199. Postiçagens

Quase tudo que leva o adjetivo postiço causa má impressão. É só citar, por exemplo, dentes postiços e o que nos vem à mente é uma dentadura, que geralmente tem algo que denuncia seu caráter excessivamente artificial, a pantomima: são dentes irreais, retilíneos, de um branco sem vida; uma perfeição inverossímil. Sem falar das perucas… ou daquela tela plástica tricolor que se colocava diante da tela dos televisores preto e branco; ou mesmo de certas leis e dispositivos jurídicos.

Não há termo melhor para esses objetos que postiçagens. Não perca tempo procurando-o no dicionário: não está lá. E as postiçagens não se resumem a esses objetos: há muitos outros exemplos e eu quero falar de um bem específico.

Há umas duas semanas, estava próximo a uma igreja de Araraquara. Uma igreja realmente simpática: arcos, colunas, a simplicidade do desenho da telha francesa e um campanário. Qual não foi o meu susto quando um ruído estranho, metálico, tomou conta da praça diante do templo. Apurando a audição, vi que o som irritante e intermitente vinha do campanário da igreja.

Era um repicar de sinos, mas não de sinos de verdade e sim de sinos postiços: uma gravação de sinos. Horrível. A igreja convertera-se em um grande telefone celular e emanava um toque polifônico; o som tomou conta de todo o espaço, de toda a praça, ricocheteava nas paredes e voltava, provocando terríveis ecos.

Parece que as gravações de sino tornaram-se algo comum. Lembro-me de ter ouvido, na cidade de São Paulo, algumas igrejas que usavam do mesmo expediente, mas cujo resultado não me parecera tão ruim.

A igrejinha simpática de Araraquara que usa os sinos virtuais não deveria mais fazê-lo. É quase polição sonora. Para que estragar a bela praça e a harmonia da igreja construída com tanto esmero com sinos que lembram mais as trombetas do Juízo Final que o ambiente agradável que deveriam (?) evocar?

Melhor deixar mudo o campanário.

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198. A Caixa do Passado

A "Caixa do Futuro" de Araraquara

Monumentos. As pessoas passam por eles e, por hábito ou incompreensão, sequer dirigem-lhes uma fugaz olhadela. A etimologia da palavra já nos diz que, para os romanos monumentum ou monimentum, trata-se de “edifício majestoso, mausoléu, obra notável”.

Em compensação, sempre fui atraído pelas pedras e metais da memória. Gosto de parar, ler as placas, de saber por que — ou por quem — aquele monumento foi erguido. É difícil que algum me passe desapercebido.

Porém, durante um bom tempo, um estranho monumento chamou-me a atenção em Araraquara sem que eu pudesse deter-me para uma visita. Um grande cubo preto, instalado em uma ponta de quadra entre a dita Via Expressa e os trilhos da ALL. Depois de alguns anos passando pelo cubo — quase sempre de carro e de carona, o pudor impedia-me de parar ali —, dia desses atrás, quando ia para o trabalho de bicicleta, o calor fez com que eu me detivesse para beber água, bem ao lado do cubo.

Que posso dizer? No mínimo intrigante. Um cubo de granito preto e com duas placas de bronze (?) encaixadas em recuos nas faces laterais. Em uma das placas, um agricultor trabalhando, na outra, a explicação: trata-se de uma “caixa do futuro”.

A Caixa do Futuro araraquarense contém documentos vários — pelo que pude apurar na própria internet, gravações de áudio, mensagens — que foram postos ali em 2007. Segundo as “instruções” contidas na placa, a caixa somente deve ser desencerrada cem anos a contar da data de fechamento, ou seja, 2107.

A intenção, ainda segundo a placa, é mostrar “o que estamos fazendo hoje e como desejamos nossa cidade nos próximos cem anos”. Em suma, é um monumento do hoje dedicado ao futuro, essa quimera monstruosa que nos persegue.

É típico dos políticos amarrarem-se ao futuro, criando ilusões no eleitorado. Também é típico nosso, que sempre vislumbramos um futuro melhor (maldito positivismo). A Caixa do Futuro é uma institucionalização do Futuro por um Hoje desesperado ou, pelo menos, ansioso. Por que não uma loa ao Hoje? Um monumento ao Hoje?

Se não há motivos para levantar um monumento ao tempo presente, por que o fetichismo com o amanhã?

Além disso, a tal Caixa do Futuro é uma tentativa de perpetuação, de memória perene, uma espécie de monstruoso espermatozoide de granito para fecundar o presente de daqui a cem anos. Ou simplesmente um cálculo renal da memória: uma ideia que já nasce velha. Por que não foram mais além? Por que não a colocaram em uma praça e trocaram o nome do local para Praça da Caixa do Futuro? Se bem que aquela ponta de quadra onde está a caixa ainda pode ser batizada.

Placa principal da Caixa.

197. Antiajuda

Quase sempre, quando entramos numa livraria, nos deparamos com a pilha das obras de autoajuda. Sejam elas algo mais pé-no-chão, de fundo psicologizante ou misticoide. Impávidas, soberbas e com capas chamativas — e estranhamente semelhantes —, chamam os deprimidos e aqueles que ainda não conseguiram o brevê para a sertralina ou fármacos mais profundos.

Vendem por suas páginas um mundo melhor; u’a maneira diferente de ver o mundo. São obras para (1) gente que ainda crê em algum tipo de normalidade, (2) pessoas que creem na interferência de forças superiores — a escolha do freguês, ou melhor, da cultura do freguês — ou (3) a turma que procura um motivo para a existência. O motivo 3 dá matéria para outros tantos textos. Reservemos o tema.

E um livro de antiajuda? Fora as paródias que existem dos títulos mais afamados da autoajuda, não creio que ninguém haja realmente pensado em em um livro de antiajuda verdadeiro. Pode ser que não haja um com esse intuito objetivo, mas há coisa que o valha e é uma das obras-primas da literatura.

Giovanni Papini, 1881-1956

Trata-se de “Gog”, de Giovanni Papini. Já andei citando o livro por aqui. Gog é o nome do protagonista, redução de Goggins, americano por acidente, filho de uma nativa maori e um homem de raça branca, porém desconhecido; de modo igualmente desconhecido, junta um certo capital e logo se torna um dos homens mais ricos dos Estados Unidos “[…] e logo, do mundo todo”; mas que acaba pipocando por casas de repouso, numa das quais encontra o narrador.

Escrito na forma de um diário compilado, Gog inicialmente nos assombra pelas suas conclusões que, a primeiro momento, parecem demonstrar um profundo cinismo com relação à Humanidade, mas que, com o decorrer da leitura, mostra-se um questionamento à normalidade.

As reações de Gog podem não coincidir totalmente com as do leitor (creio que se isso ocorresse, teríamos um buraco negro literário), mas, certamente, acabará por ver-se ou sentir-se representado de alguma maneira.

Pontos polêmicos são as conversas que o protagonista mantém com interlocutores ilustres: Henry Ford, Sigmund Freud, Mahatma Gandhi, Vladimir Lênin (essa uma das passagens mais surpreendentes), cinco monarcas reunidos no palácio de Guilherme II, colóquios com charlatães, metafísicos de ocasião e defensores de teorias estranhíssimas.

Considerado pela crítica a obra-prima de seu autor, o livro encaixa-se — involuntariamente — na categoria de antiajuda: a misantropia de Gog ou fará com que o leitor refute-o definitivamente, ou causará uma identificação. A indiferença não é possível.

Papini é toscano, como Malaparte. Não sei se o dado é relevante, mas fica um liame entre a genialidade de ambos. Conterrâneos de Maquiavel.

Não sei se há tradução em português; estou em posse de um pdf em castelhano, disponível na rede. Aproveite a leitura.