227. Ontem e hoje (reedição)

Tostão (100 réis) dos últimos anos do Império

Antes o dinheiro valia ouro. Toda cédula era uma espécie de certificado que correspondia a certo peso em ouro que estava depositado no Banco do Brasil. De vez em quando, o Governo dizia que os dez mil-réis não valiam mais meio grama de ouro, mas a quatro décimos de grama do sonante metal; o que permitia a autoridade monetária imprimir mais dinheiro e, de certa forma, fomentar a inflação.

Hoje existe um Banco Central; não existe mais o lastro em ouro e a moeda vale porque o Governo diz que assim é. As coisas pareciam mais simples antigamente, não?

* * *

 Uma pessoa interessava-se em algum produto — fosse ele comida, uma peça de fazenda, fusíveis, naftalina, tanto faz. Entrava no estabelecimento comercial, quase sempre na mesma rua da casa, batia com os nós dos dedos na madeira do balcão e pedia ao imigrante dono da birosca:

— Seu Giovanni, faça-me lá o favor de dar-me um quilo de batatas e umas pedras de anil.

Bastavam essas palavras e o balbuciante lojista fornecia a mercadoria.

— Sono… son due tostoni…

As duas moedas de 80 réis (ou de 100, de acordo com o período), saíam rápidas do bolso e chocavam-se ruidosas sobre o balcão.

— Aí tem, seu Giovanni. Bom dia.

Simples. Rápido. Eficiente.

Vejamos hoje como se dá o mesmo procedimento. É notório que as pequenas vendas já sumiram. Os supermercados acabaram com elas. Nosso personagem, interessado em batatas, terá de pegar o carro (porque morre de preguiça de ir a pé), passar em algumas ruas de trânsito complicado, estacionar o carro, atravessar corredores entulhados de chamarizes. Até chegar às batatas, o comprador está com as mãos cheias com várias coisas. Por sorte, alguém abandonou ali, do lado das batatas, uma cesta plástica. Acho que anil ninguém mais usa… fiquemos apenas com as batatas.

Tem consigo uns seis itens. Aproveitou para pegar uma garrafa de vermute e foi para o caixa rápido, o de até 20 volumes, que de rápido tem muito pouco. Depois de desfilar por um corredor feito de gôndolas abarrotadas de salgadinhos e revistas várias — olha, a Playboy da fulana! — chega ao caixa. Descarrega a cestinha. A interação com a atendente de caixa é dramática. Observem:

— Bom dia.

— Bom dia.

— Nota fiscal paulista…?

— Sim, por favor.

— O CPF?

Diz o número do CPF.

— Não bate, senhor.

Diz de novo. Trocou algum dígito ou a moça digitou errado; passa as compras.

— Para bebida alcoólica preciso da sua data de nascimento, senhor.

Ele diz.

— São vinte e cinco reais e quarenta e nove centavos, senhor.

Isso porque ele entrara apenas para comprar batatas. O anil não há mais, como já dissemos, e saca um cartão para pagar a dívida.

— Crédito ou débito?

— Débito.

A moça passa o cartão.

— Senha.

O homem digita-a no terminal a sua frente.

— Senha incorreta, senhor… digite novamente.

Nervosamente, o homem digita. Alguns segundos de tensão e o estalo da gaveta da caixa registradora abrindo-se dá por recebido o pagamento.

O homem espera em silêncio. A resposta não tarda:

— Ah, a Prefeitura proibiu as sacolinhas de plástico; são antiecológicas. O senhor pode estar comprando a nossa sacola ecológica por quatro reais e cinquenta.

Por sorte, há umas caixas de papelão próximas. O consumidor põe tudo nas caixas, desce a rampa com as duas mãos ocupadas com a caixa, deposita-a no porta-malas. Põe-se no carro, toma uma fechada na saída do estacionamento, quase pega um ciclista no semáforo e chega em casa com as compras. Tira-as da caixa e nota, não sem uma nesga de desespero no rosto, que esqueceu as batatas no caixa.

* * *

Texto publicado originalmente publicado em 7/12/2011 neste blogue. Publicado também na Tribuna Impressa de 22/2/2012, com alguns acertos.

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