205. Naquele tempo

Cem anos, para nós da era telemática, pode parecer muito tempo. Mas em termos de Humanidade, é pouco. Lendo relatos de quem viveu o final do século 19 e começo do 20, nota-se o abismo que se abriu entre o presente e o passado não tão remoto.

Pensa-se muito em técnicas, indústrias e procedimentos — a palavra tecnologia dá-me certa comichão — mas as mudanças são muito além disso, embora essa seja sua faceta mais aparente. Há mudanças mais profundas: tanto na forma de ver o mundo quanto nos costumes.

Uma boa fonte de comparação desse ontem com o hoje é o livro “São Paulo Naquele Tempo (1895-1915)”, do Prof. Jorge Americano. São basicamente memórias, retalhos, gritos dos pregoeiros, cheiros. Ao mesmo tempo em que é profundamente intimista, suas memórias misturam-se ao cotidiano da metrópole nascente, fazendo parte dela: duas realidades diferentes com pontos de contato. A cidade, de mero cenário, rouba o protagonismo das memórias.

É o tipo de livro que adquire valor de duas maneiras: ou quando é escrito na velhice do autor, ou seja, com distância temporal do tempo narrado ou quando envelhece e ultrapassa o autor, deixando-o na efemeridade da vida. O livro de Americano é contemplado em ambas a características. O professor e reitor da USP escreveu-o na sua aposentadoria, nos anos 50.

Se a cidade — e os costumes — já haviam mudado tanto do começo do século até seus meados, que dirá agora, tempo em que os fatos narrados já completam mais de cem anos. Acabam mesmo por ocorrer alguns problemas na localização de determinados edifícios marcantes, como demonstra o trecho abaixo, extraído do capítulo “Viaduto do Chá, Rua Barão de Itapetininga e Praça da República”:

Quem saísse do centro da cidade pelo Viaduto do Chá deixava à direita a Chácara Rodovalho, onde está o Teatro Municipal, e à esquerda um grupo de casinhas pertencentes à Santa Casa de Misericórdia, onde hoje está a Casa Anglo-Brasileira.

Quem souber o que foi a Casa Anglo-Brasileira… Provavelmente algo que era na mesma calçada da Sede da Light (hoje Shopping Light), em direção à Praça da República.

Quanto aos costumes, nota-se a diferença brutal nas questões do flerte: sempre à distância e em lugares certos, principalmente à saída da missa; os modos mais adocicados. Em suma, o livro do Prof. Jorge acabou por tornar-se referência — a meu ver — de quem quiser devassar a Paulópole em sua Segunda Cidade — se considerarmos que houve três no período de 1860 a 1960, como retrata bem um outro livro cuja referência agora me foge.

Editado pela primeira vez em 1957, “São Paulo Naquele Tempo (1895-1915)” teve reedição em 2004 pelo consórcio editorial Carbono 14/Narrativa-Um/Carrenho Editorial. Ainda do Prof. Jorge, existem as obras “São Paulo Nesse Tempo (1915-1935)” e “São Paulo Neste Tempo (1935-1962)”.

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  1. Casa Anglo Brasileira: MAPPIM

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