196. Discussões

A Humanidade pôs na cabeça que da discussão vem o consenso. Creio que é uma premissa falsa: o ser humano funciona como um disjuntor elétrico: ou domina ou é dominado. Não pondera, quer o domínio; principalmente se estiver apoiado em opiniões majoritárias ou que envolvam um problema moral.

Os supostos democratas baseiam-se em dogmas mais fortes do catolicismo que tanto criticam: a democracia é um dogma, o socialismo é um dogma. Por quê? Porque, geralmente, nesses temas, seus defensores não admitem discussão. Na verdade, o que querem é alguém que concorde, que se entusiasme junto ou que discorra sobre problemas técnicos, mas sempre na convergência a um “bem maior”. Isso lá é discussão?

Gastamos tempo e saliva defendendo o que o outro considera indefensável. Qualquer colocação que vá contra alguma noção basilar dos pensamentos majoritários é rechaçada.

Por mais que se defenda um ideal — ou nem mesmo um ideal, quem tem ideais puros hoje? —, chega-se rapidamente à exaustão. É impossível dialogar. Rompem-se amizades por puro proselitismo, cai-se no lado pessoal com argumentos do tipo “você diz isso porque não sabe o que fulanos passam no Nordeste; você diz isso porque não é gay; você isso porque não é negro”. Cansei porque. para mim, essas afirmações dogmáticas não podem ser argumentos, se bem que muita gente assim os considere. Não querem debatedores, querem catecúmenos, seguidores: reizinhos de ocasião.

Fico na parte da filosofia. A filosofia empírica de simplesmente raciocinar sobre algum tema; entrar em confronto com rochas do pensamento não é mais possível, não tenho fé suficiente na Humanidade para crer que valha a pena salvar alguém. Mas sem rancores: sento-me e observo meus coetâneos matarem-se. Com um supremo desprezo; não me dão outra opção.

Papini, Giovanni. «Gog»

Me sorprende y me ofende — por cuanto pertenezco a esa especie — el humilde contentamiento de los hombres. Hablan a cada momento de grandezas — the biggest in the world — y luego se descubre que les parece inmensa cualquier modesta pequeñez. Falta, absolutamente en todos, el sentido de lo gigantesco. Discurren como Sansones y operan como Tom Pouce.

Gog apud Giovanni Papini. «Gog»

195. Educação obrigatória

Segundo a Constituição Federal, a educação básica é direito social da criança e dever do Estado. O que também é corroborado pela legislação-eco: Estatuto da Criança e do Adolescente, Diretrizes Curriculares Nacionais, Parâmetros, etc. Há uma complexa trama legal envolvendo e enumerando as atribuições da União, Estados e Municípios sobre o tema.

Segundo os mesmos documentos, a função da Educação é formar o cidadão e prepará-lo para o mundo do trabalho. Um cidadão consciente de seu papel dentro da sociedade, o que, em tese, já inclui e a necessidade (e o direito) ao trabalho.

Pela lei, o mundo seria ideal. O que acontece na realidade é o descaso do Estado brasileiro. Descaso? Talvez não.

A educação obrigatória é uma ideia que vem no bojo da Revolução Francesa. A educação, o acesso ao conhecimento, é considerado, desde então, um direito social. Pelo bem da república, o cidadão tem de ser instruído.

Como de boas intenções o inferno está cheio, a educação obrigatória subvencionada pelo Estado acabou por servir como instrumento de manipulação pelo mesmo. As classes dominantes nacionais impunham seus pontos de vista da administração pública e o nacionalismo aos cidadãos. Com isso, esperavam manipular a opinião pública (ou criando um cidadão perfeito), que segundasse as opiniões e ações do Estado, fosse partindo para colonizar terras distantes ou servindo nas guerras.

Apesar da roupagem mais democrática usada a partir da segunda metade do século XX e dos pedagogos e suas teorias, a educação está longe de servir ao enriquecimento cultural do indivíduo e continua servindo a intenções do Estado ou do Superestado.

Pela legislação brasileira, o pai que não matricula seu filho em um estabelecimento oficial de ensino, seja público, seja particular, incorre no delito de privação intelectual, para usarmos o termo da moda. Em poucas palavras, se você não pôr seu filho na escola, pode acabar na cadeia.

E por que alguém não colocaria seu filho na escola? A pública responde por si. O mecanismo de proteção absurdo criado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente coloca direções e professores sob a lança de uma lei injusta: não podem punir, não podem expulsar alunos problemáticos. Estão amarrados por uma legislação que, querendo-se humanista, democrática, condena todos os alunos ao cárcere coletivo.

Qualquer uma dessas punições aplicadas a alunos podem ser imediatamente revertidas por juízes da vara de infância. Professores e diretores que não podem punir mais alunos-problema e têm de, por lei, mantê-los dentro do estabelecimento, acabam simplesmente fazendo vista grossa à coisa. O que é compreensível. Em alguns casos, acabam por concordar com as medidas legais por terem sido imbuídos de uma nociva pedoburocracia.

O que se tornou a escola hoje? Simplesmente um repositório, uma grande creche onde ficam as crianças e os adolescentes largados ali para que seus pais tenham um pouco de sossego ou para que eles “não fiquem nas ruas”. Em suma, a educação obrigatória não ensina mais nada, as crianças não aprendem mais nada: a escola tornou-se um aparelho social físico, como uma creche ou um manicômio.

Além disso, a pedagogia ensina que é feio que algumas crianças sobressaiam-se às outras. O ensino é nivelado por baixo, uma vez que não existe mais aquela separação das crianças mais rápidas das mais lentas; as maiores beneficiadas era justamente as últimas, pois o professor poderia realmente dedicar-se àqueles alunos com maior afinco. Hoje, o professor (já relegado à condição de educador) acaba tendo que se dividir entre alunos com níveis cognitivos muito díspares. Isso não torna o trabalho do professor, torna-o impossível.

Esses são os casos naturais. Há coisa pior ainda: vários alunos têm consciência dos seus direitos. Extrapolam, batem, matam, não se preocupam em estudar: sabem que serão ‘promovidos’ e que é uma questão de tempo para que ele se livre da escola. Que instituição é essa que, engessada, não consegue cumprir a função para a qual existe?

Que pai fica tranquilo em saber que o filho está na escola? E por que essa escola péssima é, ainda por cima, obrigatória?

Esse cenário desmotiva os professores. Que professor quer dar aula para esse tipo de aluno? Qual consegue? Alguns, sem opção, canalhamente aceitam o estado de coisas. Outros chegam a crer piamente na enfiada pedagógica, creditando a si o fracasso da escola.

Os pedagogos falam muito em fracasso escolar. O fracasso não é do aluno: é da instituição.

E mesmo fracassada, a escola continua obrigatória. Por que? Parece que a coisa foi feita para ser exatamente do jeito que é: a escola cria elementos refratários à cultura (os que saem com alguma afinidade a ela são os defeitos do sistema) e simplesmente vão ser mão de obra barata. Alguns nem a essa subcondição chegam e terminam como mendicantes ou assaltantes.

E isso é proposital: mão de obra barata, salários achatados, pais que não têm como oferecer condições culturais boas para seus filhos, escola pública novamente. Um círculo vicioso.

Além do mais, numa forçada e prejudicial pseudoigualdade, as crianças são prejudicadas: a escola nega-se a separar antes (e até mesmo com a possibilidade de remediar), o que a sociedade vai fazer depois. O resultado nefasto vai se mostrar na vida em sociedade. E o pior, com a educação negada na escola, será incapaz de ver sua própria condição social e não terá meios para livrar-se dela; apelará a deuses, apelará à violência; será fustigado por uma sociedade consumista.

O Estado brasileiro, incompetente, omisso, conivente com a situação estabelecida, percebam, não permite o ensino em casa, como existe em vários países do Norte. O Estado brasileiro chama para si uma tarefa para a qual tem menos competência do que pais realmente bem intencionados. Menos não: nenhuma competência. O Estado quer nossos filhos sob a sua asa apenas para transformá-los em mão de obra baratam gente sem a menor cultura.

Por que não podemos educar nossos filhos em casa? Bastaria um exame comprobatório pelo Estado e pronto. Por que temos de expô-los a uma instituição falsa, com falsos propósitos? É um crime maior ainda colocá-los na escola… Há interesses em jogo e gente bem grande por trás disso.

194. Arrivismo cultural

Há alguns anos, possivelmente até a República Velha, havia uma elite cultural no País. Não só: havia uma elite cultural mundial, baseada principalmente na Europa e que alimentava as ideias.

No bojo do relativismo cultural proposto e imposto como dogma pelos intelectuais franceses dos anos 1960, veio o nivelamento. Tudo é igual e tudo é válido. Mozart e um elemento batendo um atabaque num rincão poeirento da África são a mesma manifestação cultural, como dizem. É tudo cultura e quem disser o contrário será chamado, no caso de oponentes mais refinados, no mínimo, de eurocentrista. Fora outros epítetos realmente ofensivos como racista (lembre-se: de acordo com a cartilha do politicamente correto, apenas o preconceito contra o negro e racismo, o contrário, jamais!), ignorante e tantos outros.

Fora o nivelar por baixo, como se não bastasse, há ainda a indústria cultural, cada vez mais adaptada à vacuidade e aos fatos culturais fabricados. Qual seria a diferença entre um carro popular feito 75% em plástico e uma dessas bandinhas coloridas ou a enxurrada de duplas sertanejas? Nenhuma. São produtos seriais, de linha de montagem: as indústrias física e cultural não têm muita diferença.

O verdadeiro Estado de Massas (Gadaffi talvez desse crédito ao meu texto apenas por essa expressão) existe. A homogeneidade cultural, a pasteurização internacional transformou a cultura em algo comercial, palatável a muita gente, diluída. Afinal, a quanto mais gente agradar, mais venderá. O consumo desses produtos implicará em descaracterização cultural dos povos, principalmente dos povos urbanos.

No meio dessa população massificada, um novo tipo de homem ergue-se (seria o homem novo, tão desejado pelos socialistas?). Os efêmeros movimento econômicos injetam dinheiro no mercado e o dinheiro vai majoritariamente para o bolso dos poderosos, mas uma lasca tem de ser dividida com o resto da massa trabalhadora.

Feita luz da escuridão, surge um novo estrato da população, ligeiramente acima do vulgo, como a água limpa que se separa da lama — usemos a nomenclatura estatística para designá-la: a classe C.

Sem preconceitos. A designação está em voga por conta de a classe ter engordado nos anos Lula e ser considerada a nova classe média. Seria válido chamar seus membros de brasileiro médio? É algo que remete à boçalidade reinante nos EUA com seus americanos médios, creio que os fenômenos que penso descrever ou relatar não reflitam uma realidade média. Tampouco uma consciência de classe.

Em poucas palavras: classe C é composta são elementos assalariados, com renda familiar per capita superior aos R$ 1.000 até algo nebulosamente marcado nos R$ 3.500, R$ 4.000. Mas creio que a grande maioria do estrato concentre-se na faixa entre R$ 1.000 e 1.500, uma C-.

* * *

A classe C aspira a mais. Não basta o dinheiro; aliás, parco, tendo em vista o custo de vida nas cidades, seu hábitat. Parte dela já se cansou do que pode ser ordinariamente adquirido com dinheiro. O cartão de crédito saciou-lhe as necessidades alimentares e as primeiras extravagâncias, quase sempre ligadas a telefones celulares e a automóveis. As primeiras ambições são aquelas visíveis: carro e celular. Celulares caros que têm acesso à internet, fotografa e faz mil coisas, inclusive ligações telefônicas.

Se por aí ficasse… mas não fica. Desejos saciados implicam em novos desejos. O passo seguinte da classe C é a ascensão. Se não for efetiva, pelo menos aparente. Aí entram os produtos culturais.

Uma parcela dessa classe contentar-se-á com shows de seus ídolos pré-fabricados. Outros quererão mais. Querem acesso à cultura; mas não para si: para ostentar. Já me explico.

O acesso a produtos culturais diferenciados é a chave de acesso para a confusão na classe superior. E não é visto somente como puro interesse ou exercício intelectual ou crescimento pessoal. Não. O interesse é na casca, na aparência.

Os sintomas dessa cultura epidérmica se vê por toda parte, mas o mais evidente são as coleções de jornais. Um jornal lançou livros de filosofias com capas horrorosas ou, digamos, com uma desenho de vanguarda. Relativamente bem editados, aqueles livros foram feitos para ornar salas: à primeira página já se vê que os tipos minúsculos são ilegíveis: páginas cujos espaços tipográficos são oásis para a vista no meio da confusão do corpo do texto.

Outra coisa: se alguém que comprou o livro pensar realmente em lê-lo, morrerá no esforço visual. Fora que ler é cansativo: nosso Cezinho — chamemos nosso homem prototípico assim — não tem tempo ou paciência. Ou está preso no trânsito, ou está lendo apostilas para terminar a sua faculdade, no curso da moda. Os livros virarão adereço de sala.

O mesmo vale para CDs de ópera e coleção de filmes europeus. Apenas servirá para Cezinho, o arrivista, dizer na facul que tem tal obra de Truffaut, que tem em casa a Carmen de Bizet. Gravações antigas, a preços acessíveis. Com o devido encarte explicando tudo, em linguagem simples, letras grande e bastante figuras. É a casquinha do ovo pintado; dentro: a vacuidade, o exibicionismo, a pirotecnia verbal, a jactância estéril.

Valem-se da antiga cultura apenas para aparências. Realmente não se importam. Querem viajar à Itália porque a Itália fica na Europa e a Europa é um lugar rico (verdade?). Querem um vinho caro porque é caro e não pelo gosto. Tudo neles é descartável, por mais que se pintem de ouro. É uma questão de mera conveniência.

Quanto aos livros, logo se detecta um arrivista: eles estão todos na sala, no belo rack comprado em vinte prestações naquela loja popular. Marx, Kant, Santo Agostinho, Platão, Bizet, Carmen, Mussorgsky. Tudo junto, numa lambança sem fim. Eles não querem chegar a lugar algum com isso, apenas pavonear-se.

E tenha plena certeza: Cezinho dorme muitíssimo bem à noite.

193. A Líbia e seu Rei

A guerra civil na Líbia chama-nos a atenção. Ligada também à onda da Primavera Árabe, traz consigo alguns questionamentos comuns. Por exemplo, como os rebeldes conseguiram organizar-se tão rapidamente? E como conseguiram derrotar um regime consolidado — e muito bem armado — em tão pouco tempo?

Basta que nos lembremos da Guerra Civil Espanhola. Houve um cisma no país, os lados estavam relativamente equilibrados e as batalhas arrastaram-se por longos três anos, entre 1936 e 1939.

Como os rebeldes tiveram tamanha adesão das Forças Armadas líbias em um ambiente politicamente anaeróbico? Pela sequência e o desenrolar das revoluções nos vários países árabes, há motivos suficientes para se pensar em um movimento pan-arabista — que ainda não se fez visível — ou, pior ainda: um movimento pan-islâmico, possivelmente concentrado na Irmandade Islâmica.

Sabe-se que a Irmandade é muito forte no Egito e sempre se opuseram ao laicismo nasseriano. Mas e nos outros países? Teria ela força suficiente para subverter os governos?

Voltando à Líbia. O que acontecerá com o fim iminente da era Kadafi? Os rebeldes, agora já considerados por muitos os representantes legítimos do povo líbio, por meio do dito Conselho Nacional de Transição, estão apresentando alguns sinais claros de racha, nas palavras do próprio vice-líder do Conselho, Mahmoud Jibril, que hoje lhes pediu calma.

O futuro próximo da Líbia parece nebuloso. Cedo ainda para dizer que o país se tornará um novo Iraque, mas também cedo para dizer se os rebeldes saberão adaptar-se aos nossos tempos tão “democráticos”.

O mundo árabe é notório por monarquias absolutistas (ou semiabsolutas) e autocracias. O Egito deixou de estar nas mãos do Rei Farouk e caiu logo no pan-arabismo de laivo socialista de Gamal Abdel Nasser. A Síria também teve o comando passado de pai para filho em um regime pretensamente republicano. Tunísia, a desordem do Líbano, a monarquia absoluta da Arábia Saudita. Parece que as perspectivas para a Líbia, vistas do Ocidente, não são das mais animadoras.

Um parcela dos rebeldes chega a falar na restauração da Constituição de 1951, o que implicaria em chamar o herdeiro do Trono líbio, o Príncipe Mohammed El Senussi, exilado no Reino Unido. Ao que parece, a dinastia com longa tradição político-religiosa desde a época do domínio otomano, é ainda muito popular em algumas regiões da Líbia, principalmente na Cirenaica.

Mohammed El Senussi é sobrinho-neto do Rei Ídris I, único rei do período da Líbia independente, entre 1951 e 1969. O regime do Coronel Kadafi tentou apagar os símbolos da família, chegando mesmo a destruir a mesquita considerada o centro da dinastia.

Possivelmente, o representante da dinastia seja a única pessoa que tenha poder de aglutinação para estabelecer um novo estado líbio, com base no poder moral e religioso emanado da família. É sintomático que os rebeldes tenham escolhido por flâmula a antiga bandeira do reino, que tem em sua faixa preta com o crescente o símbolo da dinastia.

Só se espera que os líbios façam a escolha correta e chamem Mohammed para assumir o trono, antes que surja outro Kadafi.

192. Ponto no mapa

A noite cai pesada sobre a cidade,
a cidade perdida entre rodovias…
O vento sul assovia seco
nas juntas dos tijolos da Matriz;
seco, agita o chafariz
no silêncio observado apenas
por solitários e ávidos
olhos febris.