201. Uma das tantas faces da morte

Entre minha infância e adolescência, meu pai foi comerciante. Teve uma avícola, gênero de comércio praticamente já extinto e que não deve ser confundido com loja de avicultura. Avícola é o estabelecimento que merca carne de frango apenas, um açougue de frango, por assim dizer. Essa casa comercial de meu pai teve vários endereços; os dois primeiros bem próximos de casa; por questões de movimento, no mesmo prédio.

Na segunda locação, o salão fechava-se por dentro e saía-se dele por uma porta lateral que dava para um corredor interno. Esse corredor escuro, sim, desembocava no portão que dava para a rua. Porém, se alguém caminhasse no sentido contrário ao do portão, desembocava num angusto pátio que era o quintal de uma casa.

Nessa casa morava a irmã da proprietária do ‘condomínio’com o marido e filhos. Não era raro sair da avícola e dar de cara com alguma das crianças, sempre sujinha e cheia de crostas e assustadores olhos claros arregalados. O salão tinha ainda grande vitrôs basculantes na parede do fundo, que davam para o pátio.

Um dia, o pai da proprietária do prédio morreu — um senhor já na casa dos oitenta anos. Morava ali, com a outra filha, na casa do pátio. Fizeram o velório na sala de estar da casa.

Família grande. Por trás da porta, o rumor quase incessante de passos condoídos, gente que viera de longe quando soube da morte do patriarca, até mesmo do Nordeste.

Eu, rapazinho, sentado num banco escutava os passos, prantos abafados e comentários. Meu pai disse-me, a certa altura: “Não faça barulho… respeite a dor dos outros. Quando fecharmos a porta, vamos lá cumprimentar as pessoas e você trate de se comportar”.

Fechamos e ainda era dia, um sábado sob horário de verão. Ao invés de sairmos, fomos pelo outro lado. No pátio havia vários parentes: adultos de cenho franzido e um grupo de crianças amuadas, caladas à força. Entramos eu e meu pai na sala abafada e escura; ele à frente e eu logo atrás. As pessoas estavam dispostas em semicírculo. As mulheres choravam, os homens estavam meditabundos pelos cantos disponíveis no ambiente. Meu pai abaixava-se para cumprimentar que estava sentado e passava para o próximo. Eu fazia o mesmo, sem ter a menor consciência do que estava fazendo: apenas dirigia o olhar a pessoa e dizia-lhe “meus pêsames”. Alguns me davam a mão, outros abraçavam-me e molhavam-me com suas lágrimas e rostos banhados.

Quando terminamos de cumprimentar todos, meu pai ficou de canto e olhou para o centro da sala. O que eu confundira com u’a mesa era um caixão, apoiado em dois móveis que pareciam criados-mudos. Dentro do caixão, o velhinho que eu costumava ver tomando sol. Pálido e murcho. À sua cabeça, u’a armação de metal com um crucifixo de metal amarelado e opaco. Percebi que aos pés do morto, havia um candelabro e nele um círio. Uma das mulheres vinha com uma caixa de fósforos e deu-lhe chama. Uma luz baça tomou conta do recinto: todos pálidos; quase tão pálidos quanto o cadáver.

Ficamos mais alguns instantes. Meu pai,em silêncio. Todos em silêncio. Fora, alguns pássaros davam os últimos trinados do dia; no grupelho de crianças, alguma delas chupava o nariz. Eram menores que eu, provavelmente não tinham ideia do que estava acontecendo ali.

Eu já tinha visto a morte outras vezes. Um tio-avô, meu avô, algum vizinho. Mas sempre a morte estava isolada na segurança dos velórios, no solo sagrado dos cemitérios. Ali não: estava dentro de casa. Ao redor do caixão, além das pessoas, os móveis da casa, os bibelôs da estante, o lustre. O corpo iria embora; o resto ficaria. Como seria o depois? Uma lembrança tão pesada para um ambiente que costuma remeter a uma certa alegria…

Fomos embora e por dias não pensei em outra coisa. No dia seguinte, o carro do serviço funerário encostou e os parentes puseram o caixão no carro. Da calçada, observei o carro descer a avenida. Não voltaria mais, é claro; é sempre assim. Mas a sala, cada objeto presente naquela sala ficou marcado. Tantos anos depois e eu sou ainda capaz de descrevê-los e, possivelmente, reconhecê-los. Um elefante de cerâmica. Uma caneca esmaltada com uma figura defecando. Um porta-retratos com a fotografia de umas crianças.

Não tinha vínculo com aquela gente e nossa visita foi protocolar, por uma questão de respeito. Meu pai nunca gostou de velórios e temas ligados à morte. Fomos embora sem dizer palavra. Mas nele também havia um mal-estar, a sensação de algo fora do lugar, de uma indigestão na alma.

Anúncios
Post anterior
Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: