque, em que aqueles homens públicos fizeram público seu passado bestial.

— Deitei com todas as minhas primas! — disse o secretário de Recursos Hídricos — Até com a mais feia, que parecia uma fuinha assustada.

Até que foram cortados pela governadora.

— Mas eu quero apresentar meu filho e sucessor: ele.

Fez com que o filho andasse pela sala. Ele estava um pouco vacilante. Estava calor e as costuras do terno pinicavam. O ar-condicionado estava quebrado. Deu umas voltas. Ensaiou um sorriso tímido e, quando a mãe fez sinal, sentou na cabeceira oposta da mesa.

— O partido jamais o aceitará. — Sentenciou o secretário de Transportes.

— Ele não tem o porte adequado. — Disse o secretário de Finanças.

— Calma, senhores. — Pediu a governadora. — É uma questão de tempo. Óbvio que se eu chego agora e o mostro como sucessor, seria uma sandice. Primeiro, filiei-o ao partido. Já fiz isso enquanto ele dormia. Depois, ele vai militar um pouco, galgar alguns degraus com a nossa ajuda e, para tal, fica nomeado o secretário da Casa Civil como tutor do meu filho.

— É com muito prazer que aceito, Excelência.

Assim, o rapaz dormia num quartinho, nos anexos do palácio destinados à famulagem. Dividia o sono como esfregões e baldes. Não raramente, a parte feminina da criadagem ia vê-lo dormir e observar o volume sob as calças do pijama.

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