216. Por uma teoria da percepção e do conhecimento

Aula de geometria (fonte: en.wiki)

É com surpresa que vejo certas manifestações. Não tem muito tempo que vi, em um jornal, uma pequena seção que colhe opiniões dos populares sobre algum assunto que esteja em voga no momento, e as publica. Com relação à onda de explosões de caixas eletrônicos, o jornal fez a seguinte pergunta: “Os roubos aos caixas eletrônicos estão se tornando comuns. Será que está virando profissão?”, mais ou menos nesses termos.

Um dos entrevistados respondeu: “Não. Não pode e não deve. Roubar é algo feio e horrível; não deve virar profissão”.

Um terrível problema de “ruído” aqui. O entrevistado não entendeu a ironia existente no termo. Compreendeu-o em sentido literal e manifestou-se contra a ladroagem virar profissão. Louvável opinião, mas problemática pela sua conclusão.

Nosso ambiente cultural é asfixiante, bem se sabe. Reclamávamos do duplo sentido presente nas letras de axé, há 10, 15 anos, e hoje elas nos parecem requintadas por recorrerem a tal mecanismo de metáfora. Principalmente quando há letras de funk obscenas, sem meios termos; o duplo sentido perde a razão de ser. Vira recurso poético.

É claro que tal deficiência de compreensão é fruto de concepções que não valorizam a educação e de um Estado incompetente nesse setor. A fome com a vontade de comer.

* * *

Penso que a percepção-conhecimento — uno-os assim porque os vejo como sendo o mesmo mecanismo — organiza-se como as dimensões geométricas: comprimento (horizontal), altura (vertical) e profundidade (que com as anteriores, cria o volume). Afinal, não é em vão que se utiliza a expressão “linha de pensamento”.

A mente, por sua forma de processar as informações, também podem ser “geometricamente” qualificadas. Para tanto, é preciso passar a geometria tradicional para esta que se propõe uma “geometria do pensamento”.

O comprimento são as informações in natura, colhidas da observação do mundo, sem nenhuma intervenção por quem as coleta.

A altura é a variação que o indivíduo dá ao comprimento. Digamos que o caso da ironia e da metáfora encaixe-se aqui. De uma informação x, no plano, eleva-se uma linha y, deslocando a horizontalidade do termo inicial e provocando o desvio de sentido, criando um raciocínio bidimensional. Em suma, é a intervenção do sujeito pensante na informação inicial; intervenção feita com elementos do próprio mundo, uma alavancagem semântica.

A profundidade são as referências culturais que permitem as ciências e a filosofia; é o pensamento que nasce do olha crítico do objeto horizontal; a interferência na linha outrora direta estabelecida entre objeto e observador. Mais que observador, o sujeito torna-se interventor.

E, por adição, temos três classes de raciocínio, em ordem crescente:

O linear, monodimensional. É baseado no comprimento: são pontos e linhas horizontais entre pontos; nada que fuja da horizontalidade é perceptível. É como a criança vê o mundo em suas primeiras percepções. Refuta a duplicidade; refuta o duplo sentido; refuta a metáfora. Funciona por oposições binárias, de ponto a ponto, sempre horizontal. O pensamento monodimensional aceita os dados do mundo tal como lhe são apresentados, sem questionamentos, sem relações.

O vertical, bidimensional. Conjugando-se os dois planos, há o pensamento que se desloca em aclives e declives, provocando a alteração da informação captada do mundo. É o nível das figuras de linguagem, das oscilações de registro preconizadas pela Linguística. A maioria das pessoas qualificadas como sagazes e inteligentes têm essas duas articulações dimensionais. Os índices de deslocamento vertical, no entanto, também são fornecidos pelo mundo; mas são devidamente interpretados.

O profundo, tridimensional. É a cognição humana por excelência. A articulação das três linhas. Toma-se o conhecimento do mundo pela horizontal, transforma-o alterando-lhe o sentido, na vertical e, cria-se um sentido àquilo, particular para cada indivíduo. É aqui que nascem teorizações sobre o mundo, questionamentos, ideias.

Em linhas gerais, pode-se dizer que são assim organizados:

Monodimensional: X é x, logo, x não pode ser y (opõe-se a).

Bidimensional: X pode ser y, segundo o contexto.

Tridimensional: X pode ser y e também penso que possa ser z. (aqui entra a criação)

Essa singela teoria não tem o intuito de explicar mecanismos cognitivos, mas sim organizá-los espacialmente. Não se deve confundir os escopos.

* * *

Voltando ao caso sintomático apresentado na primeira parte, nosso entrevistado não consegue fazer um movimento vertical, dentro de um pensamento bidimensional. Está preso em um mundo de oposições maniqueístas.

Óbvio que, eventualmente, tais situações monodimensionais produzem-se por mera desatenção. Mas pode ser um índice de que as coisas não estão tão bem quanto dizem.

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