217. À espera de um ‘mea culpa’

Banida oficialmente.

O banimento das sacolinhas plásticas teve seu marco inicial prático ontem (25/1): mercados da cidade deixaram de fornecê-las a seus consumidores. Elas são um problema ambiental; demoram cem anos para decompor-se. Alegra-me que nos deixarão.

Por outro lado, o que é insuportável é o oportunismo de certos setores comerciais e industriais. Passou-se toda a culpa para o consumidor, como se mais ninguém tivesse nada a ver com o assunto. Em nome de uma bela causa, o meio ambiente, faz-se “caridade com chapéu alheio”: também o custo foi todo transferido ao consumidor. Assim lhes é fácil e indolor.

O esquema de substituição proposto é, no mínimo, espúrio. Os supermercados fornecem ecobags (a um preço alto) e sacolinhas biodegradáveis (R$ 0,19 cada) e fica por isso mesmo. Como apurou reportagem desta Tribuna de 24/1, o uso doméstico das sacolinhas para, por exemplo, acomodação de lixo para coleta, terá de ser provido por sacos plásticos comprados. Entre sacolinhas e sacos de lixo, uma família de quatro pessoas pode ter um acréscimo de até R$ 50 no seu orçamento mensal. O consumo de plástico será o mesmo; apenas estará devidamente subsidiado.

O irritante é que indústria e comércio convenientemente se esqueceram que a introdução de tão “nefasta” embalagem deve-se a eles mesmos. Eles lançaram a novidade e nos acostumaram a ela. São as maravilhosas soluções que, com o passar do tempo, se mostram não tão boas assim, como a talidomida para as grávidas e pastilhas de cocaína para dor de dentes.

Creio que merecemos um mea culpa da indústria e do comércio. No mínimo.

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Artigo publicado na Tribuna Impressa de Araraquara em  26/1/2012. Aqui.

216. Por uma teoria da percepção e do conhecimento

Aula de geometria (fonte: en.wiki)

É com surpresa que vejo certas manifestações. Não tem muito tempo que vi, em um jornal, uma pequena seção que colhe opiniões dos populares sobre algum assunto que esteja em voga no momento, e as publica. Com relação à onda de explosões de caixas eletrônicos, o jornal fez a seguinte pergunta: “Os roubos aos caixas eletrônicos estão se tornando comuns. Será que está virando profissão?”, mais ou menos nesses termos.

Um dos entrevistados respondeu: “Não. Não pode e não deve. Roubar é algo feio e horrível; não deve virar profissão”.

Um terrível problema de “ruído” aqui. O entrevistado não entendeu a ironia existente no termo. Compreendeu-o em sentido literal e manifestou-se contra a ladroagem virar profissão. Louvável opinião, mas problemática pela sua conclusão.

Nosso ambiente cultural é asfixiante, bem se sabe. Reclamávamos do duplo sentido presente nas letras de axé, há 10, 15 anos, e hoje elas nos parecem requintadas por recorrerem a tal mecanismo de metáfora. Principalmente quando há letras de funk obscenas, sem meios termos; o duplo sentido perde a razão de ser. Vira recurso poético.

É claro que tal deficiência de compreensão é fruto de concepções que não valorizam a educação e de um Estado incompetente nesse setor. A fome com a vontade de comer.

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Penso que a percepção-conhecimento — uno-os assim porque os vejo como sendo o mesmo mecanismo — organiza-se como as dimensões geométricas: comprimento (horizontal), altura (vertical) e profundidade (que com as anteriores, cria o volume). Afinal, não é em vão que se utiliza a expressão “linha de pensamento”.

A mente, por sua forma de processar as informações, também podem ser “geometricamente” qualificadas. Para tanto, é preciso passar a geometria tradicional para esta que se propõe uma “geometria do pensamento”.

O comprimento são as informações in natura, colhidas da observação do mundo, sem nenhuma intervenção por quem as coleta.

A altura é a variação que o indivíduo dá ao comprimento. Digamos que o caso da ironia e da metáfora encaixe-se aqui. De uma informação x, no plano, eleva-se uma linha y, deslocando a horizontalidade do termo inicial e provocando o desvio de sentido, criando um raciocínio bidimensional. Em suma, é a intervenção do sujeito pensante na informação inicial; intervenção feita com elementos do próprio mundo, uma alavancagem semântica.

A profundidade são as referências culturais que permitem as ciências e a filosofia; é o pensamento que nasce do olha crítico do objeto horizontal; a interferência na linha outrora direta estabelecida entre objeto e observador. Mais que observador, o sujeito torna-se interventor.

E, por adição, temos três classes de raciocínio, em ordem crescente:

O linear, monodimensional. É baseado no comprimento: são pontos e linhas horizontais entre pontos; nada que fuja da horizontalidade é perceptível. É como a criança vê o mundo em suas primeiras percepções. Refuta a duplicidade; refuta o duplo sentido; refuta a metáfora. Funciona por oposições binárias, de ponto a ponto, sempre horizontal. O pensamento monodimensional aceita os dados do mundo tal como lhe são apresentados, sem questionamentos, sem relações.

O vertical, bidimensional. Conjugando-se os dois planos, há o pensamento que se desloca em aclives e declives, provocando a alteração da informação captada do mundo. É o nível das figuras de linguagem, das oscilações de registro preconizadas pela Linguística. A maioria das pessoas qualificadas como sagazes e inteligentes têm essas duas articulações dimensionais. Os índices de deslocamento vertical, no entanto, também são fornecidos pelo mundo; mas são devidamente interpretados.

O profundo, tridimensional. É a cognição humana por excelência. A articulação das três linhas. Toma-se o conhecimento do mundo pela horizontal, transforma-o alterando-lhe o sentido, na vertical e, cria-se um sentido àquilo, particular para cada indivíduo. É aqui que nascem teorizações sobre o mundo, questionamentos, ideias.

Em linhas gerais, pode-se dizer que são assim organizados:

Monodimensional: X é x, logo, x não pode ser y (opõe-se a).

Bidimensional: X pode ser y, segundo o contexto.

Tridimensional: X pode ser y e também penso que possa ser z. (aqui entra a criação)

Essa singela teoria não tem o intuito de explicar mecanismos cognitivos, mas sim organizá-los espacialmente. Não se deve confundir os escopos.

* * *

Voltando ao caso sintomático apresentado na primeira parte, nosso entrevistado não consegue fazer um movimento vertical, dentro de um pensamento bidimensional. Está preso em um mundo de oposições maniqueístas.

Óbvio que, eventualmente, tais situações monodimensionais produzem-se por mera desatenção. Mas pode ser um índice de que as coisas não estão tão bem quanto dizem.

215. Big Boring Brasil – Cordel

Recebi um excelente cordel por e-mail. Não é de meu feitio reproduzir simplesmente, mas, neste caso particular, vale a pena.

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Cordel que deixou Rede Globo e Pedro Bial indignados

Antonio Barreto nasceu nas caatingas do sertão baiano, Santa Bárbara/Bahia-Brasil. Professor, poeta e cordelista. Amante da cultura popular, dos livros, da natureza, da poesia e das pessoas que vieram ao Planeta Azul para evoluir espiritualmente. Graduado em Letras Vernáculas e pós-graduado em Psicopedagogia e Literatura Brasileira.

Seu terceiro livro de poemas, “Flores de Umburana”, foi publicado em dezembro de 2006 pelo Selo Letras da Bahia. Vários trabalhos em jornais, revistas e antologias, tendo publicado aproximadamente 100 folhetos de cordel abordando temas ligados à Educação, problemas sociais, futebol, humor e pesquisa, além de vários títulos ainda inéditos.

Antonio Barreto também compõe músicas na temática regional: toadas, xotes e baiões.

BIG BROTHER BRASIL – UM PROGRAMA IMBECIL

Antonio Barreto

Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau-gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.

Há muito tempo não vejo
Um programa tão ‘fuleiro’
Produzido pela Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar
A mente do brasileiro.

Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, ‘zé-ninguém’
Um escravo da ilusão.

Em frente à televisão
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme ‘armadilha’.

Cuidado, Pedro Bial
Chega de esculhambação
Respeite o trabalhador
Dessa sofrida Nação
Deixe de chamar de heróis
Essas girls e esses boys
Que têm cara de bundão.

O seu pai e a sua mãe,
Querido Pedro Bial,
São verdadeiros heróis
E merecem nosso aval
Pois tiveram que lutar
Pra manter e te educar
Com esforço especial.

Muitos já se sentem mal
Com seu discurso vazio.
Pessoas inteligentes
Se enchem de calafrio
Porque quando você fala
A sua palavra é bala
A ferir o nosso brio.

Um país como Brasil
Carente de educação
Precisa de gente grande
Para dar boa lição
Mas você na rede Globo
Faz esse papel de bobo
Enganando a Nação.

Respeite, Pedro Bienal
Nosso povo brasileiro
Que acorda de madrugada
E trabalha o dia inteiro
Da muito duro, anda rouco
Paga impostos, ganha pouco:
Povo HERÓI, povo guerreiro.

Enquanto a sociedade
Neste momento atual
Se preocupa com a crise
Econômica e social

Você precisa entender
Que queremos aprender
Algo sério – não banal.

Esse programa da Globo
Vem nos mostrar sem engano
Que tudo que ali ocorre
Parece um zoológico humano
Onde impera a esperteza
A malandragem, a baixeza:
Um cenário sub-humano.

A moral e a inteligência
Não são mais valorizadas.
Os “heróis” protagonizam
Um mundo de palhaçadas
Sem critério e sem ética
Em que vaidade e estética
São muito mais que louvadas.

Não se vê força poética
Nem projeto educativo.
Um mar de vulgaridade
Já tornou-se imperativo.
O que se vê realmente
É um programa deprimente
Sem nenhum objetivo.

Talvez haja objetivo
“professor”, Pedro Bial
O que vocês tão querendo
É injetar o banal
Deseducando o Brasil
Nesse Big Brother vil
De lavagem cerebral.

Isso é um desserviço
Mal exemplo à juventude
Que precisa de esperança
Educação e atitude
Porém a mediocridade
Unida à banalidade
Faz com que ninguém estude.

É grande o constrangimento
De pessoas confinadas
Num espaço luxuoso
Curtindo todas baladas:
Corpos “belos” na piscina
A gastar adrenalina:
Nesse mar de palhaçadas.

Se a intenção da Globo
É de nos “emburrecer”
Deixando o povo demente
Refém do seu poder:
Pois saiba que a exceção
(Amantes da educação)
Vai contestar a valer.

A você, Pedro Bial
Um mercador da ilusão
Junto a poderosa Globo
Que conduz nossa Nação
Eu lhe peço esse favor:
Reflita no seu labor
E escute seu coração.

E vocês caros irmãos
Que estão nessa cegueira
Não façam mais ligações
Apoiando essa besteira.
Não deem sua grana à Globo
Isso é papel de bobo:
Fujam dessa baboseira.

E quando chegar ao fim
Desse Big Brother vil
Que em nada contribui
Para o povo varonil
Ninguém vai sentir saudade:
Quem lucra é a sociedade
Do nosso querido Brasil.

E saiba, caro leitor
Que nós somos os culpados

Porque sai do nosso bolso
Esses milhões desejados
Que são ligações diárias
Bastante desnecessárias
Pra esses desocupados.

A loja do BBB
Vendendo só porcaria
Enganando muita gente
Que logo se contagia
Com tanta futilidade
Um mar de vulgaridade
Que nunca terá valia.

Chega de vulgaridade
E apelo sexual.
Não somos só futebol,
baixaria e carnaval.
Queremos Educação
E também evolução
No mundo espiritual.

Cadê a cidadania
Dos nossos educadores
Dos alunos, dos políticos
Poetas, trabalhadores?
Seremos sempre enganados
e vamos ficar calados
diante de enganadores?

Barreto termina assim
Alertando ao Bial:
Reveja logo esse equívoco
Reaja à força do mal.
Eleve o seu coração
Tomando uma decisão
Ou então: siga, animal.

FIM

214. O país dos canhotos

Estátua de Lênin em São Petersburgo, vitimada por uma atentado em 2010.

Há alguns dias, um leitor desta Tribuna afirmou estar São Paulo nas mãos de um partido de direita. Penso qual poderia ser essa agremiação, pois o Brasil é uma aberração política que não tem partidos desse matiz.

Quando me refiro a direita, penso em um partido que defenda estado mínimo e liberalismo econômico. Entre nós, há uma tendência malévola em associar regimes totalitários a políticas de direita, o que é de um maniqueísmo rasteiro. Tais regimes têm mais liames com a esquerda, do ponto de vista econômico: controle da economia pelo Estado, políticas de investimentos públicos, estado dilatado e onipresente.

No caso brasileiro, não existe direita por acomodação da classe política: há apenas conveniências. Mesmo o Regime Militar não pode ser considerado de direita: a economia, sob a batuta de Delfim Netto, regeu-se pela execução de grandes obras públicas, intervencionismo econômico e barreiras protecionistas, o que não deixa a dever a nenhum país do bloco soviético.

O partido brasileiro que atentasse seriamente contra o mastodonte sagrado do Estado brasileiro ganharia antipatia imediata de grande parcela da população. Estamos com a esquerda desde 1995, só que a social-democracia é mais leninista e, portanto, optou pela desestatização parcial da economia, de maneira muito similar à NEP — Nova Política Econômica, na sigla russa — de Lênin.

Como disse Lula nas eleições gerais de 2010, ele estava feliz “porque aquela eleição era a primeira em que todos os candidatos eram de esquerda”. Afirmação que em vez de aliviar, assusta. Assim, gostaria que me apontassem a tal direita que governa São Paulo.

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Publicado na Tribuna Impressa (Araraquara/SP), em 10/1/2012. Aqui.

213. O euro e a Europa

Bandeira da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (1951-2002)

A eventual saída da Grécia da Eurozona é preocupante: caso a crise europeia se agrave, outros países poderão tomar o mesmo rumo, arruinando a moeda única. Mas o fim do euro e a reintrodução das divisas nacionais não é o pior cenário. Economicamente, um transtorno sem par; moralmente, uma catástrofe sem precedentes.

O euro não é apenas uma moeda. Personifica um continente que exsurgiu das ruínas de uma guerra fratricida; é o símbolo da paz tão almejada pelos europeus nos sombrios anos do pós-guerra.

Em 1951, fundou-se em Paris a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, com escopo comercial, mas buscando a integração e procurando afastar as tradicionais rivalidades. Tinha por signatários Itália, França, Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo e Alemanha Ocidental. Tais negociações darão forma ao Tratado de Roma, em 1957, a certidão de nascimento da Comunidade Econômica Europeia, União Europeia depois de 1995.

A relação entre seus membros — 6 em 1957, 27 hoje — não é apenas econômica. Buscou-se uma identidade europeia baseada na convivência e na concórdia.

A moeda única que veio coroar a ideia da Europa empenhada pela paz e não é mera chispa. É passo decisivo que começou em 1979, com a Unidade Monetária Europeia (ECU, na sigla inglesa), moeda escriturária. Em 1999, ainda como moeda “virtual”, passou a chamar-se euro, e em 2001, já como moeda física, materializou a unidade do continente.

Frente à crise financeira instalada e o enfraquecimento de suas instituições, a Europa corre o risco de retroceder — não imediatamente — a um ambiente pré-1914. Monetária e politicamente falando.

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Artigo publicado na Tribuna Impressa de Araraquara, em 7/1/2012. Aqui.