186. A cidade de cada um

Avenida Tiradentes nos anos 20. Foto: Prefeitura de São Paulo.

“Ninguém deixa sua pátria por turismo definitivo”, disse eu, certa vez, a uma pessoa que se pavoneava de ser oriundi. É lógico e certo ter orgulho de suas origens, seja ela qual for, mas, às vezes, algumas pessoas chegam à pieguice e a uma ideia de “superioridade” que não condiz com a condição inicial de seus antepassados.

Qual paulista pode-se dizer filho da terra, legitimamente? Por direito sanguíneo, muitos poucos. Somos, em grande parte, provenientes de uma imigração recente – o que são meros cento e trinta quarenta anos na história da Humanidade – que encontrou aqui condições não lá muito salutares de convívio com os velhos paulistas. Alcântara Machado mostra-nos isso numa ficção totalmente lastreada na realidade de então.

Nossos maiores não vieram fazer turismo. Ninguém escolhe largar sua terra, sua língua, um lugar que lhe é culturalmente amigável pelas plagas potencialmente hostis do Novo Mundo. É decisão que muito pesou na mente dos nossos avós e que foi alimentada pelas chicotadas da fome e da exclusão social. O imigrante, em seu novo meio, é sempre um deslocado.

Em São Paulo, tanto na cidade como no Estado, os italianos conseguiram estabilizar-se bem. Eram tantos e tão grande número, que terminaram por influenciar definitivamente a paisagem e a economia de uma terra que acordava para seu potencial econômico, primeiro com o café e, depois, com a industrialização. Não me lembro bem quando e nem onde, vi uma estatística que, em algum período dos anos 20, os italianos eram cerca de 80% da população da cidade de São Paulo.

Seus filhos não eram mais italianos. Produziu-se uma rápida mescla: os pais dificilmente transmitiam a língua materna – alguma língua da península que não o italiano – e os filhos viam-se como brasileiros. Por isso a aquisição de nacionalidade por jus sanguinis, como há em alguns países como a Alemanha, por exemplo, soa-nos tão estranha. Filhos de italianos, não importava: nascidos em território nacional, eram brasileiros.

Mesmo esses imigrantes, vindos na esteira de condições precárias da Itália e outros pontos da Europa, logo viam os filhos crescerem e quando percebiam, tinham passado mais da metade da sua vida aqui. Tornavam-se brasileiros não por documentos, mas por hábito.

 * * *

Penso na vida dessas pessoas: largando o pouco que tinham – leia-se aqui tradições e línguas, pois, quase sempre, o imigrante vinha sem nada – em troca de novidades de difícil digestão. Entre alguma nostalgia e o hábito do novo, tornaram-se mais brasileiros do que qualquer outra coisa.

Do mesmo modo, mas em escala menor, é alguém que troca mesmo de cidade. Na verdade, a pátria do homem é a cidade, é a pólis – isso sabiam bem os gregos antigos, unidos pela língua e pela cultura, mas politicamente cada um na sua cidade. A cidade é a verdadeira pátria do homem: a cidade e seu termo, ou seja, seus distritos rurais, mas ligados a um centro urbano.

O homem sabe muito – ou deveria saber – sobre sua pátria pequena: as ruas do centro, as praças; onde ficava a forca ou o pelourinho, as primeiras igrejas levantadas com o suor dos seus maiores. E aqui, seus maiores não são exatamente aqueles que o são por jus sanguinis: fazer parte de uma cidade é ter por maiores seus fundadores e seus primeiros habitantes. Se somos descendente dos imigrantes, somos descendentes da gente que veio depois, mas também nos filiamos a essa tradição mais antiga. Temos direito e dever ao jus territorialis, assim como a nacionalidade de papel.

Quando um homem se muda da sua cidade, há todo um processo de adaptação, não tão dolorido como mudar de pátria, mas também lento e conturbado. Vejamos o exemplo paulista: alguém pode ser da Capital do Estado – e as metrópoles têm um processo mais complicado de pertencimento – e ter de ou querer mudar para uma cidade do interior.

A pátria paulistana marca-se, ao meu ver, pela fragmentação, os inúmeros bairros, mas também pela onipresença de certos locais simbólicos que mantém uma identidade unitária, como, por exemplo o Centro Velho – seja por identidade histórica ou mera questão de passagem diária – ou a avenida Paulista – quantos não usam a avenida para passear, distrair-se? Quer ver um flâneur paulistano? Basta ir à Paulista.

Vamos para o ponto mais histórico do argumento. Vejamos o centro. Durante muito tempo certo político e econômico do Estado. Hoje um pouco relegado a papéis secundários por conta da própria inaptidão de prédios antigos e ruas estreitas às atividades da nova economia. Os prédios mudaram muito, certamente. Basta lembra-se das primeiras fotografias da cidade, produzidas por Militão: São Paulo era uma vila colonial, quase como as cidades históricas de Minas Gerais. Mas as ruas são as mesmas.

Alguém que veja São Paulo como sua pátria pequena e tenha essa consciência, esperará um ônibus no Parque Dom Pedro II e lembrar-se-á, ou por ditos ou por memória iconográfica, que ali existia um grande pântano onde o Tamanduateí fazia volteios e meandros e que a retificação de seu canal e seu exílio para o lado oriental da várzea não é natural. Ou que ao fim da ladeira Porto Geral havia um minúsculo porto, porto de canoas, que servia ao rio que ali passou um dia, hoje, o mar de gente da rua 25 de março.

A Basílica de São Bento não é mais a mesma do final do século XVI, que foi derrubada para dar lugar ao atual e elegante templo, mas se sabe que naquele espaço, delimitado por outras paredes, escondeu-se Amador Bueno da Ribeira do povo que queria aclamá-lo rei à força.

Mesmo o prédio do Colégio, reconstruído talvez como fora em sua fundação. Qual paulistano de verdade, nato ou por adoção, não se sente estremecer diante daquele fêmur do padre Anchieta que lá está? O padre canarino, de pais bascos que, junto com Antônio da Nóbrega, fundou aquele mesmo colégio, um pedaço dele repousa ali, como verdadeira relíquia.

Isso para não citar outros lugares, outros templos com ainda mais partes do nosso passado. Até mesmo lugares esquecidos como a igreja com Cambuci, metralhada durante a revolução de 1924; essa mesma revolução que forçou o então Presidente Carlos de Campos a fugir do Palácio dos Campos Elíseos – então sede do Governo Estadual – de trem, para a estação Guaiaúna, na baixada da Penha. Estação que foi derrubada, reconstruída – e ostentou o nome do velho dignatário até sua desativação, em 2000.

Cada parte de uma cidade, por quem a adota ou a ela pertence, traz à mente esse tipo de detalhe tão caro.

 * * *

Quando alguém deixa a sua cidade, já com caráter e ideias formadas, a adaptação é um pouco traumática. Parece que, por exemplo, uma rua foi sempre daquele jeito, para acomodar aquelas lojas. Ou pior: aquela rua simplesmente é. Ela estava ali ontem? Não se sabe. É como se o emigrado ou trânsfuga passeasse por uma cidade cenográfica. Não sabe mais onde estão aqueles pontos de apoio que, de certa maneira, dava sentido a toda visão da pátria perdida.

Logo vêm as tentativas de algum nexo: informar-se, procurar informações. Mas o processo sempre será falho. Os maiores de cá tem nomes diferentes e até, pode-se dizer, soam vulgares frente aos vultos perdidos, que se afundaram centenas de quilômetros atrás. As praças, as ruas, os edifícios art déco ou de um neoclassismo temporão e molenga parecem desprovidos de sentido, como se fossem de isopor e fossem desabar à primeira chuva. Tudo dota-se de uma artificialidade quase insuportável.

Os nomes das ruas embaralham-se. Certo que em uma esmagadora parte das cidades brasileiras – não arrisco a dizer todas – há a rua Sete de Setembro, uma Dom Pedro II, uma Quinze de Novembro e que em quase todas as cidades paulistas há uma Nove de Julho, uma Regente Feijó, uma Pedro de Toledo, mas se cruzam em desordem, ou não se cruzam, ou passam muito longe da vizinhança com que estávamos acostumados a ligar aqueles nomes: um nome puxa o outro e, para quem muda de cidade, certamente, isso deixa de fazer sentido: um sentimento funâmbulo entre a maravilha da novidade combinatória e o desgosto das quebras dos paradigmas ou previsões.

Cada esquina dobrada, mesmo que já se tenha passado ali dez vezes, parece sempre nova, porque a forma das casas, dos prédios, das placas, não se fixam na retina. É como se cada vez que se passasse ali, as coisas tenham sido remontadas às pressas e algo sempre falta ou sempre sobra.

A vida do imigrante ou qualquer outro nome que se lhe dê é assim: uma pessoa que conhece o nome das ruas, mas não consegue resolver os trajetos, e a confusão com a pátria acaba por infiltrar-se na vida menos sensível, nos pequenos hábitos, no equilíbrio emocional: o nervosismo ou a apatia sem motivo. É a sensação de quem sente o espaço fugir ao seu controle.

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1 comentário

  1. Juliana Camargo Zani

     /  20/05/2011

    Mas após o momento de confusão, todo apátrida acaba por adotar a região nova como sua. E, conhecendo todos os meandros de sua nova pátria possui a sensação, não de ter perdido sua identidade regional, mas de ter ganho uma nova.

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