225. ‘Carta aos Editores’ do ‘Álbum de Araraquara’ (1915)

No Centro da imagem, a cidade de 'Araquara', como consta em mapa anexo de "A Província de São Paulo" (1875), de Joaquim Floriano de Godoy

Pedem V.as S.as a minha impressão respeito á obra ALBUM DE ARARAQUARA. Posso, e com prazer o faço, declarar que essa impressão é ecelente. Tem passado a proverbio que somos um paiz desconhecido — e desconhecido, sobretudo, de nós mesmos. É natural que procuremos corrigir-nos desse defeito, e que acabemos por interessar-nos mais pelas nossas cousas do que pelos interesses alheios. Temos o gosto algum tanto roceiro de preocupar-nos demais com a vida de outrem, e pouquíssimo, descuidadamente, com a nossa. Entretanto, a nossa terra e a nossa vida não são assim desinteressantes, sobretudo para nós. Cuidemos delas que vale a pena.

O ALBUM DE ARARAQUARA é uma pequenina, modesta contribuição para essa vasta obra necessária e urjente. Reprezenta um esforço merecedor dos melhores louvores, e digno de imitação. Ainda não ha muito, a Camara de Santos levava a cabo o recenseamento daquele municipio; agora, a de Araraquara proporciona, por meio deste Album, a organização e publicação de uma obra utilissima de documentação historica e estatistica do desenvolvimento da sua cidade. Que esses ezemplos, dados em pequenas tentativas izoladas, por assim dizer individuaes, proliferem: e afinal a nossa terra se abilitará a conhecer-se a si mesma. Creio que melhor a conhecendo no seu passado e no seu prezente, no que foi e no que se tem feito, melhor a amaremos.

Não tenho sinão aplauzos para a tentativa feliz que o ALBUM DE ARARAQUARA reprezenta: essa tentativa, louvável na concepção, realizou-se com ecelente sucesso. Lendo-se o consciencioso e interessante apanhado historico com que abre a obra, e vendo-se, depois, em tantos dados de que é farto o livro, a documentação do que se fez em pouco mais de um seculo desse vago sertão de Araraquara ao qual, ainda em 1788, se referia o celebre Lacerda e Almeida, tem-se espontaneamente uma impressão consoladora de confiança… No futuro? Em nós mesmos.

As obras como essa valem por pequenas mas eloquentes lições de civismo. Ensinam-nos o conhecimento util da nossa terra. Conheçamol-a, ganharemos com isso o dar-lhe o amor e a estima que ela merece.

Vicente de Carvalho

São Paulo, 5 de Março de 1915

P.S.: a grafia, aparentemente simplificada pelo Formulário Ortográfico de 1911, está mantida como se encontra, similar àquela empregada na edição de 1930 das obras de Gregório de Matos, publicada pela Academia Brasileira de Letras.

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