198. A Caixa do Passado

A "Caixa do Futuro" de Araraquara

Monumentos. As pessoas passam por eles e, por hábito ou incompreensão, sequer dirigem-lhes uma fugaz olhadela. A etimologia da palavra já nos diz que, para os romanos monumentum ou monimentum, trata-se de “edifício majestoso, mausoléu, obra notável”.

Em compensação, sempre fui atraído pelas pedras e metais da memória. Gosto de parar, ler as placas, de saber por que — ou por quem — aquele monumento foi erguido. É difícil que algum me passe desapercebido.

Porém, durante um bom tempo, um estranho monumento chamou-me a atenção em Araraquara sem que eu pudesse deter-me para uma visita. Um grande cubo preto, instalado em uma ponta de quadra entre a dita Via Expressa e os trilhos da ALL. Depois de alguns anos passando pelo cubo — quase sempre de carro e de carona, o pudor impedia-me de parar ali —, dia desses atrás, quando ia para o trabalho de bicicleta, o calor fez com que eu me detivesse para beber água, bem ao lado do cubo.

Que posso dizer? No mínimo intrigante. Um cubo de granito preto e com duas placas de bronze (?) encaixadas em recuos nas faces laterais. Em uma das placas, um agricultor trabalhando, na outra, a explicação: trata-se de uma “caixa do futuro”.

A Caixa do Futuro araraquarense contém documentos vários — pelo que pude apurar na própria internet, gravações de áudio, mensagens — que foram postos ali em 2007. Segundo as “instruções” contidas na placa, a caixa somente deve ser desencerrada cem anos a contar da data de fechamento, ou seja, 2107.

A intenção, ainda segundo a placa, é mostrar “o que estamos fazendo hoje e como desejamos nossa cidade nos próximos cem anos”. Em suma, é um monumento do hoje dedicado ao futuro, essa quimera monstruosa que nos persegue.

É típico dos políticos amarrarem-se ao futuro, criando ilusões no eleitorado. Também é típico nosso, que sempre vislumbramos um futuro melhor (maldito positivismo). A Caixa do Futuro é uma institucionalização do Futuro por um Hoje desesperado ou, pelo menos, ansioso. Por que não uma loa ao Hoje? Um monumento ao Hoje?

Se não há motivos para levantar um monumento ao tempo presente, por que o fetichismo com o amanhã?

Além disso, a tal Caixa do Futuro é uma tentativa de perpetuação, de memória perene, uma espécie de monstruoso espermatozoide de granito para fecundar o presente de daqui a cem anos. Ou simplesmente um cálculo renal da memória: uma ideia que já nasce velha. Por que não foram mais além? Por que não a colocaram em uma praça e trocaram o nome do local para Praça da Caixa do Futuro? Se bem que aquela ponta de quadra onde está a caixa ainda pode ser batizada.

Placa principal da Caixa.

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