193. A Líbia e seu Rei

A guerra civil na Líbia chama-nos a atenção. Ligada também à onda da Primavera Árabe, traz consigo alguns questionamentos comuns. Por exemplo, como os rebeldes conseguiram organizar-se tão rapidamente? E como conseguiram derrotar um regime consolidado — e muito bem armado — em tão pouco tempo?

Basta que nos lembremos da Guerra Civil Espanhola. Houve um cisma no país, os lados estavam relativamente equilibrados e as batalhas arrastaram-se por longos três anos, entre 1936 e 1939.

Como os rebeldes tiveram tamanha adesão das Forças Armadas líbias em um ambiente politicamente anaeróbico? Pela sequência e o desenrolar das revoluções nos vários países árabes, há motivos suficientes para se pensar em um movimento pan-arabista — que ainda não se fez visível — ou, pior ainda: um movimento pan-islâmico, possivelmente concentrado na Irmandade Islâmica.

Sabe-se que a Irmandade é muito forte no Egito e sempre se opuseram ao laicismo nasseriano. Mas e nos outros países? Teria ela força suficiente para subverter os governos?

Voltando à Líbia. O que acontecerá com o fim iminente da era Kadafi? Os rebeldes, agora já considerados por muitos os representantes legítimos do povo líbio, por meio do dito Conselho Nacional de Transição, estão apresentando alguns sinais claros de racha, nas palavras do próprio vice-líder do Conselho, Mahmoud Jibril, que hoje lhes pediu calma.

O futuro próximo da Líbia parece nebuloso. Cedo ainda para dizer que o país se tornará um novo Iraque, mas também cedo para dizer se os rebeldes saberão adaptar-se aos nossos tempos tão “democráticos”.

O mundo árabe é notório por monarquias absolutistas (ou semiabsolutas) e autocracias. O Egito deixou de estar nas mãos do Rei Farouk e caiu logo no pan-arabismo de laivo socialista de Gamal Abdel Nasser. A Síria também teve o comando passado de pai para filho em um regime pretensamente republicano. Tunísia, a desordem do Líbano, a monarquia absoluta da Arábia Saudita. Parece que as perspectivas para a Líbia, vistas do Ocidente, não são das mais animadoras.

Um parcela dos rebeldes chega a falar na restauração da Constituição de 1951, o que implicaria em chamar o herdeiro do Trono líbio, o Príncipe Mohammed El Senussi, exilado no Reino Unido. Ao que parece, a dinastia com longa tradição político-religiosa desde a época do domínio otomano, é ainda muito popular em algumas regiões da Líbia, principalmente na Cirenaica.

Mohammed El Senussi é sobrinho-neto do Rei Ídris I, único rei do período da Líbia independente, entre 1951 e 1969. O regime do Coronel Kadafi tentou apagar os símbolos da família, chegando mesmo a destruir a mesquita considerada o centro da dinastia.

Possivelmente, o representante da dinastia seja a única pessoa que tenha poder de aglutinação para estabelecer um novo estado líbio, com base no poder moral e religioso emanado da família. É sintomático que os rebeldes tenham escolhido por flâmula a antiga bandeira do reino, que tem em sua faixa preta com o crescente o símbolo da dinastia.

Só se espera que os líbios façam a escolha correta e chamem Mohammed para assumir o trono, antes que surja outro Kadafi.

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