190. Exatidão

Pedro Rocha na sua meia idade

Pedro Rocha e Nicolá Quépri conversam na sacada da casa do primeiro, enquanto fumam palheiro.

Pedro — Viu o que saiu no jornal, Nicolá?

Nicolá — Não, não vi o jornal ainda hoje…

Pedro — Li no Rostro que acontecem doze crimes por dia em Portocalópole…

Nicolá — Pois é… Portocalópole já não é mais aquela cidadezinha tranquila. Está se expandindo indústrias, empregos… e com isso vêm também os problemas das grandes cidades… trânsito, drogas, crimes…

Pedro — Verdade. Mas penso que, seguindo a lógica, é possível evitar transtornos… uma questão de matemática pura…

Nicolá — Gostaria de ouvir…

Pedro — Bem, se na cidade acontecem doze crimes por dia e o jornal é enfático quando diz “um a cada duas horas”, é porque devem ter cronometrado… é matemática: os meliantes têm hora certa para agir. Basta evitá-las e também aos bairros mais atingidos por essa peste…

Nicolá — Sinto discordar, sô Pedro, mas isso é apenas uma estatística…

Pedro — Estatística é Matemática e a Matemática, ao contrário da sociologia, da historiografia, é exata e não permite aproximações ou divagações…

Nicolá — Mas dentro de uma média, a ordem pode ser aleatória…

Pedro — Recuso-me a aceitar essa aleatoriedade. Não há espaço para isso no mundo dos números e da ordem. Falta apenas determinar o horário exato das ocorrências.

Nicolá — Isso não tem cabimento. Podem acontecer todas as doze ocorrências num único dia, mas podem ser que se concentrem na parte da tarde ou entre as dez e as onze da noite…

Pedro — Ara, Nicolá! Ceda, homem. O Rostro é claro como o dia: são doze por dia; não fala em um absurdo e irracional acúmulo. Estamos falando de assaltos e não de literatura. No mundo há uma ordem racional, possivelmente de ordem divina, que regula os eventos. Não há espaço para a aleatoriedade.

Nicolá — Hum…

Pedro — Parece óbvio que os crimes acontecem nas horas pares cheias, pela distribuição. O jornal é claro: “um quarto da viagem entre Portocalópole e a capital”.

Nicolá — Mas é só um exemplo, homem!

Pedro — Matemática é Matemática. É como a guilhotina: ela não corta apenas meio pescoço ou um quarto dele, aleatoriamente. Corta-o por completo se estiver bem regulado tudo. A estatística é uma máquina bem azeitada e em conformidade com a realidade. É infalível. Cada centavo que aparece nos orçamentos públicos são levados em conta; ou você teria uma explicação melhor para valores bilionários com precisão de centavos? Para que os centavos então? Precisão, sô Nicolá, precisão.

Nicolá — Isso não significa nada. Que horas são?

Pedro — Humpf! São três e quarto.

Nicolá — Uma hora ímpar e quebrada, certo?

Pedro — Correto. E por conseguinte, seguríssima.

Nicolá — Verdade? – saca uma arma da algibeira – Então passa a carteira, sô Pedro!

Pedro — Homem, mas o que é isso? Nos conhecemos tem mais de cinquenta anos!

Nicolá  — Ha, ha, ha! É só para te mostrar que as coisas são aleatórias e que podem acontecer a qualquer instante ou simplesmente não acontecer… não quero sua carteira.

Continuaram os dois a fumar e a olhar a rua. Passa-se um bom pedaço.

Pedro — Não valeu, sô Nicolá. Vosmecê não tinha intenção real de me assaltar. Continuo certo.

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