231. Letávia, partes III e IV

Um vilarejo

Os textos são de 2005. Creio ter escrito também as partes I e II, mas não me lembro onde estão. Com algumas emendas, são textos que estavam publicados em um dos meus velhos blogues, o Machadada.

* * *

III

Verão em Belavoda. Oito mil seiscentos e trinta e sete habitantes, segundo o último censo, o de 1938. Oito mil seiscentos e trinta e sete habitantes afogados em calor; mesmo em plena Europa, àquelas latitudes, o vale onde se localiza Belavoda — e praticamente toda Letávia — é um lugar particularmente quente. Os meteorologistas não sabem bem explicar o fenômeno, a hipertérmica estiva de Belavoda tem explicações tanto díspares quanto absurdas. Um certo prof. Plewnovicz chegou ao disparate de afirmar que certa espécie de peixe do Tjevá, o bylnje czjórnje ou simplesmente bylnje, — tão apreciado pela população, assado com batatas —, que esse delicioso peixe ósseo clupeiforme, Opisthonema letavica, abundante no Tjevá era o responsável pelo aquecimento do microclima em Belavoda. Tão abundante, que seu preço, para quem o comprava por preguiça de ir pescá-lo, nunca ultrapassava 3 coroas e meia. Segundo a teoria do prof. Plewnovicz, a bexiga natatória do petisco aquático — petisco, visto que é um peixe que não muito grande, oscilando entre 3 e 5 centímetros — produziria excessivo dióxido de carbono, justo no verão, o que, agravado pelo calor e pela topografia do sítio belavodense, produzia calor que ficava estacionado pela ausência de ventos no interior do vale, protegido pelos espigões-mestres das duas cadeias de montanhas que o delimitam.

O artigo, intitulado “O seu jantar o futuro da Letávia”, publicado em fins de 1937 no Nasza Zemljá, jornal oficial do Governo Nacional Oclocrático, causou certa incredulidade no meio científico letavo, porém, tendo sido publicado no jornal oficial, o povo assustou-se. O pobre bylnje czórnje foi banido dos cardápios dos restaurantes; um decreto aprovado pela Dieta declarou-o «inimigo do povo e da Pátria». Outro decreto, alguns dias depois, agraciou com o título de piscis non grato. Criou-se uma espontânea Brigada de Proteção Fluvial, conduzida pessoalmente por Beznjakovicz, que foi aclamado seu secretário-geral; a Brigada deu cabo de milhares de peixes a golpes de bastão nas enseadas do Tjevá próximas a Belavoda. Pouco antes do Natal, auge do cálido inverno, vidros de conserva de bylnje foram quebrados na Praça Czernoczékow por uma multidão enfurecida. No ano-novo de 1938, o Nasza Zemljá, publicou “Livres do flagelo, nosso próximo verão será europeu”. Em julho, mais especificamente em 16 de julho, a temperatura alcançou os insuportáveis 36,5 graus. Os peixes quase desapareceram, porém, o calor veio ainda mais forte. O prof. Plewnovicz foi chamado a dar explicações. Sumira. Ninguém o achava. Descobriu-se que ele havia saído clandestinamente do país cerca de um mês antes — talvez pressentindo o fracasso da sua teoria — com destino à França.

As conservas reapareceram nos mercados, os peixes in natura voltaram para as feiras, bem mais caro, é verdade, umas 60 coroas a libra. A Brigada, do mesmo modo que apareceu, sumiu. Igualmente os decretos sumiram-se da legislação. Ninguém perguntou nada, ninguém respondeu nada. A base alimentícia mudou do bylnje para as perszebálnyje, ou a popular couve-de-bruxelas, depois de uma campanha governamental em prol dos vegetais, tão adaptados ao clima da várzea. Na Praça Czernoczékow foi posto um tabelão: uma pintura representante um Beznjakovicz sorridente, sentado, com guardanapo amarrado ao pescoço, tendo diante de si, um prato fumegante de perszebálnyje cozidas na manteiga. Embaixo dessa bela figuração, um belo lema: “nossos repolhos não fedem”. Logo depois, emitiu-se uma série de selos postais, com as plantas em vários estágios — semente, broto, planta formada, colheita, preparação e um prato pronto, assadas — nos valores de 1, 5, 10, 30, 75 térty e 1 coroa. Fora a moeda comemorativa de 1 coroa e meia.

Passados os peixes, outra teoria que se levantou foram as fricções da placa da Letávia — a placa tectônica elíptica enquistada no meio da Euro-Asiática, tendo 62 quilômetros de raio, a menor do mundo — com a Euro-Asiática. O calor viria de emissões de gases das falhas, por conta do movimento da Terra, principalmente no verão, e as ondas de gás e calor, pelo acidente geográfico, confluíam para o centro do disco, justamente a área de Belavoda. Essa teoria é a mais aceita, inclusive pela Academia de Ciências da Letávia.

Tendo sido apresentado um relatório ao Supremo Condutor, este determinou ao Ministro de Obras Públicas, o camarada Ián Ljebánjovicz Antáll que se concretasse toda a área das falhas. A colossal obra consumiu centenas de milhares de metros cúbicos de concreto; toda a área das falhas ficou com aspecto semelhante a uma represa; isso já no limiar da guerra, ou seja, no fim do inverno de 1939. O verão de 1940 está sendo igualmente quente. A temperatura confirma a vocação de balneário de Belavoda, isso se a Letávia tivesse mar; mas é mediterrânea.

IV

Rua da Avícola, próximo à Praça Czernoczékow; paralelo à praça, duas quadras para cima. Ali há uma agência bancária, a Agência Matriz do Banco Popular e Nacional — Naradnaja i Gassudrastvénnaja Banka, mais conhecido pela abreviação Nagoban —; banco estatal para diversas coisas: fomento à agricultura, empréstimos pessoais para pequenos negócios, para compra de armas — já que a legislação «nacional e oclocrática» permite ao cidadão letavo possuir armas desde que pertença a uma das seis milícias nacionais voluntárias —, e algumas outras coisas. Mas a maior e excelsa função desse banco era a concessão de fundos espontâneos para os parlamentares, assessores de ministros, ministros, pessoas fidedignas e digníssimas indicadas por outras igualmente excelsas e desconhecidas, mas muito poderosas e generosas.

No térreo do prédio da Rua da Avícola, o interior da agência era escuro; móveis e gradis de madeira escura, o odor predominante era da madeira. Logo na entrada, umas mesas e por detrás do gradil algumas outras, destinadas aos supervisores e no fundo, o gabinete do gerente e a porta da Tesouraria; num canto, dois elevadores para acessar os seis andares do colosso de tijolos, inclusive o Departamento de Emissão, responsável pela emissão das coroas letavas e também o gabinete do Presidente do Banco, que é indicação do Ministro das Finanças.

Além da Agência Matriz, o grande Banco possuía outras sete: uma no bairro belavodense de Czétiry Dómoj, outra, já no último distrito da cidade antes da área rural, o de Tjevánnaja; e mais quatro em quatro cidades letavas: Njemántsk, Brátska, Narádna e Czernavoda. Trabalhar na Matriz, na Capital, era a vontade suprema de todos os funcionários alocados fora no interior, sonho de realização pessoal. «A vida está na capital», disse certa vez um auxiliar de escrita, «aqui em Brátska, em meio aos porcos desses camponeses imundos, o que se pode esperar? Só vêm fazer empréstimos para que os porcos não lhes morram de fome. Outro dia, um suinocultor de Bela Bystrica, ali, um distritinho rural da cidade, veio pagar-me a parcela do empréstimo, coisa de umas 200 ou 250 coroas, em linguiças. Eram uns vinte quilos. Eu não podia aceitar o pagamento: “senhor, não temos cofre refrigerado”, argumentei, “fora que pagamento em gêneros, somente com autorização da Matriz”. É, aquela droga daquele decreto, droga não, perdão; aquele infeliz decreto sancionado pela Dieta, que permite que os agricultores e criadores paguem suas dívidas em gêneros. O resultado foi que homem saiu emburradíssimo, pois eu lhe disse que precisava de autorização da Matriz e que demorava uns dois, três dias. “Até lá toda essa linguiça vai estragar!” rebateu o homem exasperado, “eu não tenho geladeira!”. Eu, Dima e Andrei fizemos uma vaquinha e compramos as linguiças, pois o homem começou a espumar de raiva e disse que nos ia denunciar como traidores, falar que nós não tínhamos feito a tropa; o que é facilmente desmentido por documentos, os nossos, mas até conseguirmos fazê-lo, seríamos exonerados e exonerariam as nossas cabeças dos nossos corpos; então nós três compramos todos aqueles quilos de linguiças do camponês; e como toda comida da região da Falha Norte, extremamente apimentada; fiquei dias, quase duas semanas comendo linguiça e chorando à mesa por causa da pimenta; não aguento mais, por isso pedi transferência para Belavoda, para qualquer uma das três, Matriz ou as de bairro. A campanha me enoja!».

Havia ainda um sonho maior ainda, a agência no exterior, em Bautzen, na Alemanha.

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