‘Missiva ao vivo’

O primeiro programa ‘Missiva ao vivo’ foi ao ar nesta quarta feira, às 11 da manhã. Apresentado por este que vos escreve, o enfoque são generalidades; a primeira edição foi sobre as mudanças econômicas no Brasil desde 1942 até 1989, baseando-se nas mudanças dos padrões monetários, mais alguns comentários aleatórios. Pode vê-lo aqui.

A intenção é que o programa seja semanal, todas as quartas, com transmissão ao vivo às 11 da manhã, que poderá ser assistido no TwitCam.

A próxima transmissão deverá ocorrer em 30/11.

206. Do ofício

Um engenheiro civil saberia calcular a resistência de um pilar apenas olhando-o? Ou um engenheiro mecânico conseguiria resolver um problema de u’a máquina apenas em olhá-la? Certamente que não. Porém, de algumas cepas de profissionais, exige-se uma solução imediata e a pronta solução de intrincados questionamentos lançados à queima-roupa. É isso que se espera do profissional de língua portuguesa, seja ele professor, revisor ou alguma outra ocupação que lhe caiba.

Espera-se desse tipo de profissional uma espécie de conhecimento automático, enciclopédico. Como qualquer outra profissão técnica, o especialista precisa de seus manuais, de seus vade mecum. O conhecimento da língua portuguesa não é algo de pleno domínio; creio que nenhuma língua seja, a um falante-técnico, de conhecimento absoluto. Sabe-se bem que alguém que termina seus estudos regulares e não dá prosseguimento a eles, no dia a dia, ou seja, deixa de estudar, está condenado ao esquecimento e à desatualização. A memória humana não é perene…

Porém, o profissional de língua portuguesa costuma ser alfinetado ou com pegadinhas ou com as já citadas perguntas à queima-roupa. O que me parece desleal, pois presume que ele tenha de saber absolutamente tudo. Claro que, o básico do básico remanesce na memória; parte, nunca entrará.

Um bom revisor, por exemplo, não seria alguém que soubesse todas as perguntas que lhe dirigem ou tudo que vê sobre o papel, mas sim aquele que, caso não saiba à memória o que se lhe depara, saiba sim onde achar uma resposta. Esta é a função do revisor.

* * *

P.S.: ia referir-me ao profissional de língua portuguesa como bacharel em Letras, título de ensino superior, mas, antigamente, muitos revisores eram simplesmente apaixonados pela língua, autodidatas. Hoje, o autodidatismo foi atropelado e condenado pela sanha de diplomas e certificados.

205. Naquele tempo

Cem anos, para nós da era telemática, pode parecer muito tempo. Mas em termos de Humanidade, é pouco. Lendo relatos de quem viveu o final do século 19 e começo do 20, nota-se o abismo que se abriu entre o presente e o passado não tão remoto.

Pensa-se muito em técnicas, indústrias e procedimentos — a palavra tecnologia dá-me certa comichão — mas as mudanças são muito além disso, embora essa seja sua faceta mais aparente. Há mudanças mais profundas: tanto na forma de ver o mundo quanto nos costumes.

Uma boa fonte de comparação desse ontem com o hoje é o livro “São Paulo Naquele Tempo (1895-1915)”, do Prof. Jorge Americano. São basicamente memórias, retalhos, gritos dos pregoeiros, cheiros. Ao mesmo tempo em que é profundamente intimista, suas memórias misturam-se ao cotidiano da metrópole nascente, fazendo parte dela: duas realidades diferentes com pontos de contato. A cidade, de mero cenário, rouba o protagonismo das memórias.

É o tipo de livro que adquire valor de duas maneiras: ou quando é escrito na velhice do autor, ou seja, com distância temporal do tempo narrado ou quando envelhece e ultrapassa o autor, deixando-o na efemeridade da vida. O livro de Americano é contemplado em ambas a características. O professor e reitor da USP escreveu-o na sua aposentadoria, nos anos 50.

Se a cidade — e os costumes — já haviam mudado tanto do começo do século até seus meados, que dirá agora, tempo em que os fatos narrados já completam mais de cem anos. Acabam mesmo por ocorrer alguns problemas na localização de determinados edifícios marcantes, como demonstra o trecho abaixo, extraído do capítulo “Viaduto do Chá, Rua Barão de Itapetininga e Praça da República”:

Quem saísse do centro da cidade pelo Viaduto do Chá deixava à direita a Chácara Rodovalho, onde está o Teatro Municipal, e à esquerda um grupo de casinhas pertencentes à Santa Casa de Misericórdia, onde hoje está a Casa Anglo-Brasileira.

Quem souber o que foi a Casa Anglo-Brasileira… Provavelmente algo que era na mesma calçada da Sede da Light (hoje Shopping Light), em direção à Praça da República.

Quanto aos costumes, nota-se a diferença brutal nas questões do flerte: sempre à distância e em lugares certos, principalmente à saída da missa; os modos mais adocicados. Em suma, o livro do Prof. Jorge acabou por tornar-se referência — a meu ver — de quem quiser devassar a Paulópole em sua Segunda Cidade — se considerarmos que houve três no período de 1860 a 1960, como retrata bem um outro livro cuja referência agora me foge.

Editado pela primeira vez em 1957, “São Paulo Naquele Tempo (1895-1915)” teve reedição em 2004 pelo consórcio editorial Carbono 14/Narrativa-Um/Carrenho Editorial. Ainda do Prof. Jorge, existem as obras “São Paulo Nesse Tempo (1915-1935)” e “São Paulo Neste Tempo (1935-1962)”.

204. História e Geografia

História e Geografia

Uma ilhota provinciana
cerca de paus e cana.
Ruas de lama; almas minerais
esgueiram-se pelas cercas
aquecidas pelo Sol.

Uma ilhota, uma rua,
uma igreja quase nua.

Aves-maria por Dona Pia
e os homens dignos de cartola
chorando seco pelo Imperador.

Fora, paus e cana.
Paus que batem,
murmúrios indistintos
de raiva e fome.

No centro, a ilhota.
Nas bordas, mãos sujas e cana.

“À saúde de Sua Majestade,
que Deus a tenha e conserve…”

Que Deus nos reserve
fado melhor.

* * *

Como música incidental, deixo aqui a Marcha Fúnebre de Napoleão.