194. Arrivismo cultural

Há alguns anos, possivelmente até a República Velha, havia uma elite cultural no País. Não só: havia uma elite cultural mundial, baseada principalmente na Europa e que alimentava as ideias.

No bojo do relativismo cultural proposto e imposto como dogma pelos intelectuais franceses dos anos 1960, veio o nivelamento. Tudo é igual e tudo é válido. Mozart e um elemento batendo um atabaque num rincão poeirento da África são a mesma manifestação cultural, como dizem. É tudo cultura e quem disser o contrário será chamado, no caso de oponentes mais refinados, no mínimo, de eurocentrista. Fora outros epítetos realmente ofensivos como racista (lembre-se: de acordo com a cartilha do politicamente correto, apenas o preconceito contra o negro e racismo, o contrário, jamais!), ignorante e tantos outros.

Fora o nivelar por baixo, como se não bastasse, há ainda a indústria cultural, cada vez mais adaptada à vacuidade e aos fatos culturais fabricados. Qual seria a diferença entre um carro popular feito 75% em plástico e uma dessas bandinhas coloridas ou a enxurrada de duplas sertanejas? Nenhuma. São produtos seriais, de linha de montagem: as indústrias física e cultural não têm muita diferença.

O verdadeiro Estado de Massas (Gadaffi talvez desse crédito ao meu texto apenas por essa expressão) existe. A homogeneidade cultural, a pasteurização internacional transformou a cultura em algo comercial, palatável a muita gente, diluída. Afinal, a quanto mais gente agradar, mais venderá. O consumo desses produtos implicará em descaracterização cultural dos povos, principalmente dos povos urbanos.

No meio dessa população massificada, um novo tipo de homem ergue-se (seria o homem novo, tão desejado pelos socialistas?). Os efêmeros movimento econômicos injetam dinheiro no mercado e o dinheiro vai majoritariamente para o bolso dos poderosos, mas uma lasca tem de ser dividida com o resto da massa trabalhadora.

Feita luz da escuridão, surge um novo estrato da população, ligeiramente acima do vulgo, como a água limpa que se separa da lama — usemos a nomenclatura estatística para designá-la: a classe C.

Sem preconceitos. A designação está em voga por conta de a classe ter engordado nos anos Lula e ser considerada a nova classe média. Seria válido chamar seus membros de brasileiro médio? É algo que remete à boçalidade reinante nos EUA com seus americanos médios, creio que os fenômenos que penso descrever ou relatar não reflitam uma realidade média. Tampouco uma consciência de classe.

Em poucas palavras: classe C é composta são elementos assalariados, com renda familiar per capita superior aos R$ 1.000 até algo nebulosamente marcado nos R$ 3.500, R$ 4.000. Mas creio que a grande maioria do estrato concentre-se na faixa entre R$ 1.000 e 1.500, uma C-.

* * *

A classe C aspira a mais. Não basta o dinheiro; aliás, parco, tendo em vista o custo de vida nas cidades, seu hábitat. Parte dela já se cansou do que pode ser ordinariamente adquirido com dinheiro. O cartão de crédito saciou-lhe as necessidades alimentares e as primeiras extravagâncias, quase sempre ligadas a telefones celulares e a automóveis. As primeiras ambições são aquelas visíveis: carro e celular. Celulares caros que têm acesso à internet, fotografa e faz mil coisas, inclusive ligações telefônicas.

Se por aí ficasse… mas não fica. Desejos saciados implicam em novos desejos. O passo seguinte da classe C é a ascensão. Se não for efetiva, pelo menos aparente. Aí entram os produtos culturais.

Uma parcela dessa classe contentar-se-á com shows de seus ídolos pré-fabricados. Outros quererão mais. Querem acesso à cultura; mas não para si: para ostentar. Já me explico.

O acesso a produtos culturais diferenciados é a chave de acesso para a confusão na classe superior. E não é visto somente como puro interesse ou exercício intelectual ou crescimento pessoal. Não. O interesse é na casca, na aparência.

Os sintomas dessa cultura epidérmica se vê por toda parte, mas o mais evidente são as coleções de jornais. Um jornal lançou livros de filosofias com capas horrorosas ou, digamos, com uma desenho de vanguarda. Relativamente bem editados, aqueles livros foram feitos para ornar salas: à primeira página já se vê que os tipos minúsculos são ilegíveis: páginas cujos espaços tipográficos são oásis para a vista no meio da confusão do corpo do texto.

Outra coisa: se alguém que comprou o livro pensar realmente em lê-lo, morrerá no esforço visual. Fora que ler é cansativo: nosso Cezinho — chamemos nosso homem prototípico assim — não tem tempo ou paciência. Ou está preso no trânsito, ou está lendo apostilas para terminar a sua faculdade, no curso da moda. Os livros virarão adereço de sala.

O mesmo vale para CDs de ópera e coleção de filmes europeus. Apenas servirá para Cezinho, o arrivista, dizer na facul que tem tal obra de Truffaut, que tem em casa a Carmen de Bizet. Gravações antigas, a preços acessíveis. Com o devido encarte explicando tudo, em linguagem simples, letras grande e bastante figuras. É a casquinha do ovo pintado; dentro: a vacuidade, o exibicionismo, a pirotecnia verbal, a jactância estéril.

Valem-se da antiga cultura apenas para aparências. Realmente não se importam. Querem viajar à Itália porque a Itália fica na Europa e a Europa é um lugar rico (verdade?). Querem um vinho caro porque é caro e não pelo gosto. Tudo neles é descartável, por mais que se pintem de ouro. É uma questão de mera conveniência.

Quanto aos livros, logo se detecta um arrivista: eles estão todos na sala, no belo rack comprado em vinte prestações naquela loja popular. Marx, Kant, Santo Agostinho, Platão, Bizet, Carmen, Mussorgsky. Tudo junto, numa lambança sem fim. Eles não querem chegar a lugar algum com isso, apenas pavonear-se.

E tenha plena certeza: Cezinho dorme muitíssimo bem à noite.

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21 Comentários

  1. Thiago Dias

     /  24/08/2011

    Bacana teu texto. Tem o tema do texto que escolhi na minha iniciação científica (Hannah Arendt – A crise na cultura – IN: Entre passado e futuro: acho que você vai gostar do texto) e é algo que me intriga bastante. Uma coisa que também é curiosa de se notar é a reação das pessoas “não arrivistas” (eu sei que o limite entre ser ou não ser arrivista é mais tênue, mas, para simplificar o papo…) diante dos “objetos de consumo” que viram fetiche. Tenho amigos que, de maneira mais ou menos consciente, fazem questão de não tomar vinho ou ouvir jazz justamente para não serem confundidos com os arrivistas. Outros fazem questão de pavonear um fanatismo pelo fast food para não serem confundidos com quem frequenta o Alex Atala. Estão na mesma lógica, mas com o sinal invertido. É curioso, mas triste.

    Eu também lamento a vulgaridade da “classe C” (a questão é muito mais antiga que ela, e, creio, no Brasil, a B é mais vulgar). Lamento que, com dinheiro, viraremos a Florida ou o Texas, não a Toscana, o Val de Loire ou tua querida Catalunya. Mas minha alegria por estarmos nos distanciando da Somália arrefece o incômodo.

    Abraço

    ps – não acho que os socialistas sejam tão relativistas… Marx, a referência maior, era um típico homem do XIX e chacoalhar atabaque dificilmente seria algo aceitável para ele. Adorno era um “elitista” para quem Stravinsky era redução da audição…

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  2. Amigo, Adorno era o Lobão de outrora. Famoso pelo gogó; era um merda falastrão( sim, estou fazendo que nem ele neste esclarecimento). E quanto ao texto, sim: arbitrário, segue a tese de que os recém-evoluídos ,economicamente, devem continuar consumindo Zé Zedica Margo para serem vistos como pessoas sinceras(não levando muita fé no gosto pessoal anterior dos mesmos antes desse alarde estérico midiático).
    E viva Narcisa Tamborindeguy!, vizinha do Copacabana Palace

    Responder
  3. E a solução da direitinha para o problema é qual? Matar? Brincar de Laranja Mecânica e fazer o cara sentir dor de cabeça insuportável ao pisar em Veneza, ouvir música erudita, ter contato visual com alguma obra clássica tanto visual como literária?

    Este é o famoso não-problema. As razões íntimas das pessoas não interessam. Antes da revolução industrial, os ingleses eram um bando de preguiçosos que gostavam de ganhar dinheiro com barcos piratas. Mudanças culturais demoram gerações. O fato do arrivista ter essas coisas em casa dá oportunidade para seus filhos lerem a sério e gostar de verdade disso ou daquilo. O que pode ser uma esperança cretina, se você for um Social-darwinista.

    Responder
    • Sérgio F. Mendes

       /  07/09/2011

      Que direitinha? Quem está falando de política aqui, Miguel?

      Responder
      • É um preconceito particular meu. Chamo esse tipo de pensamento de “pensamento de direitinha”. São pessoas de classe média que adquirem alguma ou muita cultura (e muita e admirável erudição, no seu caso particular) e se arrogam o direito de classificar os outros. Como disse uma grande amiga minha, organista, não existe nada mais conservador do que militares, religiosos e pessoas de classe média, e ela nasceu numa família em que abundavam as duas ocupações, todos de classe média. Mesmo assim, ela consegue ser totalmente não conservadora em seu ofício. Mas enfim…

        É engraçado, mas durante o Pan-americano, vi um monte de cariocas funqueiros gritando e desprezando uma orquestra de viola de São Paulo, que tocava lindamente. Nem arrivistas ainda eram, e duvido que fossem intelectuais, mas tinham o mesmíssimo espírito deste texto, apenas com uma elaboração um pouco mais rudimentar: aqui é batidão, que putaria é essa de paulixta, isso é tudo um lixo.

        É um monte de gente que não se entende e não se enxerga, uns por carência e outros por excesso, em que, devo reconhecer, me incluo sem vergonha.

  4. É um preconceito particular meu. Chamo esse tipo de pensamento de “pensamento de direitinha”. São pessoas de classe média que adquirem alguma ou muita cultura (e muita e admirável erudição, no seu caso particular) e se arrogam o direito de classificar os outros. Como disse uma grande amiga minha, organista, não existe nada mais conservador do que militares, religiosos e pessoas de classe média, e ela nasceu numa família em que abundavam as duas ocupações, todos de classe média. Mesmo assim, ela consegue ser totalmente não conservadora em seu ofício. Mas enfim…

    É engraçado, mas durante o Pan-americano, vi um monte de cariocas funqueiros gritando e desprezando uma orquestra de viola de São Paulo, que tocava lindamente. Nem arrivistas ainda eram, e duvido que fossem intelectuais, mas tinham o mesmíssimo espírito deste texto, apenas com uma elaboração um pouco mais rudimentar: aqui é batidão, que putaria é essa de paulixta, isso é tudo um lixo.

    É um monte de gente que não se entende e não se enxerga, uns por carência e outros por excesso, em que, devo reconhecer, me incluo sem vergonha.

    Responder
    • Sérgio F. Mendes

       /  08/09/2011

      É o que eu falo, Miguel: manter opiniões que vão contra u’a maioria ou contra uma pretensa intelectualidade das academias doutrinadas pela “esquerda sutil” ainda é considerado lesivo. Bem, as coisas mudam e nada é estático. Hoje o estado de coisas está assim; foi diferente e será outra coisa daqui a 50 anos.
      Tenho a dizer em minha defesa que não venho de uma família de classe média e que dessas profissões por você citadas, o mais próximo que houve em minha família foi um bisavô paterno que se aposentou como tenente da antiga Guarda Civil do Estado. O que poderia então ter acontecido comigo? Deixei-me influenciar, como já tiveram o despeito de apontar na minha cara ou simplesmente vir de famílias que veem o trabalho como única forma de ascensão financeira e, consequentemente, intelectual? Não sei; o que não gosto é de compactuar com a sujeira instalada neste país pela Esquerda (seja PT, seja PSDB), desde a constituinte de 1988. E vejo nela um projeto de permanência no poder pelo poder e fisiologismo total, como nos recentes escândalos que temos acompanhado.
      Enquanto a ‘bonança’ econômica durar e nada de sério acontecer, estaremos na mesma merda.

      Responder
  5. Das profissões, ok? E da classe média, não vou me atrever a contar sua própria história, apenas fico com o meu preconceito e o meu olhar classificador, que também não é da conta de ninguém.
    Ver o trabalho como única maneira de ascensão social e intelectual no Brasil é eticamente perfeito, mas empiricamente inútil, inocente, improdutivo e quantos mais adjetivos com in- você quiser (a minha locução adjetiva para isso é idealismo estúpido). Agora acreditar no trabalho sério, com afinco, como fator de mudança social, com base no exemplo, na árvore que dá frutos (me utilizando da bela metáfora bíblica), na contaminação benéfica, que sabemos ser algo não muito rápido, mas talvez frutífero (sic), vá lá.

    Quanto às menções políticas, vejo os mesmos adjetivos com “in-“. A Esquerda não inventou a corrupção, mas o homem, muito antes de existir os lados do espectro político. A sujeira vem da forma como o funcionalismo público se instalou desde a colônia, ganhando seu acabamento na corte chegando em 1808. Desde então, a mentalidade mudou pouco. Mimar os poderosos, criar dificuldades para vender facilidades, é algo que está no Estado brasileiro (e que pouco mudou em governos de direita, esquerda, populistas, radicalismos de centro etc.). Os nomes que aparecem nas cédulas e agora nas máquinas não são os principais inimigos deste Estado, mas essa craca que se perpetua parasitando-o, inclusive limitando a ação dos bem intencionados e atalhando a corrupção dos desocupados. Isso é anterior ao nascimento dos pais e talvez dos avós dos fundadores desses partidos.

    Qualquer democrata é um democrata até chegar ao poder, depois disso, ele quer se perpetuar, mesmo que seja pela continuidade de seu projeto (não necessariamente da pessoa). É o que fica claro em tudo que você escreve: um amor terno e profundo pela democracia, de opiniões idênticas às suas, claro.

    Responder
    • Sérgio F. Mendes

       /  08/09/2011

      Não, não creio apenas em uma solução democrática, mas vejo um único “projeto” de democracia. Que não é democracia nem aqui e nem em lugar nenhum. Tudo bem, alguns pontos são atribuíveis à índole humana, que é terrível. Porém, olhando certos exemplos de fora, parece que nós brasileiros são mais humanos que o resto da Humanidade.
      Acho que há várias soluções democráticas, mas não vejo a autointitulada democracia brasileira caminhando nessa senda. O que esperar de um partido, que aprova no seu congresso o tal controle social da mídia como preceito? Estão estrangulando a imprensa por conta dos escândalos. Se depender de alguma das opções que aí se apresentam, realmente mão resta muito a fazer, a não ser sentar e chorar.
      A qualquer manutenção do status quo sou contrário: fisiologismo, corrupção, sistema federativo falho. Essas coisas têm de ser varridas; não é mais possível compactuar com qualquer força política que faça eco a essas sujeiras
      Por isso que digo de não mais discutir certos preceitos: porque são simplesmente inúteis. Não é mais questão de PT e PSDB, a coisa é muito mais feia.

      Respeito a opinião alheia, desde que ela não me ofenda e as opiniões têm se mostrado mais que ofensivas: são danosas. Isso porque são coisas que conheço e que já defendi em vários momentos de ingenuidade. Alegar sandices, p. ex., como dizer que o PSDB é um partido de direita e por aí vai.

      Haveria espaço para democracia, mas o espectro político brasileiro (e mundial, por que não?) pende a um totalitarismo de massas, a um nazismo de consumo, sem ideologia.

      Responder
  6. Parece que, apenas para o seu caso individual, você acredita que as coisas mudam para melhor. Ou tudo muda para melhor, inclusive nós, ou as coisas simplesmente mudam, para lugares que não controlamos.
    Classificar partidos depende do espectro prático. No Congresso, o grupo político de que você faz parte não tem representação, portanto não entra no cômputo do espectro atual. O PSDB está mais a direita que o PT, e os dois estão mais próximos do centro. É apenas isso. Se você quiser dizer que o Brasil atual tem um viés esquerdista, vá lá. Mas isso não nega a posição relativa. O dia que os teus contarem de alguma maneira, não necessariamente com representação, mas de outros modos possíveis, joga toda essa gente para a esquerda, pra cima ou pra baixo, e vocês tomam posse do lado que tanto amam.

    Os países democráticos bem sucedidos tem mecanismos estatais para lidar com a mídia. Para pegar o exemplo mais bem acabado, falemos do FCC: http://www.fcc.gov/what-we-do. Qualquer leitor medíocre de inglês, como eu, entende a palavra “regulate” como “regular”. Isso começou em 1934. Este órgão já fechou inúmeros meios de comunicação, por razões diversas. Está sob o controle do Congresso dos EUA. Se funciona ou não, não sei, mas nunca vi ninguém falando que o FCC é autoritário, exceto quem se ferrou na mão dele. E eu estudei um tanto sobre isso (o que não quer dizer muito).

    A propriedade cruzada é antidemocrática como a censura, assim como a concentração da mídia em poucas mãos (que é mais ou menos a mesma coisa), como se vê no Brasil. Liberdade de expressão existe com um mísero canal de comunicação. Nenhuma empresa de comunicação precisa entulhar o dial, com 2, 3 rádios, sendo que uma só basta para que ela se expresse. Hoje em dia, uma simples radio em streaming garante tal liberdade.

    Portanto, a criação do órgão em si, ao contrário do que alardeiam as antidemocráticas, antiéticas e mentirosas ABERT e Associação de Radiodifusores, bem como a regulação em si não são más, apenas para quem vai perder audiência (liberdade de expressão é poder falar, sem garantias de que será ouvido). Quanto à eficácia do órgão governamental, vá lá discutir-se. Agora se é pra tê-lo, qualquer projeto democrático que presta (na amostragem do mundo real, sem os poréns da direitinha) tem.

    Responder
    • Sérgio F. Mendes

       /  08/09/2011

      O problema é, a FCC é controlada pelo Congresso. Perfeito talvez para eles. Cá entre nós, na Botocúndia profunda, é certo que daria em censura pura e simples. Basta lembrar que o presidente do Senado é José Sarney.
      Infelizmente, nas semidemocracias (como a nossa), sem a mídia denuncista, determinadas coisas jamais sairiam dos corredores palacianos. Neste momento, o controle da mídia por um organismo desse tipo (temos a Anatel, análoga do FCC, mas com atribuições um pouco diferenciadas) seria danoso por conta dos interesses políticos. Ainda é melhor contar com uma imprensa sensacionalista do que amainada à força pelo aparelho estatal.
      Os EUA são um país que tem a liberdade como preceito, uma democracia relativamente estabilizada e uma constituição que é a mesma desde o final do século XVIII, com algumas emendas; se bem que a coisa tem degringolado por lá também.
      Se o FCC é bom para os EUA, perfeito. Aqui, uma agência de regulação da imprensa, nas mãos de quem tem andado nos últimos 30 anos no poder, é tragédia certa. E ainda dizem que fazem isso em nome da democracia. E depois você vem dizer a mim que só concordo com quem concorda comigo. E esses que estão no poder, não deveriam ter uma cisão pluralista? Eles têm apenas um projeto de poder que é petrificar-se em Brasília e tomar o Estado de assalto com política e parapolítica. O projeto de controle “social” da mídia é isso.
      Afinal, se algum veículo de comunicação extrapola, temos aí a Justiça.

      Responder
      • Esses são os já esperados poréns da direitinha! :D Previsíveis, aliás. Lembrando que uma das propostas acabaria com propriedade cruzada, o que prejudicaria nada mais, nada menos que: José Sarney, entre outros.

        Quando alguém usa a justiça, como o supracitado Sarney ou José Dirceu (afinal, mensaleiro ou não, meio de comunicação nenhum ganha o direito de invadir casas, em sendo verdade), chamam-no censor, porque tem influência política e bla bla bla, e culpam a máquina kafkiana. Quando Maria Rita Kehl descreve o ressentimento direitinhista, comete delito de opinião e, como funcionária, não como cidadã, é escurraçada do meio de comunicação censurado pelo poder do senador quase vitalício. E ninguém fala nada

        Qualquer projeto de poder quer se perpetuar, o que inclui o seu, o meu, o da mídia, o do Mino Carta, do Rupert Murdoch e do Bento XVI etc etc. Isso é incontestável. E quem não consegue se ressente. Você, eu, os toscos toscanos e a galera do Manhattan Connection.

        A propósito, o Príncipe é um livro de alguém que perdeu poder e tentou lamber o saco do novo governante pra ver se conseguia a boquinha anterior. A propósito também, ele se ferrou. Lembra muito os aduladores da nossa República, não?

  7. Sérgio F. Mendes

     /  08/09/2011

    Não é exatamente o receio da ‘direitinha’ (que não existe no Brasil, afinal, quem defende liberalismo/neoliberalismo econômico abertamente?), é o receio de ver o Estado dizendo o que pode e o que não pode. Com os nossos políticos, seja o atual governo, seja um eventual novo governo tucano, vão lançar mão do controle toda vez que a coisa ameaçar degringolar em escândalo…

    Quanto a Maquiavel, sem dúvida: esses que estão aí se não tem ‘O Príncipe’ como livro de cabeceira, adotaram seus preceitos por osmose. Maquiavel era um estratega político, tinha o plano de poder, mas hoje, essas coisas têm de ser dissimuladas. Se o próprio Lourenço de Médici não quis saber dos escritos, ou seja, já ‘pegava mal’ naquela época.

    Aliás, você faz um uso torto do termo ‘direita’ que é simplesmente insuportável simplesmente porque é irreal. Os partidos brasileiros são de centro-esquerda. O DEM ameaçou falar de liberalismo mas foi cerceado pelas próprias bases, que são o retrato do fisiologismo com os governos coronelistas do NE. Direita, no meu ver, é liberalismo econômico e estado mínimo, coisa que faz políticos e funcionários públicos tremerem até se cagarem…

    Responder
    • Sem modéstia, vai… Existe sim e você só não sabe, como participa.

      Eu sou um pouco mais perverso. O tal Médici do momento, senhor de si, já sabia daquilo de cor e salteado e mandou-o às favas. É uma alternativa histórica engraçadíssima, ainda mais se levarmos em conta o séquito incensador do livro e do autor. O Médici seguinte não era tão seguro, e deixou o ressentido Maquiavel entrar em Casa. Que como excelente estrategista se ferrou de novo, quando literalmente caiu a Casa dos Médici.

      Então, torto é dizer que fisiologismo é uma característica inerente à esquerda. No seu espectro, só seu e da direitinha, na direita que vocês querem (talvez do lado do Pai) não existe fisiologismo. Direita é conservadorismo político, liberalismo é opção. No Império, tínhamos dois partidos conservadores: o Conservador e o Liberal (se você ousar dizer que eram de esquerda, centro-esquerda, meia-esquerda ou ponta-esquerda, desejo que depois da morte, passe a eternidade, o éter, o nada com Stalin). Eram levemente distintos apenas na abordagem econômica. Curiosamente, nesses gabinetes é que se fundaram os princípios e as leis gerais do fisiologismo político. Enquanto eles se requintavam e requentavam com filósofos e ideias europeias, o Estado brasileiro pagava um séquito de aduladores para ensaiar uma administração do Estado.

      Agora deixa eu adivinhar, vai dar uma de Luís XIV e dizer a frase favorita da direitinha: “A Direita sou Eu”.

      Responder
      • Sérgio F. Mendes

         /  08/09/2011

        Nada disso. Sou apolítico em termos de filiações efetivas e oficiais.

        Disse que o fisiologismo está presente na esquerda sim, mas não é inerente a ela. na verdade, é inerente ao espectro político todo. Desde a época do Império, por isso partido algum brasileiro consegue livrar-se dele. Durante o regime militar, Estado Novo, sempre.
        Tanto que mal se fala nele ou se usa muito esse termo na imprensa.

        Se direita é “conservadorismo político”, a esquerda é a sua liberação obrigatória? A minha decepção com a esquerda que ora está no poder é justamente não ter quebrado o fisiologismo, muito pelo contrário, tê-lo fortalecido. Ou pelo menos, a ação da imprensa tem sido mais enfática. O PT sempre se pôs como o bastião moral da república e provou nesses quase nove anos ser tão pantanoso quando aqueles a que se opunha. O Estado brasileiro precisa ser refundado e não pode ser num viés de esquerda, que se mostrou falido e corrompido pelo populismo, pelo clientelismo e pelo curral eleitoral por programas sociais.

        Quanto a Maquiavel, a sua genialidade é exatamente essa: ter posto no papel. Acabou sendo um trabalho mais válido para os pósteros do que para a intenção de ser readmitido nos círculos do poder. Eu diria que ele foi ingênuo. Sua correspondência pessoal transparece um sentimento de realmente acreditar naquilo que escreveu.

        E quando esse “a Direita sou eu”, deixo aos totalitaristas de plantão.

      • “A Direita sou eu” é só uma brincadeira autoafirmativa, vai…

        A imprensa fala nele sim, mas apenas para dizer mal do PT, como se eles tivessem inventado a novidade.

        Você pode ir para a esquerda, direita, pra onde quiser. O problema é cultural, formacional. Temos coisas aproveitáveis nos mais diversos ideais. Guardar-se numa torre de marfim ou se dizer isso ou aquilo não vai resolver absolutamente nada.

        O Estado não precisa ser refundado. Nosso problema é que o Estado foi fundado antes da nacionalidade e está começando a se identificar como tal agora. Daí quando isso está mais ou menos encaminhado, vemos arroubos de superioridade vindos do Estado que está perdendo felizmente o predomínio econômico (assim como ainda faz em certa medida, a ex-capital).

        Aquela jactância de quem se acha no direito de classificar o que é melhor para todo mundo, etc etc.

  8. Ah! O João Mellão defende, o Diogo Mainardi defende, o Lucas Mendes defende (não moram aqui por nojinho), o Olavo defende (e seu filho Olavinho, Reinaldo), você defende, maior galera defende (contei 6 e nenhuma mulher).

    Responder
    • Sérgio F. Mendes

       /  08/09/2011

      Não me alinho por número, mas por crer realmente numa solução melhor. Mesmo que fosse o único. Não me preocupo porque jogo sem intenção de vencer, mas apenas de manter viva a luz de um “outro lado”.

      Responder
  9. Sérgio F. Mendes

     /  08/09/2011

    Afinal, como esperar que a turma que vive nas costas do Estado, mamando, recebendo programas sociais eternos e correlatos, vá ser contra o estado de coisas? O apoio ao câncer é amplo.

    Responder
    • É muito bonito, mas pouco prático. Quem mantém a luz quer ganhar lá no final. Mesmo que seja pela perpetuação da ideia, para ser citado pelo sujeito ultraliberal que refundar o Estado brasileiro daqui uns 227 anos. Nesse momento, seu esqueleto dentro da caixinha da exumação ou a poeira multicorpórea da urna crematória terá um frêmito, quando disser: “Ele, que manteve acesa a chama desse ideal possível…” e todo aquele encômio pernóstico.

      Acho você muito apressado historicamente para um conservador, sabia? Eles costumavam ser mais pacientes na época do império. Esse seu comentário sobre as tetas do Estado e os programas sociais vou guardar para daqui mais uns 7 anos, caso vocẽ tenha a felicidade de ter a atual presidenta por dois mandatos.

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  10. A propósito, a nova disposição gráfica do teu blog ficou mais bonita, mesmo com poucas mudanças. Parabéns!

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