191. Lamento de Zé Maria

A ele mesmo, que ressurgiu por acidente em Araraquara

Vi nos jornais que o encontraram. Faziam o piso da cozinha da escola quando despontou uma superfície arredondada, branca, porosa. Os pedreiros entreolharam-se: seria uma pedra? Mas, pelo tato, desconfiavam que não e tiveram um calafrio de sacro pudor. Delicadamente, com uma pazinha e com medo, foram escavando ao redor. Era um crânio; era você. Pobres homens que o desenterraram, devem quase ter enlouquecido de pavor.

Qual a sensação de, após tantos anos, tirar essa terra das órbitas dos olhos? De tirar essa terra que lhe estava fazendo a vez de cérebro? Imagino que deva ser algo libertador, uma sensação única que apenas os sepultados na terra pura, sem os rigores da madeira e das flores – ou que essas tenham virado apenas marcas de terra – e exumados por acidente podem ter.

Mas que desespero acordar e não saber quem é; de não saber onde está. A terra apagou-lhe a memória. Os que o acharam tampouco sabiam de algo. Eram pedreiros: sabem assentar pisos e erguer paredes, mas nada sabem sobre o passado ou o que está sob a terra; nem têm como saber mais.

Chamaram mais gente. Encarregado da obra, secretário de Obras, diretor do departamento histórico, arqueólogos. Todos discutiam ao seu redor, olhando para você, ali, ainda sobre a terra da qual saiu, nesse novo e estranho parto mineral. Levantou-se que no terreno onde hoje se ergue a já antiga escola houve um cemitério, o primeiro cemitério da cidade, aqueles cemitérios feitos fora do perímetro da vila, pois os vivos não queriam ouvir as conversas dos mortos durante a noite. Quando foi desalojada a primitiva necrópole, trasladaram-se os restos mortais dos moradores pioneiros, dos primeiros habitantes. Mas você ficou. Esqueceram-no ali: cento e cinquenta, cento e sessenta anos sob a terra, sob a escola. Quantos pés não passaram sobre você sem sonhar com a sua presença. Mas você dormia, como se espera de restos mortais. Seu aparecimento foi assustador e belo.

Mas o que você pode nos contar? Você dormia e os vermes levaram a sua memória. Não sabe mais quem é, nem de onde veio. Sabemos apenas que morreu na cidade e quem pode dizer se você não estava apenas de passagem, vindo de outras paragens? As mãos do Hamlet rústico ergueram sua caveira no mesmo gesto, mas você não é Yorick. Quem sabe o que você fazia? Edil, intendente, criador de gado, contrabandista?

Tampouco lhe deram a loquacidade das caveiras de Castelao, que se pensavam ainda vivas e carregavam consigo todos os trejeitos da velha sociedade. Ficou você no silêncio sólido da terra, sem companhia, esquecido pelos que esvaziaram o cemitério em algum ritual profano de pás e picaretas.

Um esqueleto do século XIX. O século XIX foi o outro dia. Mas para um país novo e para uma cidade ainda mais nova, o Novecentos tem ar de pré-história. Pode ser você não seja o Zé Maria, esse nome jocoso que lhe deram, mas um dos fundadores, quem sabe? Mas se você mesmo não pode dizer nada…

Outro dia, por um acaso do destino e totalmente sem conhecimento, passei diante do armário onde você aguarda, dentro de um saco plástico, sabe-se lá qual decisão e de quem, e ouvi um choro baixinho, bem baixinho. O choro ósseo de alguém que não sabe de suas origens, que esqueceu do passado e não há quem lhe restitua esse patrimônio. O coma de terra levou a sua memória; levou a nossa memória.

Mesmo a cidade não sabe de seu passado. Em meros cem anos, perdeu-se tudo. O ontem já é objeto de estudo arqueológico. Os cacos dos pratos dos nossos bisavós já são relíquias. Que diriam de nós os romanos, há dois mil anos sepultados, Zé Maria? Falavam um latim diferente dos fragmentos de latim de missa que você se recorda fracamente.

Nosso destino é o mesmo, Zé Maria. Apenas mortos, sumiremos, e um dia, morre a última pessoa que tinha alguma referência de nós. Ao felizardos, há sobre suas cabeças uma lápide com um nome gravado, com uma data gravada. Um quem e um quando. Mas se lhes arrancam essas lápides, como foi o seu caso, adeus passado, adeus tempo: fica como aquelas ossadas pré-históricas achadas de vez em quando: ganham um nome postiço e uma data provável.

Bem-vindo, Zé Maria, à galeria dos ilustres desconhecidos.

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