197. Antiajuda

Quase sempre, quando entramos numa livraria, nos deparamos com a pilha das obras de autoajuda. Sejam elas algo mais pé-no-chão, de fundo psicologizante ou misticoide. Impávidas, soberbas e com capas chamativas — e estranhamente semelhantes —, chamam os deprimidos e aqueles que ainda não conseguiram o brevê para a sertralina ou fármacos mais profundos.

Vendem por suas páginas um mundo melhor; u’a maneira diferente de ver o mundo. São obras para (1) gente que ainda crê em algum tipo de normalidade, (2) pessoas que creem na interferência de forças superiores — a escolha do freguês, ou melhor, da cultura do freguês — ou (3) a turma que procura um motivo para a existência. O motivo 3 dá matéria para outros tantos textos. Reservemos o tema.

E um livro de antiajuda? Fora as paródias que existem dos títulos mais afamados da autoajuda, não creio que ninguém haja realmente pensado em em um livro de antiajuda verdadeiro. Pode ser que não haja um com esse intuito objetivo, mas há coisa que o valha e é uma das obras-primas da literatura.

Giovanni Papini, 1881-1956

Trata-se de “Gog”, de Giovanni Papini. Já andei citando o livro por aqui. Gog é o nome do protagonista, redução de Goggins, americano por acidente, filho de uma nativa maori e um homem de raça branca, porém desconhecido; de modo igualmente desconhecido, junta um certo capital e logo se torna um dos homens mais ricos dos Estados Unidos “[…] e logo, do mundo todo”; mas que acaba pipocando por casas de repouso, numa das quais encontra o narrador.

Escrito na forma de um diário compilado, Gog inicialmente nos assombra pelas suas conclusões que, a primeiro momento, parecem demonstrar um profundo cinismo com relação à Humanidade, mas que, com o decorrer da leitura, mostra-se um questionamento à normalidade.

As reações de Gog podem não coincidir totalmente com as do leitor (creio que se isso ocorresse, teríamos um buraco negro literário), mas, certamente, acabará por ver-se ou sentir-se representado de alguma maneira.

Pontos polêmicos são as conversas que o protagonista mantém com interlocutores ilustres: Henry Ford, Sigmund Freud, Mahatma Gandhi, Vladimir Lênin (essa uma das passagens mais surpreendentes), cinco monarcas reunidos no palácio de Guilherme II, colóquios com charlatães, metafísicos de ocasião e defensores de teorias estranhíssimas.

Considerado pela crítica a obra-prima de seu autor, o livro encaixa-se — involuntariamente — na categoria de antiajuda: a misantropia de Gog ou fará com que o leitor refute-o definitivamente, ou causará uma identificação. A indiferença não é possível.

Papini é toscano, como Malaparte. Não sei se o dado é relevante, mas fica um liame entre a genialidade de ambos. Conterrâneos de Maquiavel.

Não sei se há tradução em português; estou em posse de um pdf em castelhano, disponível na rede. Aproveite a leitura.

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