187. Intermitências urbanas

Fotografia das Regiões Metropolitanas de São Paulo e da Baixada Santista tirada pelo Landsat-5 em abril de 2010 (fonte: pt.wikipedia)

Não se trata de Roma, Paris ou qualquer outro lugar eternizado pela literatura. São apenas ruas comuns dum país que não teve ainda tempo suficiente para dedicar-se às belas letras – e pode ser mesmo que o tempo tenha já passado.

Há sim, bem ou mal, alguns lugares consagrados: a praia de Copacabana, a Praça da Sé, a avenida Paulista. Mas o que significa a igreja Matriz de uma cidade do interior? Ainda mais que já foi refeita três ou quatro vezes, ao gosto da época e do progresso rolo-compressor…

Ruas que não devem ter vinte anos, em que tudo parece de uma precariedade assustadora. Seixos emergem do asfalto, calçadas com seus segmentos estraçalhados por um mato grosso que insiste em nascer. Terrenos vazios, gigantescos terrenos vazios. O vento da tarde de outono tirando longas e plangentes notas das arestas das casas.

As áreas extremas das cidades têm esse aspecto; se não são delimitadas bruscamente por largas rodovias que ligam pontos distantes, elas vão lentamente transmutando-se, passando de urbanas a rurais devagar, até que, como quem pede desculpas por uma falha, o último segmento de rua de terra batida morre num descampado.

Agora, o ritmo de crescimento das cidades é bem mais lento do que era há trinta ou quarenta anos; possivelmente essas transições ainda existirão tal como são por um certo tempo. Lembro-me de um trecho do Juó Bananère sobre a rapidez das construções na cidade de São Paulo:

S’immagine che a genti vá pigá un girio disposa du giantáro e quano xiga inda a rua da Gonçolaçó tenía lá un tirreno tutto xiigno co gapino. Intó a genti vai alí p’ra dianti invisitá uno amighe e quano già vurtó, spia p’ro tirreno, nisciuno, ma inveiz stá faziada lá una bunita casa maise bunita da casa do Capitó. (1)

Também nas cidades do interior, por conta da industrialização, sentiu-se o mesmo movimento imobiliário. Vilas que eram dobras do nada, em quarenta ou cinquenta anos tornaram-se centros regionais de peso. Bairros novos surgiram dos pastos e das matas para abrigar a população que crescia.

É curioso que dentro do tecido de algumas cidades interioranas, apesar do adensamento, conservaram-se terrenos sem uso e esse ar de transição; ou que bairros surjam relativamente isolados da área urbana, com quebra da continuidade e que, para se deslocar desses ao núcleo do município, é necessário passar por trajetos curtos de verdadeiras estradas vicinais, muito embora essas já ostentem alguma denominação de rua ou mesmo avenida, traindo a percepção que temos.

 * * *

(1) trecho do texto de Juó Bananére, alcunha literária de Alexandre Ribeiro Marcondes, publicado n’O Pirralho nº 37, de 20/04/1912. Versão estabelecida na antologia constante em Juó Bananere – Irrisor, irrisório, de Carlos Eduardo S. Capela, Edusp/Nankin Editorial, 2009, p. 189.

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