219. Xadrez

Ele sonha com o xadrez.

De manhã, analisa as jogadas de Kasparov entre ciscos de pão e nódoas de café com leite. Sai, vai trabalhar; pega o ônibus ainda de madrugada e entre as cotoveladas e esbarrões dentro do ônibus, vê os movimentos das peças num tabuleiro gigante: preto de asfalto e branco de concreto.

No escritório, pega as contas, seu malote e corre para as filas dos bancos; tantas filas, quilômetros delas. Avança casa a casa, como os peões; com os peões. Avanço lento, mas inexorável; o dia todo. O avanço para chegar do outro lado do tabuleiro e virar dama.

À noite, vai para a escola técnica; bispos e torres ensinam como andar pelo tabuleiro, as aberturas sicilianas do mundo comum. Volta para casa, quase sempre no último ônibus, escapando ao xeque-mate.

Janta com as jogadas de Kasparov, num livrinho puído e sebento, e vai deitar-se com a certeza que não se ganha jogo simplesmente mudando as regras.

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  1. Parabéns

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