203. Dupla cidadania

Conhecer uma cidade não é apenas saber o nome das ruas ou ter na cabeça o desenho de sua malha viária e o nome dos bairros. Esse é um conhecimento útil, sem dúvida, mas superficial. Conhecer uma cidade é conhecer a sua história, saber não o que está ali naquele quarteirão. O que no nosso caso — paulistas que somos; brasileiros — é de vital importância.

É sabido que, entre nós, uma construção de cem anos é já símbolo supremo do ontem, do passado remoto, da aurora da vida urbana no País. Muitas delas simplesmente desapareceram sob as rodas to trator do Progresso.

Em São Paulo, eu andava pelas ruas do Centro Velho com uma noção relativamente precisa do que estaria onde. Poucos sabem, mas a Praça da Sé nem sempre foi daquele tamanho todo. Era menos da metade e a então Igreja Matriz era quase no meio da atual praça. O Largo da Sé, como já diz o nome, era bem mais modesto.

Em Araraquara, cidade mais jovem, mas considerada por muito tempo cabeça de sertão, a situação não é diferente. Pelo que pude averiguar, a Matriz continua no mesmo lugar. Ou melhor, o espaço é o mesmo desde sempre, mas o templo atual é a quarta construção. Pelas fotos, nota-se que a terceira construção, tanto externa quanto internamente, era muito mais bonita. Mas parece que o garfo do Progresso espeta também os curas…

Esses são detalhes conhecidos por quem realmente conhece a cidade profundamente. Sabemos bem que nossos coetâneos não são afeitos às “velharias”, tidas como conhecimento “inútil”. Mas, para mim, quem diz conhecer uma cidade, deve conhecê-la assim. Se sabe apenas o nome das ruas e onde está o que hoje existe, é apenas um navegador, um espectador.

Eu, na minha atual condição de meteco em Araraquara, procurei informar-me sobre as Araraquaras que se sobrepuseram com o passar das décadas. O povoamento da região data do final do século 18, mas somente em 1817 a região foi incorporada à vila de Piracicaba como freguesia. Embora o 22 de agosto de 1817 seja considerado a data inicial, data de fundação da cidade, Araraquara apenas constitui-se em vila autônoma com as devidas instituições por força de decreto (provincial? imperial?) de 13 de novembro de 1832, em pleno período regencial.

Para poder inteirar-me sobre a cidade, arrumei uma obra que considero magna no assunto (talvez por que ainda não conheça as outras) que é a dissertação de Mestrado — depois publicada como livro — de Anna Maria Martinez Corrêa, intitulada “Araraquara 1720-1930 – Um capítulo da história do café em São Paulo”.

O livro tem me ajudado. Lentamente deixo de ser meteco para adquirir dupla cidadania.

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