212. Feliz 1955

Embora a sombra do calendário maia deixe muita gente ressabiada, não vejo motivo para pânico. Afinal, quando os espanhóis chegaram ao México, os maias já eram uma civilização em declínio. Um calendário 500 anos adiantado, creio que estivesse de bom tamanho àquele povo.

Nem creio que o mundo vá acabar. Tampouco acabarão certos maus hábitos que grassam entre nós, habitantes do país-continente. O ano que vem será importante para o País e, por isso, vem prenhe de preocupações: hecatombes à parte, iremos às urnas escolher prefeitos e vereadores. A festa da democracia na terra do voto obrigatório; só faltam balões e mesários com língua-de-sogra nas seções eleitorais.

As eleições municipais, que tanto já agitam o noticiário, são vistas com ansiedade pela classe política porque definem o cenário para o próximo ato: as eleições gerais de 2014. Agora, é época de os políticos tirarem seu arsenal de ismos: populismo, fisiologismo, clientelismo, com destaque para o primeiro. E em busca de votos, sempre vale a receita deixada por Getúlio Vargas e que continua a render a generosos dividendos políticos: a fantasia de ‘pai dos pobres’. Quantos já não a usaram? Quantos não a usam? Parece que nossos mandatários mudam de corpo, mas são sempre o mesmo Vargas da “Revolução” de 1930, do Estado Novo e de sua volta triunfal “nos braços do povo”, em 1951. Sem tanta eloquência, é verdade.

Gostaria de comemorar, no voo da rolha do espumante, não a aurora desse nevoento 2012 de implicações mesoamericanas, mas o sepultamento definitivo de 1954, esse sim, o ano que não acabou.

* * *

Artigo publicado na Tribuna Impressa (Araraquara, São Paulo) de 31/12/2011. Disponível no Araraquara.com.

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211. Nascimento

Este não: é predestinado.
Vai perder a vida
por uns ingratos:
Nós.

210. Reflexão natalina

Natal é um período de reflexão; mas também cabe uma reflexão sobre o próprio Natal: o que significava e o que se tornou. Das notícias relacionadas à data publicadas por esta Tribuna*, grande parte remete-se a reclamações: o movimento do comércio não está bom; falta iluminação decorativa nas ruas.

Pergunto-me se o Natal resume-se a isso. Além, claro, da sanha consumista, do cheiro de tender, das ruas abarrotadas, das filas intermináveis, das músicas com harpa paraguaia nos alto-falantes das lojas, de esquálidos papais-noéis esvaecendo-se em suor entre os enchimentos e a tortura da roupa vermelha. Presentes que trazem apenas o entusiasmo do instante em que são abertos.

A decoração pisca sobre nossas cabeças; paira no ar um desânimo abafado e calorento de neve falsa a trinta graus. Falar em Deus ou em Jesus Cristo é visto com maus olhos pelos cépticos de plantão. Mas não custa lembrar que as decorações de Natal e os manjares à data associados não são o motivo da festa; é a comemoração que os traz como consequência.

O intuito maior é reunir a família para lembrar o porquê da confraternização; que por um segundo que seja, lembremo-nos daquele que se ofereceu em sacrifício por nós. Lembremos da família ausente, dos amigos.

Na balança dos valores, a inconsequência do excesso tem pesado mais; todo fim de ano há problemas relacionados — seja na bebida, seja na falta de precauções — que terminam em tétricos brindes nas manchetes de jornal.

Deixo a vocês, leitores, um convite à reflexão.

* * *

* Este texto foi publicado na seção Ponto de Vista do jornal Tribuna Impressa de hoje, 24/12/2011. Disponível no Araraquara.com.

209. A força das palavras

Bíblia manuscrita em latim, da Abadia de Malmesbury, Inglaterra. Fonte: Wikipedia.

Salvo engano, foi em uma já longínqua aula de Linguística que a questão foi posta: quando se nomeia algo, o nome usado passa a ser a coisa. Explico-me melhor: o nome é a coisa. Dirão que enloqueci. Não, não, de modo algum: apesar das várias tentativas, a faculdade de Letras não derreteu meu cérebro. É mais simples do que parece: está na Bíblia. No Gênese, para ser mais exato.

Está lá e é bem simples: Deus disse e a coisa se fez. Os primeiros versículos do Gênese, considero-os o primeiro tratado de Linguística. Um tratado de Linguística ante litteram e ab ovo. E tal poder evocatório da palavra remete-nos a todo um compêndio de palavras mágicas e seu poder de transformação.

Também para os muçulmanos, a declamação da shahada, uma profissão de fé, basta para que, aos olhos de Deus, o que a pronunciou seja considerado um crente. A shahada, independente da língua materna do fiel, é pronunciada em árabe, língua na qual está escrito o Alcorão.

O árabe é a língua litúrgica do Islã, independente da língua falada pela população; temos muçulmanos iranianos, que são de língua materna persa; ou os turcos, cuja língua não tem relação com o árabe, exceto por empréstimos. A língua turca passou por uma depuração nos anos 1920; o turco com excessivos empréstimos do árabe entrou para a história como turco otomano.

Mesmo o Alcorão é mantido em árabe. Suas “traduções” não são assim consideradas. Basta ver as edições em português que são impressas na Arábia Saudita, e que têm por base a tradução do Prof. Dr. Helmi Nasr, não vêm indicadas como traduções, mas como “interpretação do seu sentido em português”. Deduz-se que somente se pode ter acesso à verdade islâmica pela língua árabe.

Na Turquia, entre 1932 e 1950, o adhan — chamado feito pelos muezins do alto das mesquitas, convocando os fiéis para as preces — foi feito em turco. Sua forma árabe foi restaurada pelo primeiro-ministro Adnan Menderes. Possivelmente, os muçulmanos turcos viam naquele chamado em turco algo “pouco natural” ou incompatível com o Islã. Ou seja, a perda do poder evocatório por conta da mudança da língua.

Algo similar ocorre com o catolicismo. Até o Concílio Vaticano II, a língua litúrgica da Igreja era o latim. Usava-se na missa e reservava-se a língua local para a homilia (justo, porque é a parte dos exempla) e toda a força evocatória estava nas formulas presentes nas várias partes da homilia, que também guardavam certas entonações, similares ao canto gregoriano.

O latim ficou restrito a determinadas cerimônias e às missas rezadas pelo Sumo Pontífice; pergunto-me o porquê de uma decisão tão descabida. As orações e profissões de fé católicas ficaram esvaziadas de sentido e de força evocatória. Rezar um Pai Nosso em português não é a mesma coisa que rezá-lo em latim.

Alguns se levantarão e dirão: “então, teríamos de adotar como língua litúrgica o grego, que é a língua do Novo Testamento. A bacia oriental do Mediterrâneo era profundamente helenizada e os Evangelhos ganharam grande difusão por terem sido escritos em língua grega. Mas a Igreja, por Pedro, estabeleceu-se em Roma e adotou determinados símbolos da sociedade sobre a qual se estabeleceu, não se limitando aos pictóricos — como se vê na pictografia paleocristã —, mas encampando também a língua. O latim é a língua da liturgia católica romana e como tal deveria ser restabelecida.

208. Dos dias quentes

No céu de azul chapado
o bafio do sol quente
sobe em prumo do chão.

O calor, essa virtude;
uma penitência cintilante
de brilhos na água marinha
e areia branca.

Haja pés para correr
sobre a areia quente.
Suor, vermelhidão
e mosquitos que jamais
leram Platão
em sua efêmera vida.

207. Ontem e hoje

Antes o dinheiro valia ouro. Toda cédula era uma espécie de certificado que correspondia a certo peso em ouro que estava depositado no Banco do Brasil. De vez em quando, o Governo dizia que os dez mil-réis não valiam mais meio grama de ouro, mas a quatro décimos de grama do sonante metal; o que permitia a autoridade monetária imprimir mais dinheiro e, de certa forma, fomentar a inflação.

Hoje existe um Banco Central; não existe mais o lastro em outro e a moeda vale porque o Governo diz que assim é. As coisas pareciam mais simples antigamente, não?

* * *

Uma pessoa interessava-se em algum produto — fosse ele comida, uma peça de fazenda, fusíveis, naftalina, tanto faz. Entrava no estabelecimento comercial, quase sempre na mesma rua da casa, batia com os nós dos dedos na madeira do balcão e pedia ao imigrante dono da birosca:

— Seu Giovanni, faça-me lá o favor de dar-me um quilo de batatas e umas pedras de anil.

Bastavam essas palavras e o balbuciante lojista fornecia a mercadoria.

Sono… son due tostoni…

As duas moedas de 80 réis (ou de 100, de acordo com o período), saíam rápidas do bolso e chocavam-se ruidosas sobre o balcão.

— Aí tem, seu Giovanni. Bom dia.

Simples. Rápido. Eficiente.

Vejamos hoje como se dá o mesmo procedimento. É notório que as pequenas vendas já sumiram. Os supermercados acabaram com elas. Nosso personagem terá de pegar o carro (porque morre de preguiça de ir a pé), passar em algumas ruas de trânsito complicado, estacionar o carro, atravessar corredores entulhados de chamarizes. Até chegar às batatas, o comprador está com as mãos cheias de várias coisas. Por sorte, alguém abandonou ali, do lado das batatas, uma cesta plástica. Acho que anil ninguém mais usa… fiquemos apenas com as batatas.

Tem consigo uns seis itens. Aproveitou para pegar uma garrafa de vermute e foi para o caixa rápido, o de até 20 volumes, que de rápido tem muito pouco. Depois de desfilar por um corredor feito de gôndolas abarrotadas de salgadinhos e revistas várias — olha, a Playboy da fulana! — chega ao caixa. Descarrega a cestinha. A interação com a atendente de caixa é dramática. Observem:

— Bom dia.

— Bom dia.

— Nota fiscal paulista…?

— Sim, por favor.

— O CPF?

Diz o número do CPF.

— Não bate, senhor.

Diz de novo. Trocou algum dígito ou a moça digitou errado; passa as compras.

— Para bebida alcoólica preciso da sua data de nascimento, senhor.

Ele diz.

— São vinte e cinco reais e quarenta e nove centavos, senhor.

Isso porque ele entrara apenas para comprar batatas. O anil não há mais, como já dissemos, e saca um cartão para pagar a dívida.

— Crédito ou débito?

— Débito.

A moça passa o cartão.

— Senha.

O homem digita-a no terminal a sua frente.

— Senha incorreta, senhor… digite novamente.

Nervosamente, o homem digita. Alguns segundos de tensão e o estalo da gaveta da caixa registradora abrindo-se dá por recebido o pagamento.

O homem espera em silêncio. A resposta não tarda:

— Ah, a Prefeitura proibiu as sacolinhas de plástico; são antiecológicas. O senhor pode estar comprando a nossa sacola ecológica por quatro reais e cinquenta.

Por sorte, há umas caixas de papelão próximo. O consumidor põe tudo nas caixas, desce uma rampa com as duas mãos ocupadas com a caixa, deposita-a no porta-malas. Põe-se no carro, toma uma fechada na saída do estacionamento, quase pega um ciclista no semáforo e chega em casa com as compras. Tira-as da caixa e nota, não sem uma nesga de desespero no rosto, que esqueceu as batatas no caixa.

Regras beneditinas, Prólogo (Excerto)

Escuta, filho, os preceitos de mestre, e inclina o ouvido do teu coração; recebe de boa vontade e executa eficazmente o conselho de um bom pai para que voltes, pelo labor de obediência, àquele de quem te afastaste pela desídia da desobediência. A ti, pois, se dirige agora a minha palavra, quem quer que sejas que, renunciando às próprias vontades, empunhas as gloriosas e poderosíssimas armas da obediência para militar sob o Cristo Senhor, verdadeiro Rei.