254. Fábula VIII

Parte I * Parte II * Parte III * Parte IV * Parte V * Parte VI * Parte VII

* * *

VIII

Não precisou de muito tempo. Logo o rapaz ouviu batidinhas na porta.

— Entre.

Um senhor. Lembrava vagamente o Giacomo dos copos.

— Sou o secretário de finanças. Muito prazer.

— Curioso, o senhor me lembra outra pessoa e não me lembro de tê-lo visto nas reuniões do gabinete.

— A secretaria de Finanças, meu jovem, é mera decoração. Sinecura para velhos como eu; ou você realmente acha que o calhamaço do Orçamento do Estado é seguido? Não fazemos ideia de quanto é arrecadado, de quanto é gasto; se há déficit ou superávit é uma questão de manipulação de índices para certos interesses.

O rapaz observava.

— Dedico meu tempo livre à marchetaria; faço lindas caixas para guardar o dinheiro que não existe. Sabe, rapaz, dinheiro também é algo que não existe. Não importa quanto dele você tenha no bolso agora: ele não existe. O que você tem é tão significativo quanto figurinhas de chiclete. Logo, para que controlá-lo? Ainda existe uma certa paranoia por parte do Fundo Monetário, mas os setores mais jovens sabem que é pura besteira. Basta imprimir papel; mas ele deve ser considerado sagrado, depositário de real valor. Incrível como o homem, que se diz moderno, se deixa mesmerizar por pedaços de papel ou por algarismos na tela do computador. Incrível.

Sentou-se em uma poltrona, próximo à lareira.

— Vejo que você é diligente. Mas não se esqueça de recolher as cinzas. Sairemos eu e você para espalhá-las… incomoda-se se eu fumar? São cubanos, pegue um. Vamos ao que interessa: precisamos do seu inimigo particular e, ah, meu amigo, vai ter de ser grande. O partido está desgastado… assim como o engenho pôs em minhas mãos a arte de trabalhar em madeira, em finíssimas pranchas de madeira, também me deu o engenho necessário para criar monstros com toda verossimilhança. Faço isso há anos. Estou no partido faz tempo, mas já o fiz também para a oposição e até mesmo para partidos que não existem mais. Vamos, as cinzas já estão frias. Ponha-as nesta caixa de charutos e vamos. Temos uma longa jornada.

*

Saíram de carro. Não oficial, mas um carro particular comum. O secretário de Finanças dirigia. Logo deixaram o perímetro urbano da Capital, a última coisa que o secretário da Casa Civil viu foi a placa indicando a Vila Maquiavel.

— Um antro fétido de pobretões.

Percorreram algumas dezenas de quilômetros e pararam num portão vigiado por guardas.

— Governo Estadual. Secretários de Fazenda e Casa Civil.

Os guardas levantaram a cancela.

O carro andou por mais alguns quilômetros por uma estrada estreita, ladeada de exuberante vegetação. Os mandatários chegaram a uma clareira onde se erguia um complexo ruinoso. Parecia a torre de refrigeração de uma central nuclear.

— Aqui funcionava a única central nuclear do Estado, desativada há uns vinte anos por pressão do nosso partido. Simulamos um acidente e hoje todo o perímetro de 15 quilômetros é isolado do mundo. Quase ninguém se lembra da central. Como nos aparelhamos do Estado todo, a transformamos numa espécie de quartel-general, o pessoal que trabalha aqui é do submundo político. Pegos em alguma falha, dizemos que fugiram do país, mas, na verdade, ficam aqui e continuam trabalhando sem o menor incômodo. Nem os guardas da portaria sabem do complexo, pois não têm autorização para entrar.

Desceram do carro e entraram no prédio principal; muitos lances de escada. Chegaram diante de uma porta de aço, como aquelas de submarinos.

O secretário de Finanças pigarreou e disse:

— Vae victis, Teteia!

Rapidamente a porta estalou e começou a abrir-se!

— Ora como vai? Vejo que trouxe alguém consigo.

— É o sucessor.

— Um pouco novo demais, não?

— Mas arguto o suficiente. Está sendo lentamente iniciado.

— Entrem, entrem.

Anúncios

253. A pátria da imbecilidade

Dante aguentaria a encheção de saco hodierna?

Dante Alighieri (1265-1321) e Monteiro Lobato (1882-1948) estão separados por quase sete séculos. Porém, duas características unem o mestre florentino e o escritor de Taubaté: o fato de serem grandes literatos e a boçalidade com que suas obras foram e são tratadas por pretensos paladinos e guardiães da moral moderna.

Em outubro de 2010, um parecer do Conselho Nacional de Educação recomendou que “Caçadas de Pedrinho” — obra de Monteiro Lobato — fosse retirada da lista de livros indicados para o ensino público por conter trechos “racistas”. Isso porque no livro já há uma nota que diz que “a aventura ocorreu em tempos que os animais silvestres não eram protegidos pelo Ibama e a onça-pintada não estava em extinção”, o popular “explicar a piada”. Depois da celeuma causada na mídia, o parecer foi revisto e o quase-veto foi retificado.

Agora, leio no site da revista Cult que uma ONG italiana quer banir a “Divina Comédia” (escrita por volta de 1307), de Dante Alighieri, por “racismo e discriminação contra homossexuais e muçulmanos”.

O que faltou nos dois casos foi: 1) obras antigas não podem ser lidas com (pré-) conceitos de hoje. Retumba em irremediável anacronia, tanto em Lobato, quanto em Alighieri; 2) veto ou banimento de livros é algo que ofende o cidadão: é chamá-lo de inapto, qualificá-lo como alguém que não tem discernimento e depende do Estado para tal.

Burocratas e ongueiros, no afã de “libertar-nos”, cometem os mais vis atentados à cultura, à Educação e à inteligência. Os brasileiros somos iconoclastas e avessos à leitura, é notório; mas o caso italiano mostra que a imbecilidade não tem pátria.

* * *

Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 27/3/2012.

252. “Malthus”, Diogo Mainardi – A multiplicação da estupidez

Diogo Mainardi em pose assaz sombria

Quem conhece Diogo Mainardi apenas de suas ácidas crônicas da Veja, pode não imaginar que exista também um Mainardi romancista. E mais, com a qualidade literária que tanto anda em falta.

Longe das pretensas elucubrações e da vacuidade que dominam a literatura brasileira contemporânea, “Malthus” não é apenas um retrato surrealista da sociedade brasileira — algumas passagens podem mesmo evocar o humor da trupe britânica Monty Python — mas uma alegoria feita sobre a base da teoria socioeconômica do economista inglês Thomas Malthus (1766-1834), a respeito do descompasso entre crescimento populacional e produção de alimentos.

Narrando a trajetória de Loyola y Loyola — um sugestivo nome “jesuítico”—, o livro vale-se de alusões à história brasileira e tenta explicar a progressão malthusiana não apenas da população — em certa hora, o personagem é multiplicado por quarenta por seu amigo Ovas Negrão, transformado em beato com poderes mágicos — mas também da própria estupidez humana.

Um livro de leitura rápida e agradável, com prefácio de Ivan Lessa, certamente será lembrado no futuro — juntamente com seu autor — por significar algo em meio ao grande vazio cultural que vivemos.

* * *

Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 25/3/2012.

251. O burrinho sarnento

Obviedade. Se a burocracia se materializasse, seria um burro. Um burro sarnento. Nada contra os burros e asininos em geral, mas, pelas intrincadas veredas da língua, foram eleitos pela tradição popular como símbolo da vontade obstinada, da vontade inamovível do empacar. A sarna apenas enriquece a alegoria: é o símbolo da pestilência, da contaminação, da transmissibilidade do que é ruim.

Nas últimas semanas, vimos o burrinho sarnento trotar pelas plagas araraquarenses: a intransigência da Cohab, que, cegada pela burocracia, ameaçou de despejo um catador e sua família praticamente às vésperas da quitação do imóvel; o outro caso é do idoso de Américo Brasiliense que teve o fornecimento de energia elétrica cortado pela CPFL Paulista porque o titular da ligação — que não morava mais na casa — pediu que seu nome fosse retirado da fatura de consumo. O que apenas é entendido como ‘desligamento’ pela concessionária, simples assim. Sabe-se que a CPFL foi privatizada em 1997, mas parece que ela ainda contém vícios característicos das economias mistas e autarquias. Vícios públicos em ares privados.

A burocracia imobiliza a vida civil e a economia. Licitações que demoram uma eternidade frente à premência de problemas, como bem mostrou matéria da edição de ontem desta Tribuna sobre a vicinal que liga nossa cítrica cidade à vizinha Américo Brasiliense.

Mesmo doente, o burro marcha. Vitima. Escoiceia na escuridão justos e pecadores. Leva nos seus alforjes o papelório incompreensível de leis, decretos e regulamentos. Pasta nossa paciência.

* * *

Artigo publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 24/3/2012.

250. Fábula VII

Parte I * Parte II * Parte III * Parte IV * Parte V * Parte VI

* * *

VII

“Nasceu em 20 de maio de 1984 em Vilafranca de Taquarembó, no seio de uma família de agricultores. Começou cedo nas lidas do campo, ajudando os pais e os seis irmãos. Logo tomou consciência de sua condição injusta e buscou seus direitos políticos, ingressando, aos 12 anos, nas Juventudes do Partido. Militou por várias causas justas e nobres como a defesa do uso da maconha, contra os abusivos aumentos da passagem de ônibus e contra a crescente elitização do nosso ensino superior, que antes da assunção do Partido ao poder, somente era franqueado aos filhos da elite dominante.

De todas essas glórias, foi aclamado presidente das Juventudes do Partido, segurador-mor do Cerimonial do Governo do Estado e, agora, Secretário da Casa Civil, posto de suma importância dentro da administração estadual.

O secretário, por conta de suas origens, é pessoa humilde, mas não simplória. É amigo cordial e objetivo, características que não impediram seu desenvolvimento intelectual e seu agudo raciocínio, sendo leitor ávido dos grandes teóricos do socialismo.

[…]

Certa vez, em uma festa do grêmio estudantil, vestiu-se de Karl Marx, quase enganando os colegas de curso […]”

O resto tratava de detalhes inúteis como datas, nomes de escolas e colegas de infância. Era ler e decorar.

*

Em cerca de 20 dias de estudo profundo do documento, sentiu-se em condições de livrar-se dele. Lera-o com tanto afinco que personificara o escrito. Era como se fosse sua história real; frente a algo tão bem alinhavado, a outra perdia viço e cor. Não acreditava que bebera tanto a ponto de correr pelado pelo meio do mato. Balançava a cabeça em sutil sinal de reprovação.

Acendeu a lareira e jogou o documento às chamas.

Nesse instante, chegou a secretária particular:

— Senhor secretário: correspondência.

E depositou sobre a mesa um envelope sem remetente. Abriu-o. Uma folha datilografada.

“Caro colega,

É uma honra tê-lo entre nossas hostes da verdade e da justiça. É com prazer que me vejo seu colega e seu tutor — missão confiada pela nossa excelsa governadora.

Gostaria de dizer, em primeiro lugar que, para o exercício efetivo do poder no nosso País não bastam as instituições, o parlamento, as assembleias. São meros aparatos superficiais. Joguetes de criança. O que realmente governa é um hábil jogo de tensões feito pelas pessoas certas, sem vínculos aparentes. Veja: não precisamos gente dentro das redações de jornal, mas temos meios de fazer com que rezem pelo nosso catecismo.

Algo importante é a necessidade de um inimigo à mão. Povo seguro de si não cai em qualquer conversa; por isso, precisamos de inimigos reais ou imaginários. Os mais facilmente demonizados são a oposição e a imprensa — basta que não rezem pelo nosso catecismo. Há outros mais complicados. Vizinhos, disputas territoriais; mas esses ficam para os casos extremos.

Espero vê-lo em breve.

Um grande abraço,

O secretário de Finanças.

P.S.: queime a carta após a leitura.”

A carta foi juntar-se à biografia que ardia na lareira. Inimigos, uma conveniência, quem diria!

249. Epilepsia política

Tudo agora, nada depois.

Crescemos 2,7% no ano passado. Alguns comemoram mesmo que o índice esteja abaixo do projetado tanto pelo mercado quanto pelo Governo. Comemoram porque “estamos ainda acima” dos países desenvolvidos, afetados pela crise. Pergunto eu: que vantagem estar com o pescoço para fora da água enquanto o resto está submerso?

Estamos com uma situação aparentemente razoável por conta da boa maré das commodities; nossa balança comercial deve muito ao agronegócio e à extração mineral; a China tem comprado boa parte dessa produção. Porém, as autoridades monetárias chinesas já se preocupam com a chegada da crise àquele país. As compras vão diminuir e os preços das commodities também.

O Brasil, país que vive de convulsões econômicas e políticas — espasmos que são as eleições —, é incompetente em pensar soluções de longo prazo. Aferra-se ao presente como na copa do mundo: grita quando há gol e chora quando perde. Acostumamos a classe política ao populismo e ao oba-oba dos bons momentos.

Alguns dirão “PAC” como quem diz “abracadabra”. É vistoso e resolve a questão dos votos: muito foguetório e poucas realizações.

O Governo deveria aproveitar a boa maré — até quando? — e fazer as reformas política e tributária; serão extremamente impopulares entre os políticos, que não querem perder seus “direitos adquiridos”. Qualquer atentado à oligarquia será rechaçado e o Governo — e o partido governante —, devidamente punido como estamos vendo na atual crise política. Mas estaria o PT disposto a tal sacrifício?

Somos um país de epiléticos políticos vivendo de remédios que não são nada mais que placebo.

* * *

Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 20/3/2012.

248. Crítica literária para jornal – Uma concepção

"Querida, veja! Sugestões de livro!"

No dia 11 de março, a Tribuna Impressa de Araraquara estreou seu “Menu Cultural”: meia página com críticas ou sugestões de livros, discos e filmes. Uma coluna para cada item.

Fiquei responsável pela indicação de livros e, por ora, tenho a vantagem de apenas fazer recomendações, ou seja, recomendar os livros que já li e que são de meu agrado. E disso surge um desafio — palavra banalizada, mas sem sinônimos —: como fazer com que o potencial leitor se interesse pelo livro.

Como estudante de letras, tenho muitos vícios da Teoria Literária, que para a indicação de um livro em cerca de 1,2 mil toques, é mais empecilho do que auxílio. Outra: quantos leitores terão conhecimento de rudimentos de Teoria Literária — como eu mesmo — para poder acompanhar algum raciocínio baseado nessa pretensa ciência?

Para despertar o interesse por aquela leitura, creio que seja necessário valer-se de certas peculiaridades do livro, expor o que sai do comum, adiantar um pedacinho da trama, alguma característica notável do escritor, ou mesmo o fio condutor da narrativa, mas sempre com vocabulário acessível e sem o rançoso léxico da Teoria Literária.

Em suma, é fazer “crítica à moda antiga”, mostrando o “produto”. Como um mascate vende suas fitas de cetim? Mostrando-as ou explicando o complexo processo de fabricação, as máquinas, os nomes técnicos de peças, fibras, corantes, quantos funcionários trabalham na fábrica… basta mostrá-las, fazer o cliente sentir a textura, ver as cores. Só isso.

247. “Veredicto em Canudos”, Sándor Márai

Sándor Márai (1900-1989), escritor húngaro

“Um dia comecei a escrever sobre o que acreditava ter ficado ‘de fora’ do livro de Euclides da Cunha — ficara de fora, mas ‘poderia ter sido assim’.” Dessa maneira, com palavras do próprio autor, podemos definir o romance húngaro “Veredicto em Canudos” (Ítélet Canudosban, no original magiar).

Sándor Márai, alicerçando a narrativa a partir de uma tradução americana de “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, recria um instante: o estertor do povoado erguido na poeira do Sertão pela fé — loucura? — de Antônio Conselheiro, sem nunca sequer ter pisado no Brasil. O tempo da ação é preciso: “entre as cinco da tarde e as nove horas da noite” de 5 de outubro de 1897, dia anterior à erradicação do povoado.

Narrado em primeira pessoa pelo protagonista — um veterano da guerra que trabalha na Biblioteca Mário de Andrade em São Paulo e possuidor traços singulares —, o romance é uma grande metáfora entre a pretensa sanidade e a aparente loucura, encarnadas respectivamente pelo então Ministro da Guerra — personagem real — e uma estranha mulher emergida da cidadela, como tantas outras almas, mas que, surpreendentemente, conversa em inglês com a autoridade.

Traduzido do húngaro por Paulo Schiller, a obra mostra-se importante adendo ao monumento euclideano, principalmente em seu fator mais humano e por sua universalidade.

* * *

Publicado no Painel Cultural da Tribuna Impressa de Araraquara (18/3/2012).

246. Fábula, parte VI

Parte I * Parte II * Parte III * Parte IV * Parte V

VI

Quanto às indagações que a imprensa fazia sobre a biografia do novo secretário da Casa Civil, o setor de inteligência da Polícia — devidamente aparelhada com membros do partido — produziu um documento de alto sigilo. Na verdade, foram histórias aleatórias escritas por dezenas de funcionários sem que soubessem do que se tratava. Depois, de duas em duas, foram mescladas por terceiros, que não sabiam quem eram os primeiros. Depois, uma nova mescla por outras pessoas e, finalmente, três documentos foram fundidos por um computador automático. O secretário da Casa Civil recebeu das mãos da governadora um documento lacrado e explicou-lhe as condições de produção.

— Leia-o e decore. Mantenha-o no cofre do seu gabinete, o que existe no assoalho, debaixo as sua cadeira. Assim que o ler, queime-o na lareira, recolha as cinzas, macere-as e espalhe-as cada punhado em lugares diferentes.

— Perfeito…

— Argh! Que cheiro estranho que está nessa sua sala. Não me diga que as baratas vieram visitá-lo já?

Explicou à mãe a invasão da sala pelas bases do partido.

— Elas são assim. Nojentas (nem se importam com esse insulto; consideram-no, antes, um elogio). Mas ninguém governa sem elas. Basta manter as escolas com os estoques de açúcar e jornal velho e elas não incomodam. Não têm sede de poder, apenas usam de suas prerrogativas para viver em paz.

E saiu da sala.

Agora instalado no gabinete que foi de seu tutor, trancou a porta e abriu o envelope. Poucas folhas, cerca de 20. Ia começar a leitura quando sentiu baterem à porta. Enfiou rapidamente a papelada na gaveta e destravou a maçaneta.

— Pois não?

— Perdão, senhor secretário. Entrega para o senhor. É de uns amigos.

Agradeceu e pegou o pacote. Fino, chato e retangular.

— Será um livro?

Rasgou o papel e u’a moldura continua os seguintes dizeres entalhados:

“Ler o que aparecer, ver o que apetece e assinar o que convier.”

Ergueu os olhos e nos entalhes de madeira do teto, viu uma espécie de nicho que apenas era visível por quem se sentasse na cadeira ou olhasse desde a janela para aquele ponto. Pediu uma escada e ele mesmo encaixou a moldura ali, e parecia que ela fora feira exatamente para ficar ali. Ele a empurrou com as mãos até que ouviu um clique. A madeira da moldura era do mesmo tipo da do forro.

Feito aquele trabalhinho, sentou-se na cadeira e, olhando para o teto, a moldura parecia mostrar algum trecho das Escrituras no teto das igrejas. Pegou novamente a sua biografia para ler.

245. A cultura do trabalho

Saída de fábrica no Brás, São Paulo, anos 1950. Foto: Paulo Peter Scheier

Da ideia de trabalho de sol a sol dos nossos antepassados, pouco ficou. Um exagero deles, certamente. Porém, o hedonismo que caracteriza as novas gerações é surpreendente. Não hedonismo no sentido próprio da vadiagem, como se dizia antigamente; afinal, o trabalho é necessário para sobrevivência.

O conceito de trabalho que construiu nosso Estado, seja pelos primeiros povoadores — fora da órbita e das benesses do poder colonial — seja pelos imigrantes assolados pela miséria em suas pátrias de origem e tangidos na alma pela vontade de “fazer a América”, está em descrédito, absolutamente desvalorizado.

Novos valores disseminados pela sociedade, como a recompensa sem esforço, o dolce far niente e o consumismo têm deixado marcas profundas na juventude que renega os estudos, cresce com a ideia de “fazer uma carreira” apenas pelas vantagens financeiras — por isso as marés de profissionais de determinadas áreas, o “curso da moda”.

A pressa — outro mal moderno — em obter bens leva à frustração para com o trabalho — baseado em conquistas graduais, em poupança —, ao descontentamento, à absoluta falta de responsabilidade que se observa em alguns setores. Há quem veja nesse mecanismo uma “compensação histórica” por opressões atávicas, mas se esquecem de que não basta buscar justiça social se não há responsabilidade individual, se o valor do social do trabalho não for reafirmado.

Não será dessa maneira que nós — portadores de “PIB inglês”, mas de mentalidade rasteira — chegaremos ao clube das nações desenvolvidas. No máximo, entraremos pela porta dos fundos para lavar os pratos do banquete alheio.

* * *

Texto publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 15/3/2012.

244. Vate de multidões

ImagemNo Dia Nacional da Poesia, nosso homenageado é o ilustre poeta, “benemérito, filantropo, parecerista juramentado de fóruns cíveis e criminaes, vate d’inspiraçon elevada, grão apreciador dos romanceiros geraes, gentilhomem de galantarias notáveis, monoculista ferrenho, de meia-idade, lesto e guapo” Equinócio Pindahyba.

O Doutor Pindahyba teve u’a meteórica carreira telemática, apenas três poemas publicados em um blogue. O que é desconhecido do grande público é que sua obra original, manuscrita em pergaminhos, jaz em uma água-furtada de uma casa de campo em Indaiatuba. Infelizmente, o poeta, com seus dez mastins napolitanos, impede o acesso a ela. “Não sois dignos, bando de sevandijas!”

Aos nossos leitores, uma centelha da luz eterna do poeta das multidões secretas.

“Estes versos os fiz em tençom de porfia com Monoel Bandeira. Sem réplica ficarom.”

Vaquinha-de-Minas-Geraes

Quando eu tinha vinte e dous anos
ganhei uma vaca Nelore.
Quão pouco se me dava
pr’onde ia o diabo da vaca se enfiar todo dia!
Deixava ela lá,
s’entendendo com boizinhos e tourinhos.
Ela parece que gostava,
é certo que nunca me pedio mais nada
(e nem adiantava, que eu mais não daria!).

— A minha vaquinha-de-Minas-Geraes foi minha primeira molher: dei-lhe tanta pancada…!

* * *

Mais aqui: http://equinociopindahyba.blogspot.com/.

243. Imprevisto

Imagem

As agruras do jornalismo impresso

Há fatos cujo controle está acima de qualquer vontade. Basta ter em mente que somos 7 bilhões de cérebros e, tecnicamente, cada um tem seu livre-arbítrio. Nesse ambiente de milhões — limitando-nos aos indivíduos de uma pequena circunscrição territorial — de possibilidades, qualquer tentativa de previsão, por mais científica que seja, é pífia, senão temerária.

Mesmo em assuntos aparentemente certos. Por exemplo, escrevi um texto sobre um projeto polêmico de um vereador de Araraquara com a certeza de suscitar uma discussão — não polêmica, que é coisa para amadores, mas uma discussão sobre a validade da proposta. Tampouco sem agredir a imagem pública do legislador.

Aconteceu o inusitado dentro de um quadro previsível. No mesmo dia de publicação do artigo no jornal impresso — logo, elaborado e limado um dia antes — o vereador apontado no artigo teve sua casa invadida por bandidos logo pela manhã. Inusitado porque ninguém espera ter a casa invadida; previsível porque a onda desse tipo de ação criminosa está em alta em Araraquara, sendo a invasão à casa do político o 16º caso neste ano.

Frente a todo rebuliço que o caso trouxe, óbvio e compreensível que o artigo criticando o projeto fosse posto fora de combate. Talvez alguma pessoa de mais idade o tenha lido e até compreendido, mas certamente teve a visibilidade prejudicada, ou talvez até mesmo uma repercussão negativa para seu autor — eu —, já que os leitores tendem a comparar informações simultâneas com os mesmos protagonistas.

Ponto negativo para mim.

242. Novos trilhos

Trilho em Araraquara (foto: Willian Telles)

A Tribuna de sábado (10/3), em sua página A5, noticia, em pequena nota, a apresentação de proposta para criação de um transporte sobre trilhos administrado pela Prefeitura. A iniciativa é do vereador Elias Chediek (PMDB).

Ainda segundo a nota, a linha apresentada iria do Hortênsias ao Pinheirinho, em 11 quilômetros. Pela distância e pelo trajeto, presume-se que utilizará os trilhos que cortam a cidade, tirando deles o transporte de carga e utilizando-os para o transporte de passageiros.

Como simples observador e munícipe, faço as seguintes observações: 1) Parece que a ideia do Contorno Ferroviário é tirar os trilhos do meio da cidade, para que não haja mais divisão física, vencida somente por passagens de nível, viadutos ou passagens inferiores. Se os trilhos continuarem onde estão, a divisão permanecerá, exceto se a Administração providenciar mais viadutos ou faça com que a linha seja subterrânea em alguns pontos, o que parece inviável e altamente custoso. 2) Nosso transporte tem demanda suficiente para o transporte sobre trilhos? Pergunto isso por conta do malfadado VLT — veículo leve sobre trilhos — de Campinas, operado pela finada Fepasa sobre trilhos da extinta Estrada de Ferro Sorocabana. Entre 1990 e 1995, uma linha de 8 km, com oito estações, atendeu a um município com então 850 mil habitantes. Chegou a ser cogitada uma segunda linha, mas o sistema acabou desativado pela pouca funcionalidade que prejudicava seu uso.

Será que a solução do transporte em Araraquara passa pela modalidade ferroviária? Ou bastaria privatizar a CTA [Companhia Tróleibus Araraquara] para que fosse bem provida de meios e recursos?

* * *

Artigo publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, de 13/3/2012.

241. Fábula, parte V

Parte I * Parte II * Parte III * Parte IV

* * *

V

Mais um período longo de eventos nos quais ele aparecia segurando com destreza magníficos copos. Um dos modelos foi elogiado em um longo editorial no principal jornal do Estado e um telejornal começou a indagar sobre as origens do rapaz.

Foi uma fisgada no coração. Se lhe perguntassem, talvez não saberia mais falar sobre os caminhões tombados na rodovia e dos caminhos de terra da Vila Maquiavel.

Uma batida na porta. O secretário da Casa Civil sem seu luxuoso penico.

— A governadora deseja vê-lo…

Foi rapidamente ao gabinete.

— Sente-se, meu filho. A situação é simples. Você não é mais suporte-mor. A crise nos obrigou a cortar aquele departamento dos copos. Giacomo, para que não sofresse, concretamos os pés dele e o jogamos no mar, com direito a banda marcial e salva de 21 tiros. Acredite, seria pior se o deixássemos por aí, sem saber o que fazer da vida. Chegou a nos agradecer e desejou a você boa sorte.

Uns instantes de silêncio.

— Quanto a você, não será mais suporte-mor e também já apresentou sua carta de demissão de secretário-geral da Juventude.

— “Apresentou”? Apresentei.

— Tomei a liberdade… você sabe que algumas coisas têm de ser rápidas.

— Entendo.

— A partir de hoje, você é o novo secretário da Casa Civil.

— Como? Nunca fui secretário!

Enquanto a governadora o empurrava para fora, completava:

— Basta ler o que aparece, ver o que apetece e assinar o que convier. Três relações básicas. Mande escrevê-las a ouro e pendure-a na sala em um lugar que apenas você poderá vê-las. Vá, meu filho, você já sabe onde fica o gabinete.

— Mas e o ex- secretário, meu tutor?

— O ex-secretário tem assuntos particulares para tratar. Precisa cuidar de sua fazenda de piolhos em Honduras. Coisa fina! Usam os piolhos para fazer cosméticos; ele tem 5 mil crianças infestadas de piolhos. O governo hondurenho deu a área, as crianças e ainda concede isenção fiscal para alguns amigos. É um belo negócio. Até a próxima reunião de gabinete, meu filho… meu caro secretário. Ah, já ia me esquecendo. Você continuará a ter um tutor. Será o secretário do Tesouro.

240. “Kaputt”, Curzio Malaparte

Começamos a coluna sobre livros na 'Tribuna Impressa' sob a invocação de São Curzio

Domingo. Hoje, a Tribuna Impressa de Araraquara estreia seu “Painel Cultural”, na página B2 do caderno de cultura Tô Ligado. Três manifestações culturais estão ali contempladas: a literatura, a música e o cinema. Este que vos escreve ficou com os livros.

Abaixo, o texto inaugural, sobre “Kaputt”, de Curzio Malaparte.

* * *

Beleza cruel

Com uma narrativa clara, mas detalhada, “Kaputt”, do italiano Curzio Malaparte (1898-1957), mostra os horrores da Segunda Guerra Mundial pelo lado dos vencidos. Não apenas uma simples narração ou recriação: com trânsito livre nos bastidores de poder e círculos intelectuais, o autor foi habitué desses ambientes e os detalha com estilo inigualável. Ora no requintado mundo diplomático — que dividia com outros intelectuais como o Conde de Foxá, escritor e diplomata espanhol — ora pisando lama e tomando nevascas como correspondente de guerra em lugares longínquos tanto para alemães como para italianos — como a Ucrânia e a Romênia —, mostra o espantoso da guerra é mostrado de maneira sublime e pesada. O realismo doído das paisagens e metáforas pouco comuns inebriam o leitor do começo ao fim; mostram o ser humano — combatidos e combatentes — reduzidos às suas naturezas mais abjetas, como se naquela guerra não houvesse vencedores ou perdedores. Na visão de Malaparte, todos estão condenados.

É leitura obrigatória para fugir dos lugares-comuns sobre a Segunda Guerra Mundial e moldar uma outra visão, incrivelmente mais humana.