231. Letávia, partes III e IV

Um vilarejo

Os textos são de 2005. Creio ter escrito também as partes I e II, mas não me lembro onde estão. Com algumas emendas, são textos que estavam publicados em um dos meus velhos blogues, o Machadada.

* * *

III

Verão em Belavoda. Oito mil seiscentos e trinta e sete habitantes, segundo o último censo, o de 1938. Oito mil seiscentos e trinta e sete habitantes afogados em calor; mesmo em plena Europa, àquelas latitudes, o vale onde se localiza Belavoda — e praticamente toda Letávia — é um lugar particularmente quente. Os meteorologistas não sabem bem explicar o fenômeno, a hipertérmica estiva de Belavoda tem explicações tanto díspares quanto absurdas. Um certo prof. Plewnovicz chegou ao disparate de afirmar que certa espécie de peixe do Tjevá, o bylnje czjórnje ou simplesmente bylnje, — tão apreciado pela população, assado com batatas —, que esse delicioso peixe ósseo clupeiforme, Opisthonema letavica, abundante no Tjevá era o responsável pelo aquecimento do microclima em Belavoda. Tão abundante, que seu preço, para quem o comprava por preguiça de ir pescá-lo, nunca ultrapassava 3 coroas e meia. Segundo a teoria do prof. Plewnovicz, a bexiga natatória do petisco aquático — petisco, visto que é um peixe que não muito grande, oscilando entre 3 e 5 centímetros — produziria excessivo dióxido de carbono, justo no verão, o que, agravado pelo calor e pela topografia do sítio belavodense, produzia calor que ficava estacionado pela ausência de ventos no interior do vale, protegido pelos espigões-mestres das duas cadeias de montanhas que o delimitam.

O artigo, intitulado “O seu jantar o futuro da Letávia”, publicado em fins de 1937 no Nasza Zemljá, jornal oficial do Governo Nacional Oclocrático, causou certa incredulidade no meio científico letavo, porém, tendo sido publicado no jornal oficial, o povo assustou-se. O pobre bylnje czórnje foi banido dos cardápios dos restaurantes; um decreto aprovado pela Dieta declarou-o «inimigo do povo e da Pátria». Outro decreto, alguns dias depois, agraciou com o título de piscis non grato. Criou-se uma espontânea Brigada de Proteção Fluvial, conduzida pessoalmente por Beznjakovicz, que foi aclamado seu secretário-geral; a Brigada deu cabo de milhares de peixes a golpes de bastão nas enseadas do Tjevá próximas a Belavoda. Pouco antes do Natal, auge do cálido inverno, vidros de conserva de bylnje foram quebrados na Praça Czernoczékow por uma multidão enfurecida. No ano-novo de 1938, o Nasza Zemljá, publicou “Livres do flagelo, nosso próximo verão será europeu”. Em julho, mais especificamente em 16 de julho, a temperatura alcançou os insuportáveis 36,5 graus. Os peixes quase desapareceram, porém, o calor veio ainda mais forte. O prof. Plewnovicz foi chamado a dar explicações. Sumira. Ninguém o achava. Descobriu-se que ele havia saído clandestinamente do país cerca de um mês antes — talvez pressentindo o fracasso da sua teoria — com destino à França.

As conservas reapareceram nos mercados, os peixes in natura voltaram para as feiras, bem mais caro, é verdade, umas 60 coroas a libra. A Brigada, do mesmo modo que apareceu, sumiu. Igualmente os decretos sumiram-se da legislação. Ninguém perguntou nada, ninguém respondeu nada. A base alimentícia mudou do bylnje para as perszebálnyje, ou a popular couve-de-bruxelas, depois de uma campanha governamental em prol dos vegetais, tão adaptados ao clima da várzea. Na Praça Czernoczékow foi posto um tabelão: uma pintura representante um Beznjakovicz sorridente, sentado, com guardanapo amarrado ao pescoço, tendo diante de si, um prato fumegante de perszebálnyje cozidas na manteiga. Embaixo dessa bela figuração, um belo lema: “nossos repolhos não fedem”. Logo depois, emitiu-se uma série de selos postais, com as plantas em vários estágios — semente, broto, planta formada, colheita, preparação e um prato pronto, assadas — nos valores de 1, 5, 10, 30, 75 térty e 1 coroa. Fora a moeda comemorativa de 1 coroa e meia.

Passados os peixes, outra teoria que se levantou foram as fricções da placa da Letávia — a placa tectônica elíptica enquistada no meio da Euro-Asiática, tendo 62 quilômetros de raio, a menor do mundo — com a Euro-Asiática. O calor viria de emissões de gases das falhas, por conta do movimento da Terra, principalmente no verão, e as ondas de gás e calor, pelo acidente geográfico, confluíam para o centro do disco, justamente a área de Belavoda. Essa teoria é a mais aceita, inclusive pela Academia de Ciências da Letávia.

Tendo sido apresentado um relatório ao Supremo Condutor, este determinou ao Ministro de Obras Públicas, o camarada Ián Ljebánjovicz Antáll que se concretasse toda a área das falhas. A colossal obra consumiu centenas de milhares de metros cúbicos de concreto; toda a área das falhas ficou com aspecto semelhante a uma represa; isso já no limiar da guerra, ou seja, no fim do inverno de 1939. O verão de 1940 está sendo igualmente quente. A temperatura confirma a vocação de balneário de Belavoda, isso se a Letávia tivesse mar; mas é mediterrânea.

IV

Rua da Avícola, próximo à Praça Czernoczékow; paralelo à praça, duas quadras para cima. Ali há uma agência bancária, a Agência Matriz do Banco Popular e Nacional — Naradnaja i Gassudrastvénnaja Banka, mais conhecido pela abreviação Nagoban —; banco estatal para diversas coisas: fomento à agricultura, empréstimos pessoais para pequenos negócios, para compra de armas — já que a legislação «nacional e oclocrática» permite ao cidadão letavo possuir armas desde que pertença a uma das seis milícias nacionais voluntárias —, e algumas outras coisas. Mas a maior e excelsa função desse banco era a concessão de fundos espontâneos para os parlamentares, assessores de ministros, ministros, pessoas fidedignas e digníssimas indicadas por outras igualmente excelsas e desconhecidas, mas muito poderosas e generosas.

No térreo do prédio da Rua da Avícola, o interior da agência era escuro; móveis e gradis de madeira escura, o odor predominante era da madeira. Logo na entrada, umas mesas e por detrás do gradil algumas outras, destinadas aos supervisores e no fundo, o gabinete do gerente e a porta da Tesouraria; num canto, dois elevadores para acessar os seis andares do colosso de tijolos, inclusive o Departamento de Emissão, responsável pela emissão das coroas letavas e também o gabinete do Presidente do Banco, que é indicação do Ministro das Finanças.

Além da Agência Matriz, o grande Banco possuía outras sete: uma no bairro belavodense de Czétiry Dómoj, outra, já no último distrito da cidade antes da área rural, o de Tjevánnaja; e mais quatro em quatro cidades letavas: Njemántsk, Brátska, Narádna e Czernavoda. Trabalhar na Matriz, na Capital, era a vontade suprema de todos os funcionários alocados fora no interior, sonho de realização pessoal. «A vida está na capital», disse certa vez um auxiliar de escrita, «aqui em Brátska, em meio aos porcos desses camponeses imundos, o que se pode esperar? Só vêm fazer empréstimos para que os porcos não lhes morram de fome. Outro dia, um suinocultor de Bela Bystrica, ali, um distritinho rural da cidade, veio pagar-me a parcela do empréstimo, coisa de umas 200 ou 250 coroas, em linguiças. Eram uns vinte quilos. Eu não podia aceitar o pagamento: “senhor, não temos cofre refrigerado”, argumentei, “fora que pagamento em gêneros, somente com autorização da Matriz”. É, aquela droga daquele decreto, droga não, perdão; aquele infeliz decreto sancionado pela Dieta, que permite que os agricultores e criadores paguem suas dívidas em gêneros. O resultado foi que homem saiu emburradíssimo, pois eu lhe disse que precisava de autorização da Matriz e que demorava uns dois, três dias. “Até lá toda essa linguiça vai estragar!” rebateu o homem exasperado, “eu não tenho geladeira!”. Eu, Dima e Andrei fizemos uma vaquinha e compramos as linguiças, pois o homem começou a espumar de raiva e disse que nos ia denunciar como traidores, falar que nós não tínhamos feito a tropa; o que é facilmente desmentido por documentos, os nossos, mas até conseguirmos fazê-lo, seríamos exonerados e exonerariam as nossas cabeças dos nossos corpos; então nós três compramos todos aqueles quilos de linguiças do camponês; e como toda comida da região da Falha Norte, extremamente apimentada; fiquei dias, quase duas semanas comendo linguiça e chorando à mesa por causa da pimenta; não aguento mais, por isso pedi transferência para Belavoda, para qualquer uma das três, Matriz ou as de bairro. A campanha me enoja!».

Havia ainda um sonho maior ainda, a agência no exterior, em Bautzen, na Alemanha.

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230. O diabo mora na tipografia

Teclado de linotipo

Por Roberto Gomes

Revisar textos é tarefa inglória (editar também, mas isto fica para outra ocasião). Por mais neuróticos compulsivos que sejam os revisores, já sabemos de antemão que algo escapará, algum descuido mais ou menos grave ficará para sempre impresso numa página tantas vezes vista e revista. O Fernando Sabino fala disto numa crônica antiga, lembrando um ditado que circula desde Gutenberg pelas oficinas gráficas e que ainda hoje se insinua nos ambientes informatizados: “o diabo mora na tipografia”.

Desde que me meti nisto de editar livros, sou perseguido, no entanto, por uma sina particular. O livro pronto, chegado da gráfica, é retirado do pacote. É um prazer insuperável. O cheiro de livro recém-saído da gráfica só é comparável ao do pão recém-saído do forno. Uma delícia. Depois de conferir capa, contracapa, folhear rapidamente as páginas, de colocar o livro sobre uma mesa ou numa prateleira para ver o efeito, chega o momento crucial: abrir o livro.

É quando entro em pânico. A sina que me persegue é a seguinte: sei que vou abrir aquele livro exatamente numa página que contém um erro, não raro o único erro de todo o livro. Numa editora que dirigi, os funcionários me traziam os livros recém-editados com o coração aos pulos (coração de revisor é muito sensível, como se sabe). Estavam convencidos de que eu abriria numa página com algum erro de revisão. E não dava outra: lá estava a vírgula fora do lugar, o ponto duplicado, o parêntesis que não foi fechado, o travessão inesperado, o s no lugar de um z. Recentemente, abri um livro que editei na página que havia um “ehos” no lugar de um óbvio “ethos”. Como passou despercebido? Impossível. No entanto, lá está o erro não visto,que agora nos salta aos olhos como se fosse um holofote. Brilha para todos os lados, ocupa todo o espaço da mancha impressa, ri de nossos cuidados.

Certa ocasião, eu lia um livro sobre editoração quando, lá pelas tantas, o autor dizia que um livro merece ser editado com máximo cuidado e, portanto, não pode conter nenhum erro. Fiquei chocado com esta afirmação temerária. Não se deve escrever tal coisa, ao menos num livro, pensei. Bom, duas páginas adiante, lá estava o erro: todos os números de página eram impressos em vermelho, menos naquela, onde saiu em preto. Pronto. O diabo, como sempre, dera uma voltinha pela tipografia.

É um problema que merece reflexão. Deve haver, por alguma razão, em algum lugar do cosmos, uma conspiração das letras, das máquinas, das palavras, quem sabe obra de algum espírito brincalhão que se mete entre as páginas. Talvez circulem no mundo palavras em demasia, livros em excesso, páginas redundantes. Os deuses da literatura nos castigam com estas gafes para que não percamos a humildade.

Já em 1980 eu andava atormentado por esta triste sina, quando, em São Paulo, percorria quilométricos corredores de uma Bienal do Livro. Bisbilhota daqui e dali, folheia livros a cada estante, resolvi parar num canto para examinar uma montanha de catálogos coletados na caminhada. Mas minha atenção foi despertada por um sujeito que estava expondo xilogravuras num corredor anexo. Fui bisbilhotar, que é o que mais se faz em Bienais. Era um bom gravurista, chamado Marcelo Soares, munido de chapéu de aba larga e boa lábia nordestina. Conversamos e, lá pelas tantas, descobri o que me levara àquele lugar.

Misturada a outras gravuras, encontrei uma intitulada “Lampião chutando o traseiro do Diabo”. Eis a razão pela qual eu fora à Bienal, pensei. Lampião desferindo um potente chute na bunda do Diabo me pareceu uma imagem perfeita para os dramas que enfrentamos ao editar.

Comprei a gravura, mandei emoldurá-la e até hoje ela está comigo, aqui na parede ao lado, como uma espécie de santo protetor dos sofrentes (ésofrentes mesmo, revisor, não corrija) escrevinhadores e editores e revisores. Com esta xilogravura por perto, me sinto mais tranqüilo, mas, é claro, não livre de erros. Quando eles acontecem, vou até a xilogravura e, como devotos de outros santos devem fazer, converso com Lampião, reclamando não ter sido alertado por este tropeço. Um homem tão poderoso, digo a ele, capaz de colocar em debandada os macacos da Volante, como não me protegeu deste ridículo “ehos”?!

Lampião nem me olha. Limita-se a desferir novo chute na bunda do Diabo.

Bem, ao menos tenho como companheiros vários revisores amigos dos quais me apiedo: a Antônia Schwinden, o Renato Bittencourt Gomes, a Silvana Seffrin, e minha mulher, Iria, que conserta as trapalhadas que digito. Criaturas mais competentes do que eu nesta tarefa, digna de Sísifo, de cavoucar gafes impressas. Rezo por eles a meu santo protetor, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, já que todos vivemos aterrorizados com a possibilidade de uma simples vírgula se transformar num holofote.

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Pego aqui.

229. “Malthus”, Diogo Mainardi

Capa da edição da Record (2006)

O tempo em que considerava Diogo Mainardi um palhaço pago pela CIA já passou. Cresci bastante intelectualmente e livrei-me do maniqueísmo safado que reina neste país, das deduções políticas por gosto.

Deixando os preconceitos de lado, li “Lula é minha anta”, que considero uma coleção de porta-retratos. Cada um com a face tosca da desfaçatez que reina do Brasil e que tem seu expoente máximo na nababesca corte lulista, com direito a até mesmo um Rasputeu.

Mas esqueçamos o “odiado” colunista político da “odiada” Veja. É de outro Mainardi que falo.

A leitura de “Malthus” espantou-me sobremaneira. Basicamente, por três fatos: 1) o uso — nem que seja parcial ou truncado — de um pensamento da filosofia econômica para explicar a “progressão geométrica da estupidez”, como já o diz o também jornalista e escritor Mario Sabino, na orelha do livro; 2) o acerto pleno dessa alegoria e; 3) o recurso ao nonsense como parte da ‘pintura’ da alegoria. Em suma, um livro excelente e recomendável, cuja leitura se faz em uma ou duas sentadas.

Em poucas — mas cheias — páginas, Mainardi dedica-se a contar a trajetória de Loyola y Loyola, uma espécie de trambiqueiro mambembe, cuja principal ocupação é estabelecer-se em algum lugar, até que termina multiplicado por quarenta por um messias redivivo.

Frente à esterilidade e à vacuidade da Literatura brasileira contemporânea, “Malthus” surge e refulge. É digno do epíteto de pérola. Espero sinceramente que, algum dia, façam um filme baseado no livro. Seria algo interessantíssimo de ver.

228. Divertimentos filológicos

Ortografia: metálica, pesada, porém maleável

Um leitor desta Tribuna fez-me a seguinte observação: “Nas receitas que vejo eventualmente transcritas no jornal, noto sempre a grafia muçarela. Assim, com cê-cedilha mesmo. Curioso porque não vejo essa grafia em lugar algum! É sempre mussarela”.

Queijos e ortografia. Dois assuntos muito passionais, nos quais se formam facções e há feras pelejas. Já diria o General de Gaulle, referindo-se à França, que é impossível governar um país com 246 variedades de queijo. Mas, hoje, nosso assunto é a querela ortográfica apresentada.

Quando se entra em um supermercado ou casa de frios, os tabelões e as etiquetas acusam: mussarela. Por que a insistência, então, da padronização de uma grafia, digamos, estranha? Questão de fidelidade.

O nome do queijo vem do italiano mozzarella. É sabido que o ‘z’ do italiano tem a pronúncia /ts/ — como em pizza — ou /dz/. Que também era a função inicial do cê-cedilha no português medieval.

Embora não pronunciemos mais o cê-cedilha como /ts/, simplificado a /s/, mantém-se para a aclimatação ortográfica da mozzarella. As alternativas indicadas pelo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da ABL (Volp) são: mozarela e muzarela, mas que não refletem a realidade da pronúncia.

Apenas por curiosidade: o cê-cedilha surgiu para transcrever um som inexistente em latim, por isso a solução ortográfica criativa. Em italiano, a solução foi adotar o zê para o novo som; em português, francês, espanhol (hoje não mais) e francês, usou-se inicialmente um ‘cz’ — um dígrafo hoje visualmente estranho —; logo o zê foi para baixo do cê e tomou a forma de ‘vírgula’ ou ‘gancho’ que hoje tem. Tanto que cedilha vem do castelhano zedilla, ‘pequeno zê’.

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Artigo publicado na Tribuna Impressa de 23/02/2012. Também disponível no Araraquara.com.

227. Ontem e hoje (reedição)

Tostão (100 réis) dos últimos anos do Império

Antes o dinheiro valia ouro. Toda cédula era uma espécie de certificado que correspondia a certo peso em ouro que estava depositado no Banco do Brasil. De vez em quando, o Governo dizia que os dez mil-réis não valiam mais meio grama de ouro, mas a quatro décimos de grama do sonante metal; o que permitia a autoridade monetária imprimir mais dinheiro e, de certa forma, fomentar a inflação.

Hoje existe um Banco Central; não existe mais o lastro em ouro e a moeda vale porque o Governo diz que assim é. As coisas pareciam mais simples antigamente, não?

* * *

 Uma pessoa interessava-se em algum produto — fosse ele comida, uma peça de fazenda, fusíveis, naftalina, tanto faz. Entrava no estabelecimento comercial, quase sempre na mesma rua da casa, batia com os nós dos dedos na madeira do balcão e pedia ao imigrante dono da birosca:

— Seu Giovanni, faça-me lá o favor de dar-me um quilo de batatas e umas pedras de anil.

Bastavam essas palavras e o balbuciante lojista fornecia a mercadoria.

— Sono… son due tostoni…

As duas moedas de 80 réis (ou de 100, de acordo com o período), saíam rápidas do bolso e chocavam-se ruidosas sobre o balcão.

— Aí tem, seu Giovanni. Bom dia.

Simples. Rápido. Eficiente.

Vejamos hoje como se dá o mesmo procedimento. É notório que as pequenas vendas já sumiram. Os supermercados acabaram com elas. Nosso personagem, interessado em batatas, terá de pegar o carro (porque morre de preguiça de ir a pé), passar em algumas ruas de trânsito complicado, estacionar o carro, atravessar corredores entulhados de chamarizes. Até chegar às batatas, o comprador está com as mãos cheias com várias coisas. Por sorte, alguém abandonou ali, do lado das batatas, uma cesta plástica. Acho que anil ninguém mais usa… fiquemos apenas com as batatas.

Tem consigo uns seis itens. Aproveitou para pegar uma garrafa de vermute e foi para o caixa rápido, o de até 20 volumes, que de rápido tem muito pouco. Depois de desfilar por um corredor feito de gôndolas abarrotadas de salgadinhos e revistas várias — olha, a Playboy da fulana! — chega ao caixa. Descarrega a cestinha. A interação com a atendente de caixa é dramática. Observem:

— Bom dia.

— Bom dia.

— Nota fiscal paulista…?

— Sim, por favor.

— O CPF?

Diz o número do CPF.

— Não bate, senhor.

Diz de novo. Trocou algum dígito ou a moça digitou errado; passa as compras.

— Para bebida alcoólica preciso da sua data de nascimento, senhor.

Ele diz.

— São vinte e cinco reais e quarenta e nove centavos, senhor.

Isso porque ele entrara apenas para comprar batatas. O anil não há mais, como já dissemos, e saca um cartão para pagar a dívida.

— Crédito ou débito?

— Débito.

A moça passa o cartão.

— Senha.

O homem digita-a no terminal a sua frente.

— Senha incorreta, senhor… digite novamente.

Nervosamente, o homem digita. Alguns segundos de tensão e o estalo da gaveta da caixa registradora abrindo-se dá por recebido o pagamento.

O homem espera em silêncio. A resposta não tarda:

— Ah, a Prefeitura proibiu as sacolinhas de plástico; são antiecológicas. O senhor pode estar comprando a nossa sacola ecológica por quatro reais e cinquenta.

Por sorte, há umas caixas de papelão próximas. O consumidor põe tudo nas caixas, desce a rampa com as duas mãos ocupadas com a caixa, deposita-a no porta-malas. Põe-se no carro, toma uma fechada na saída do estacionamento, quase pega um ciclista no semáforo e chega em casa com as compras. Tira-as da caixa e nota, não sem uma nesga de desespero no rosto, que esqueceu as batatas no caixa.

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Texto publicado originalmente publicado em 7/12/2011 neste blogue. Publicado também na Tribuna Impressa de 22/2/2012, com alguns acertos.

226. Filosofia caseira

Como Sartre, é necessário ter "um olho no peixe e outro no gato"

Terça-feira de Carnaval talvez não seja o dia mais adequado para reflexões aprofundadas, mas, mesmo assim, tentemos um pequeno voo.

Tive muitos colegas que cursaram Filosofia; na USP de São Paulo, os prédios de Letras e Ciências Sociais são vizinhos, o que tornava nosso convívio quase que obrigatório. Gosto de Filosofia. “A República” de Platão é uma obra, em certos aspectos, válida até hoje. Fora a Filosofia política de Maquiavel e Marx.

Mas chamava-me a atenção que os meus colegas sempre citavam filósofos. Claro que não há problema algum em citá-los, mas a coisa sempre se deu sob uma certa escolástica. Em suma: eles se imbuíam daquelas teorias que, como parasitas, matavam qualquer germe de pensamento próprio.

Não estou dizendo que devemos abdicar da leitura dos grandes mestres, mas não é possível que concordemos sempre e em tudo com eles. A academia tem a desvantagem de matar o pensamento próprio; se não tomamos cuidado, tornamo-nos simples replicantes durante graduação, mestrado e doutorado.

“Antes o certo que o duvidoso”, dirá alguém. Mas, se não nos arriscamos fora do já existente, se não criarmos nossas próprias pequenas teorias, estaremos condenados. Nosso amor excessivo à terra firme pode nos manter em uma condição perene de náufragos.

E digo tudo isso não por ódio à academia, mas pela a necessária fuga do academicismo e do dogmatismo. Temos direito de ter nossas próprias teorias; afinal, uma teoria não é a verdade absoluta, mas uma maneira de explicar a realidade observada.

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Texto publicado na Tribuna Impressa de 21/2/2012. Também disponível no Araraquara.com.

225. ‘Carta aos Editores’ do ‘Álbum de Araraquara’ (1915)

No Centro da imagem, a cidade de 'Araquara', como consta em mapa anexo de "A Província de São Paulo" (1875), de Joaquim Floriano de Godoy

Pedem V.as S.as a minha impressão respeito á obra ALBUM DE ARARAQUARA. Posso, e com prazer o faço, declarar que essa impressão é ecelente. Tem passado a proverbio que somos um paiz desconhecido — e desconhecido, sobretudo, de nós mesmos. É natural que procuremos corrigir-nos desse defeito, e que acabemos por interessar-nos mais pelas nossas cousas do que pelos interesses alheios. Temos o gosto algum tanto roceiro de preocupar-nos demais com a vida de outrem, e pouquíssimo, descuidadamente, com a nossa. Entretanto, a nossa terra e a nossa vida não são assim desinteressantes, sobretudo para nós. Cuidemos delas que vale a pena.

O ALBUM DE ARARAQUARA é uma pequenina, modesta contribuição para essa vasta obra necessária e urjente. Reprezenta um esforço merecedor dos melhores louvores, e digno de imitação. Ainda não ha muito, a Camara de Santos levava a cabo o recenseamento daquele municipio; agora, a de Araraquara proporciona, por meio deste Album, a organização e publicação de uma obra utilissima de documentação historica e estatistica do desenvolvimento da sua cidade. Que esses ezemplos, dados em pequenas tentativas izoladas, por assim dizer individuaes, proliferem: e afinal a nossa terra se abilitará a conhecer-se a si mesma. Creio que melhor a conhecendo no seu passado e no seu prezente, no que foi e no que se tem feito, melhor a amaremos.

Não tenho sinão aplauzos para a tentativa feliz que o ALBUM DE ARARAQUARA reprezenta: essa tentativa, louvável na concepção, realizou-se com ecelente sucesso. Lendo-se o consciencioso e interessante apanhado historico com que abre a obra, e vendo-se, depois, em tantos dados de que é farto o livro, a documentação do que se fez em pouco mais de um seculo desse vago sertão de Araraquara ao qual, ainda em 1788, se referia o celebre Lacerda e Almeida, tem-se espontaneamente uma impressão consoladora de confiança… No futuro? Em nós mesmos.

As obras como essa valem por pequenas mas eloquentes lições de civismo. Ensinam-nos o conhecimento util da nossa terra. Conheçamol-a, ganharemos com isso o dar-lhe o amor e a estima que ela merece.

Vicente de Carvalho

São Paulo, 5 de Março de 1915

P.S.: a grafia, aparentemente simplificada pelo Formulário Ortográfico de 1911, está mantida como se encontra, similar àquela empregada na edição de 1930 das obras de Gregório de Matos, publicada pela Academia Brasileira de Letras.

224. Um século, três reformas

Detalhe do Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Portugal)

Parece que nos países lusófonos — mormente em Portugal e no Brasil — existe uma sanha burocrática para com a língua. Das línguas ocidentais ditas “de cultura”, o português é a única que tem acordos ortográficos regulados por decreto. Tivemos três acordos em menos de um século; e mesmo assim, sempre há distensões com a ex-metrópole.

O Formulário Ortográfico de 1943 tirou da escrita as letras dobradas, que se mantinham por etimologia: gramma (peso) passou a ser escrito grama. Assim como os dígrafos etimológicos de Chimica (hoje, Química) ou pharmacia (farmácia). Este formulário não foi implantado em Portugal, que já seguia uma grafia simplificada desde 1911. Tentou-se um acordo em 1931. Tentou-se outro em 1945, mas somente Portugal o adotou; o Brasil continuou com a regra de 1943.

Em 1971, nova alteração entrou em vigor por força da lei federal 5.765, de 18/12. Suprimiram-se dezenas de acentos diferenciais e o secundário em palavras derivadas (bàsicamente, cafèzinho).

Finalmente, em 1990, a Academia Brasileira de Letras e a Academia de Ciências de Lisboa chegaram a uma solução para igualar a grafia dos dois lados do Atlântico. O Brasil adotou o novo em 2010, com prazo de dois anos para sua aplicação; Portugal também, com prazo de seis anos. Não obstante protestos e recusas da intelectualidade portuguesa.

A quase 190 anos de nossa autonomia política, não seria tempo de pensarmos em um padrão brasileiro para a língua? Lembremos da relação entre o holandês e o africânder; faz-se necessário um padrão não apenas ortográfico, mas também sintático. E era bom que a ABL se eximisse de tal carga.

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Texto publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em 16/2/2012. Também disponível aqui.

223. Problemas com água

Cheia do Tibre em 2006

A relação da Humanidade com a água é de amor e ódio. Amor porque o líquido é vital para nossa existência e compõe cerca de 70% do nosso peso; não vivemos mais de dois dias sem ele. Por isso, quando deixamos o nomadismo da caça e da coleta e passamos a ser agricultores, tivemos de estabelecer-nos à beira dos cursos d’água; água para beber e irrigar as lavouras.

Talvez o Egito antigo seja o melhor exemplo de civilização modelada pela necessidade da água; conhecido como um povo que pensava excessivamente no pós-morte (as pirâmides eram nada mais que tumbas), vejo-o organizado em função do Rio Nilo: as cheias cíclicas traziam matéria orgânica que adubava o vale a ser cultivado. Um gigantesco oásis linear.

Mas a proximidade com os cursos d’água nem sempre é benfazeja. Roma sofria com as cheias devastadoras do Tibre desde a época imperial, como relatam vários cronistas. O Tâmisa assombrou Londres até os anos 1980; volta e meia, Tietê e Pinheiros enfurecem-se contra os canais que os sufocam entre o concreto da Capital paulista.

Hoje, a água chega às nossas casas pelas tubulações, o que é fácil e cômodo. Há bombas, reservatórios, irrigadores automáticos. Não precisamos mais ocupar os vales. E por que continuamos a ocupá-los? Melhor: por que permitimos que continuem a ser ocupados?

A última enchente em Araraquara mostrou a necessidade de deixarmos livres as várzeas. Respeitar o espaço de desafogo dos cursos d’água em vez de lotearmos suas bordas. Quando tudo já está construído, é difícil alterar, mas torçamos para que as novas áreas sejam pensadas com esse raciocínio.

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Artigo publicado na Tribuna Impressa de  16/2/2012. Disponível também aqui.

222. Álbum de Araraquara

A cidade de Araraquara tem sorte do ponto de vista historiográfico. O “Álbum de Araraquara”, editado em 1915, traz informações detalhadas da política, do comércio e da indústria da cidade que estava em via de comemorar seu primeiro centenário. Além da recolha de curiosidades históricas, é ricamente ilustrado e tem como texto inicial um elogiosa carta de Vicente de Carvalho, o laureado poeta santista.

Está em minhas mãos uma edição fac-similar dos anos 1960 (ao que parece) e que pretendo digitalizá-la e deixá-la disponível para consulta. Abaixo, as primeiras provas de digitalização.

Capa rígida da edição dos anos 1960 que mostra, entre motivos florais, o Paço Municipal (Prefeitura e Câmara)

Folha de rosto

221. Enchente

Foto de Moisés Schini/Tribuna Impressa

Meia hora de chuva. Não precisou de mais. Algo assim, só havia visto em São Paulo, cidade vedada de asfalto; achava que era impossível que um enchente dessa magnitude ocorresse em Araraquara, cidade larga mas cercada de campos, logo, área permeável.

Meia hora de chuva. Densa como cortina de acrílico de banheiro; leitosa. Rapidamente o Córrego do Ouro, que corta algumas áreas do Sul da cidade e passa diante do Terminal Rodoviário, começou a subir. Águas rápidas e barrentas. Uma van desavisada entrou na enxurrada e um de seus passageiros foi levado.

Meia hora de chuva. Pontes ruídas. Um córrego que subiu cinco metros. Casas inundadas. Em um ano e um mês que estou em Araraquara, não vira cheia dessa monta e tão rápida. As águas plácidas e de rasas de todos os dias enfureceram-se e quiseram um lago.

220. A Estrela Morta

Por Rodrigo Brandão

“[O PT] Continua fiel a seus compromissos originários.” Eu, de verdade, não sabia que o Mensalão — cuja prescrição das penas é iminente, sob a inércia do STF, de modo que as sentenças não tenham efeito — fazia parte dos conceitos primitivos do PT. A bandeira da incorruptibilidade caiu.

“Para tanto, constituiu uma estrutura interna democrática, apoiada em decisões coletivas, sem mandonismo nem caciques, pautada pela vontade majoritária das bases.” Após insistência de Lula e Dilma, Marta Suplicy abriu mão da candidatura à prefeitura paulistana e caminho para Fernando Haddad, ex-ministro da Educação. Agora, Marta está com medo de “acordar de mãos dadas com Kassab”. Relaxa e goza. Cadê as prévias? Não enxergo debate. Apenas caciques. Na ânsia estratégica de assumir o Executivo do principal município do Brasil, caiu a bandeira do modelo democrático interno. E ergueu-se a das alianças escusas. Ou José Sarney, por exemplo, é um aliado que inspira credibilidade e, mais, dignidade?

Em 2001, a greve da PM na Bahia, governada à época pelo PFL-DEM, foi defendida pelo PT. Hoje, é reprimida. Caiu a bandeira da coerência entre discurso e prática. Impera o cinismo do silêncio.

O PT chega ao seu trigésimo segundo aniversário deformado em relação ao belíssimo projeto original, de ideais ascendentes e humanitários. Assopra a apagada vela da estrela morta e bate palma para Maquiavel.

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Texto publicado na Tribuna Impressa de Araraquara/SP de 12/2/2012. Disponível também aqui.

219. Xadrez

Ele sonha com o xadrez.

De manhã, analisa as jogadas de Kasparov entre ciscos de pão e nódoas de café com leite. Sai, vai trabalhar; pega o ônibus ainda de madrugada e entre as cotoveladas e esbarrões dentro do ônibus, vê os movimentos das peças num tabuleiro gigante: preto de asfalto e branco de concreto.

No escritório, pega as contas, seu malote e corre para as filas dos bancos; tantas filas, quilômetros delas. Avança casa a casa, como os peões; com os peões. Avanço lento, mas inexorável; o dia todo. O avanço para chegar do outro lado do tabuleiro e virar dama.

À noite, vai para a escola técnica; bispos e torres ensinam como andar pelo tabuleiro, as aberturas sicilianas do mundo comum. Volta para casa, quase sempre no último ônibus, escapando ao xeque-mate.

Janta com as jogadas de Kasparov, num livrinho puído e sebento, e vai deitar-se com a certeza que não se ganha jogo simplesmente mudando as regras.

218. Em nome de quem?

A Justiça, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul

Em questão de um mês, vimos três manobras políticas assombrosas que põem em risco a credibilidade das instituições da res publica e é impossível não vê-las emaranhadas entre o oportunismo político e o quixotismo.

Primeiro, o imbróglio do Pinheirinho. Orquestrado para que a bomba estourasse na mão do Governo do Estado, a confusão judiciária entre tribunais e varas que não tinham jurisdição entre si deixou claro que os moradores foram usados como massa de manobra. Ao Governo, não restava obedecer à ação de reintegração, sob pena de descumprir a Constituição. Houve capitalização política para os que se opõem ao governo tucano de São Paulo.

Segundo, a questão da PM baiana. Se bem que se trata de um ‘tiro no pé’ dos que são situação local e federal. Por mais justas que sejam as reivindicações dos policiais militares, deixaram a Bahia toda à mercê da violência e infligiram o dispositivo constitucional que lhes veta o direito de greve, já que as PMs são consideradas parte das Forças Armadas. Silêncio total na esquerda; afinal, o Estado é governado por ela.

Por último, mas de alta importância, o vazamento do auto de infração da Receita Federal à Prefeitura de Araraquara por conta dos créditos tributários. Há uma questão espinhosa por trás disso: um erro (se houve) não se conserta com outro. Existe uma legislação que veta a divulgação do auto; está no Código Tributário; e “em nome do povo” não se pode passar sobre a lei.

Basta folhear um livro de História para arrolar desmandos, expurgos, pogroms e genocídios justificados por “em nome do povo” e “por um bem maior” e que camuflavam interesses espúrios.

Em nome de quem?

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Publicado na Tribuna Impressa de Araraquara. Disponível também no Portal Araraquara.com.